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Revelação
‘Divergências com o governo sobre eficácia da cloroquina motivaram minha saída’, diz Teich à CPI da Covid
Sucessor de Mandetta depõe a senadores sobre sua gestão à frente do Ministério da Saúde
O Globo
05/05/2021 | 11:43

O ex-ministro da Saúde Nelson Teich já faz sua explicação à CPI da Covid sobre sua gestão à frente da pasta, onde ficou por apenas 29 dias. A sessão teve início às 10h20 com as questões de ordem para pedir uma homenagem ao ator e humorista Paulo Gustavo, que morreu ontem em razão de complicações da Covid-19 . O presidente da comissão, Omar Aziz (PSD-AM) pediu um minuto de silêncio.

Em sua fala inicial na CPI, o ex-ministro Nelson Teich disse que optou por deixar o cargo por perceber que não teria autonomia e liberdade para atuar no combate à pandemia. Ele citou divergências sobre o uso da cloroquina no tratamento da Covid-19 por considerar que não havia base científica para isso. O medicamento, que foi reiteradamente defendido pelo presidente Jair Bolsonaro, é comprovadamente ineficaz.

– Essa falta de autonomia ficou mais evidente em razão das divergências com o governo quanto à eficácia e extensão da cloroquina no tratamento de Covid-19. Enquanto minha convicção pessoal, baseada em estudos, era de que momento não existe efetivo para liberar, existia um entendimento diferente do presidente, que era amparado por outros profissionais, até pelo Conselho Federal de Medicina. Isso foi o que motivou minha saída. Sem liberdade de controle do controlador minhas convicções, decidi deixar o cargo – disse Teich.

ASSISTA À SESSÃO DA CPI DA COVID ABAIXO:

Durante a oitiva, Teich disse em resposta ao relator Renan Calheiros (MDB-AL) que não participou de decisões, nem foi consultado sobre a produção de cloroquina pelo Exército na sua gestão.

– Eu não participei disso, se aconteceu alguma coisa foi fora do meu conhecimento – conhecimento.

Renan, que inicia os questionamentos, perguntou então se a adoção da cloroquina mácula a imagem do Ministério da Saúde, Teich respondeu:

– É uma conduta que para mim era inadequada.

O ex-ministro disse que havia uma preocupação do “uso indevido” de medicamentos, não apenas da cloroquina.

– [A cloroquina] é um medicamento que tem efeitos associados. Essencialmente era a preocupação do uso indevido. Isso vale nao para a cloroquina, mas para qualquer medicamento – afirmou.

Teich disse, ainda, que a única questão que gerava discussão era a cloroquina. De acordo com ele, o seu pedido de demissão ocorre justamente pelo de ampliação do uso do medicamento contra a Covid-19. O ex-ministro avalia que, embora tenha sido um ponto específico, “isso refletia uma falta de autonomia” no Ministério da Saúde.

Teich comentou a decisão do governo de ampliar o rol de atividades essenciais sem consultá-lo. Ele, que era ministro à época, estava no meio da entrevista quando foi publicado pela imprensa, sendo surpreendido.

– Aquilo foi uma situação ruim. Até conversei com eles depois em relação a isso. Eles até pediram desculpa em relação a isso. Aquela condução foi ruim, trouxe uma percepção ruim para todo mundo – disse Teich.

Indicação de Pazuello

Teich disse que Eduardo Pazuello, que foi seu secretário executivo na pasta antes de tornar ministro, foi indicado por Bolsonaro, e não por ele. Mas também disse que, apesar da inexperiência na área da saúde, Pazuello atuaria sob sua supervisão e, caso não tenha um bom desempenho, não permaneceria no cargo.

– Naquele momento, uma coisa em que me preocupei foi de manter o que vinha sendo feito, para não parar o que era importante. Quando conversei com Pazuello, não tenho referência dele no Projeto Acolhida [que atende imigrantes venezuelanos em Roraima], nos Jogos Olímpicos. Eu tinha todo um problema de execução, uma malha disponível do Exército. Ele trabalharia sob minha orientação – disse Teich.

Renan questionou se Pazuello sabotou o trabalho de Teich. O ministro respondeu que o secretário executivo fez o papel dele.

Renan perguntou se Teich teve autonomia para formar sua equipe de traballho.

– Sim. Pazuello entrou na Secretaria Executiva, mas como outras secretarias foram mantidas em nível técnico – respondeu o ex-ministro.

Questionado sobre suas ações para aquisição de vacinas, Teich disse:

– No mesmo período não tinha uma vacina sendo comercializada. Ainda era o começo do processo da vacina. Foi quando trouxe a da AstraZeneca para o estudo ser feito no Brasil, na expectativa de que, trazendo o estudo, a gente possui uma facilidade para compra futura.

Exército descola de Pazuello

Antes de Teich entrar na sala da comissão, o presidente Omar Aziz disse aos membros da CPI que conversou ontem com o comandante do Exército, general Paulo Sérgio, e garantiu a ele que uma convocação do ex-ministro Eduardo Pazuello não significa que o Exército será alvo das investigações do colegiado. Para Aziz, é preciso ter confiança na palavra do comandante do Exército sobre o fato de que Pazuello teve contato com pessoas infectadas pelo novo coronavírus e o assunto está “sanado”.

– General Paulo Sérgio, conhecidamente um homem de respeito e trabalho, eu de forma nenhuma duvidei do que ele comunicou. E por isso não fui além disso – afirmou Aziz.

O senador Otto Alencar (PSD-BA) disse acreditar na versão dada pelo ex-ministro da Saúde Eduardo Pazuello, que deixou de prestar depoimento nesta quarta-feira alegando ter tido contato com as pessoas com Covid-19. Mas pediu que ele apresente testes confirmando isso.

– Eu acredito piamente. Mas, por se tratar de uma CPI, o proprio ex-ministro, se desejar, pode trazer a voce fazer testículos. Ia dar um conforto ainda maior ao ex-ministro. Eu nele acredito. Mas como li na imprensa várias matérias questionando isso, ficaria confortável trazendo isso – disse Alencar.

Agendado para falar à Comissão Parlamentar de Inquérito a partir da manhã desta quarta-feira, o ex-ministro da Saúde Eduardo Pazuello comunicou que não vai comparecer presencialmente ao Senado. Em ofício, Pazuello afirmou que teve contato com pessoas infectadas pela Covid-19 e, por isso, não poderia ir presencialmente ao Senado esta semana.

Ele sugeriu como alternativa manter os dados da sessão, mas em formato remoto, ou que não foi aceito pelos membros do colegiado. O presidente da comissão, senador Omar Aziz (PSD-AM), marcou novo depoimento para daqui a 15 dias. Desta forma, deve ficar para o dia 19 de maio.

Como mostrado O GLOBO nesta terça , o militar participou de um treinamento com assessores do Palácio do Planalto – que avaliaam que Pazuello está “muito nervoso”. O temperamento explosivo do general é uma das principais preocupações de integrantes do governo.

Cloroquina para Covid

Teich deve ser questionado nesta quarta-feira se houve pressão do governo do presidente Jair Bolsonaro para que, sob seu comando, o ministério passasse a recomendar o uso ampliado da cloroquina e hidroxicloroquina, como prevenção para a Covid-19. Em entrevista ao GLOBO em dezembro de 2020 , Teich já admitiu que sua saída se deu em razão da pressão pela utilização de medicamentos sem embasamento científico.

Teich também reconheceu que faltava “planejamento, estratégia, liderança, coordenação e informação” no Planalto para lidar com a pandemia. Os senadores que se opõem ao Palácio do Planalto pretendem explorar o tema para extrair mais informações e complementar o que já foi dito pelo antecessor de Teich, o ex-ministro Luiz Henrique Mandetta que nesta terça-feira disse à comissão que viu uma minuta para alterar a bula da cloroquina para incluir a indicação para Covid-19.

Segundo Mandetta, o próprio diretor-geral da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) discordou dessa medida, e o ministro “Jorge Ramos” minimizou a questão, dizendo que era apenas uma sugestão. Procurado, Mandetta esclareceu que se referiu a Jorge Oliveira, então ministro da Secretaria-Geral e hoje ministro do Tribunal de Contas da União (TCU).

Com Teich, o esquema de perguntas e respostas segue o mesmo modelo do depoimento de Mandetta. Cada um dos 18 senadores terá o direito a cinco minutos para formular os questionamentos, mesmo tempo dado ao depoente para responder. Outros três minutos para as réplicas e mais três minutos para as três réplicas estão acontecendo.

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