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Arte
Do lixo às cores: arte do grafite ilustra e conta a historia do bairro das Rocas
Parede cheia de gravuras e cores, repleta de rostos conhecidos e de figuras simbólicas, que contam a mesma história: a vida no bairro das Rocas
Mauro Terayama
03/11/2020 | 11:26

Antigamente, a rua Mestre Lucarino, era conhecida como a “Rua do Lixo”. Por lá, muito lixo era descartado de forma indevida e caçambas cheias preenchiam a rua de sujeiras. Desde meados de julho deste ano, os moradores do bairro se mobilizaram para limpar o local e revitalizar o espaço, montando uma estrutura com mudas de plantas em pneus e também com um espaço de playground para as crianças.

A Prefeitura de Natal convocou 25 grafiteiros para ilustrarem um muro de aproximadamente 150 metros com desenhos que representam a cultura e a história do bairro das Rocas.

O muro foi repaginado pelos artistas ao longo de uma semana, estampando desenhos de personagens que fazem parte da cultura e da história do bairro, como o ex-presidente Café Filho, a professora Nair, o Mestre Lucarino (fundador da escola de samba Balanço do Morro), a dança de salão “Araruna”, além de figuras simbólicas como o ex-prefeito Djalma Maranhão e a divindade africana Iemanjá.

“Cada artista pegou um tema específico, sugerido pelo pessoal da comunidade, para retratar a essência do bairro e as pessoas que foram importantes para a comunidade”, disse o grafiteiro Lucas “MDS”, que desenhou o rosto de Mestre Lucarino – fundador da escola de samba “Balanço do Morro”, uma das mais tradicionais de Natal.

Marcelo Borges, responsável pela arte de Dona Dair – uma das professoras mais marcantes das Rocas – ressaltou a importância de poder retratar personagens locais de um bairro tão rico em cultura como o bairro das Rocas.

“O bairro das Rocas é um berço de cultura. Tem os moradores, tem o samba, tem a professor Nair que fez parte da Campanha Pé No Chão. É muito bom você poder retratar pessoas que fizeram parte de uma localidade e isso fica tanto pros familiares, quanto para as novas gerações que não chegaram a conhecê-los, e ter a curiosidade de saber que nesse local tiveram aquelas pessoas que fizeram história”.

Os artistas relatam que fazer os desenhos em um painel tão grande não é difícil. As dificuldades, segundo eles, estão nos imprevistos diários, mas isso não desanima nenhum deles em poder realizar mais um trabalho pelas ruas da cidade.

“A dificuldade se torna prazerosa porque a altura vai facilitar você a fazer traços que em um painel pequeno não dá para fazer. Às vezes temos alguns imprevistos, quando o sol está muito forte, quando chove ou quando não temos iluminação à noite”, disse o artista “Erre” Rodrigo.

Paulo Azevedo faz um retrato de Iemanjá, orixá feminino das religiões Candomblé e Umbanda, que finalizou o trabalho em 4 dias – em horas corridas, o trabalho duraria em torno de 10 a 12 horas. “Sempre tento retratar figuras humanas que dialoguem com a natureza quando surgiram os temas para a gente pintar aqui, o candomblé era um dos que eu mais me identificava. Tivemos essa ideia de fazer Iemanjá e também por retratar ela com a imagem de uma mulher negra, porque geralmente ela é representada como uma figurinha europeia”, disse o artista.

“Eu uso uma referência fotográfica para construir a referência do desenho, mas depois eu vou criando em cima e pintando do meu jeito. Como é um processo mais livre, eu não tive tanta pressa. Eu geralmente me planejo no que eu quero fazer, mas eu sempre fujo um pouco do roteiro para não ficar tão preso à ideia. Grafite é muito isso, espontaneidade e sobre você dialogar com o espaço”, esclarece.

A pintura de manifestação artística do muro teve início no último dia 22 de outubro e o prazo que a prefeitura do Natal deu foi de conclusão até o dia 10 de novembro, mas os desenhos no local devem ser finalizados essa próxima semana. Além do muro das Rocas, os artistas ainda vão expressar a arte em outros locais de Natal, como na Cidade da Esperança, no bairro Guarapes e na Favela do Japão.

Do lixo às cores
Grafite nas Rocas. Foto: Fábio Ewerton/Agora RN

Tabu: grafite x pichação

O grafite está relacionado à imagem e costuma dar voz àqueles que muitas das vezes não são ouvidos. A arte se manifesta em lugares públicos, em espaços que a sociedade transita diariamente e consegue ver os mais variados tipos de desenhos nas paredes, nos muros da cidade, conquistando cada vez mais espaço.

No entanto, ainda existe um tabu social para diferenciar o grafite e a pichação, porque muitas pessoas consideram a pichação – proveniente do “pixo” da escrita – vandalismo devido a forma que é escrita ou rabiscada sem autorização

“Eu costumo dizer que o grafite e a pixação são os dois lados da mesma moeda. Essa ideia de que grafite é o bonito e a pichação é o feio só existe aqui no Brasil. Grafite é um termo que se designa para tudo, o que vai dizer se é legal ou não é a autorização. Então, aqui no Brasil se construiu essa ideia”, explica o grafiteiro Paulo Azevedo.

“É complexo porque a pessoa que faz grafite também picha ou a pessoa que picha não tem a oportunidade de fazer grafite porque é caro. Cada latinha de tinta é 20 reais. Um trabalho de grafite não é barato, mas tem um lado bom: isso dá muita oportunidade a quem enveredar nesse caminho, da ascensão social de pessoas de origem periférica a terem uma profissão e crescer nesse tipo de trabalho. Então assim, o preconceito sempre vai existir pela falta de conhecimento. As pessoas se expressam de formas diferentes e a arte na rua tem muito a ver com a expressão”, pontua.

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