51 anos são mais que suficientes para marcar a história da cultura natalense e a Discol é prova disso. Há mais de meio século, essa vitrine de discos no Centro Histórico de Natal segue atravessando gerações e acompanhando as transformações da música e da capital potiguar à sua maneira.
Aberta em 1975 como uma filial da sede em Campina Grande (PB), a Discol se instalou no bairro da Cidade Alta, em frente ao antigo Cinema Nordeste, que hoje já não existe mais. A loja deixou de ser apenas um comércio de novidades da música para virar parada obrigatória de quem frequentava o antigo cinema ou buscava conversar sobre artistas e tendências do mundo musical.

Ao longo dos anos, a Discol viveu diferentes fases com seus visitantes: eram estudantes que saíam das aulas para escutar música, grupos reunidos na calçada para assistir apresentações em DVD ou pessoas que aproveitavam encontros ao ar livre com discotecagens e atividades culturais.
Assim, a loja se consagrou como um ponto cultural.
A história do espaço também se conecta com a de Luís Brás de Araújo, paraibano que veio para Natal junto com a Discol, quando era office boy. Ele começou como ajudante e acompanhou cada mudança no mercado musical, acumulando lembranças, experiências e repertório, fazendo com que ele se tornasse o gerente do lugar e, mais tarde, o proprietário.

“Eu peguei a gerência durante dezoito anos. Mantive a loja com uma indenização e com a ajuda de um irmão. A gente pegou dinheiro de onde podia para comprar o ponto”, relatou.
Apaixonado por música e trabalhando na área desde os 16 anos, Luís, que também é produtor, conta que segue acompanhando as tendências e está sempre preparado para se renovar. “50 anos no mesmo lugar, não é lá uma coisa muito fácil, não. A loja teve que se reinventar, porque houve mudanças de mídia, como saiu do vinil para o CD, do CD para o MP3”, explicou.
Ele conta que, depois do vinil, passou a vender camisetas que eram, em sua maioria, de bandas e artistas do rock, mas que não parou por aí. A Discol também passou a prestar serviço de digitalização de vinis, CDs e até fitas cassete, bem como fotos e DVDs.

Hoje, Luís divide a rotina com a esposa Simonete Almeida e a filha mais nova, Gabriela Almeida de Araújo, que cuidam da mais recente invenção da loja: o Lado B, café e brechó que funcionam ao lado da histórica Discol. Mas ele ressalta que, na loja, todos os seus filhos tiveram a oportunidade de trabalhar, transformando o espaço em uma espécie de tradição que existe até os dias de hoje.
Atualmente funcionando como ponto de encontro artístico, a Discol promove programações como o Sabadisco, festas abertas ao público, participações em feiras multiculturais e a Discola, que mantêm a circulação de pessoas no lugar.
Ser cultura e resistência
Mesmo sendo um espaço histórico e memorável da Cidade Alta, manter-se firme no Centro Histórico de Natal não é fácil. Com o passar do tempo, a pauta mais discutida entre os comerciantes do bairro era o esquecimento do centro da capital potiguar e, para a Discol, não foi tão diferente: Simonete Almeida defende que a Cidade Alta precisa e tem potencial para um “despertar”.

“Quando a gente diz que o centro está sendo esquecido, é pelo poder público. Falta investimento. O centro comercial mais antigo de Natal, que é o centro da cidade, está abandonado nesse sentido. A própria população também precisa voltar a frequentar. Esses centros só vão crescer se a população usufruir”, frisou.
Gabriela Almeida de Araújo, que além de trabalhar no Lado B da Discol, também é arquiteta, conta que, historicamente, a tendência é que os centros das cidades passem por altos e baixos, mas que isso também depende do incentivo público. “O centro comercial originalmente era aqui e ele vai migrando, naturalmente, e ele vai se afastando do centro original. Mas se não tem uma ação do poder público quanto a isso, a tendência realmente é que ele caia numa lógica de abandono”, disse.

“Eu vejo nesses espaços, realmente, resistência. O centro hoje é feito das pessoas que estão trabalhando nele. Tem o Bardallos, que está sempre ali, o Bar do Pedrinho, que é mais antigo aqui, tem o espaço cultural Ruy Pereira também”, citou Gabriela.
Apesar do sentimento de esquecimento, ela diz que vem criando um olhar otimista sobre o centro, especialmente depois do crescimento das ações culturais promovidas pela Discol. “Pode ser também porque a gente vem melhorando, aí a gente vai tendo uma visão diferente, a gente vem movimentando [a cidade]”, contou.

De geração para geração
Luís Brás presenciou todas as transformações vivenciadas pela Discol e relata que não é só o espaço físico da loja que passou entre gerações. Os clientes da loja também foram mudando, ou melhor, se renovando: antes, o local que recebia especialmente colecionadores ou amantes de discos antigos, começou a receber jovens apaixonados por cultura, música e antiguidades da arte.
“Cada geração foi mudando e a gente foi se adaptando. Hoje, o cliente mais antigo vem aqui, acha alguns discos para completar sua coleção; tem cliente que não gosta mais da mídia física e pede para fazer playlist de músicas; a geração atual tem frequentado a loja também, ou seja, a gente tem a frequência de gerações”, relatou.

Simonete também compartilha dessa visão e diz que o vinil voltou com força considerável, sobretudo com o impulso do lançamento de versões especiais em vinil por artistas da cultura pop e rock. “O vinil voltou para o mercado, deu uma alavancada de cinco anos para cá. As pessoas gostam do vinil original e alguns tem bastante valor, ele pode variar de R$ 1 até R$ 2.000. Os valores também são bem diferenciados”, disse.
O Lado B da Discol
É comum um disco ter um lado A e um lado B e com a Discol não seria diferente. O novo empreendimento, inaugurado em 2025, faz parte da renovação diária da histórica loja de vinis do centro da cidade e surgiu de uma vontade de anos atrás.

A ideia surgiu depois que Gabriela começou a trabalhar com os pais na Discol, há quase três anos, e buscou trazer uma nova clientela para a loja. A jovem, que também é apaixonada por música e arte, iniciou uma divulgação mais direcionada à quem utilizava redes sociais, juntamente com propostas de iniciativas de discotecagens e eventos que lotaram o espaço e fecharam a rua.
Quando o ponto comercial vizinho à loja ficou vago, em 2024, a família viu uma nova oportunidade de empreender e correu atrás de recursos e reformas para dar uma nova cara ao que antes estava fechado, inaugurando o novo espaço em 2025, no aniversário de 50 anos da loja. “Há muitos anos eu tinha vontade de pegar esse ponto e colocar uma loja de roupas, então resolvemos pegar. Gabi sugeriu um brechó – em todo centro tem um brechó – e aí veio a ideia do espaço café, brechó e arte”, disse Simonete.
Hoje, é Gabriela quem está à frente do Lado B junto com a mãe. Enquanto o funcionamento do café segue nas mãos da filha mais nova, a curadoria das peças de roupas, bolsas e calçados é toda feita por Simonete. “Eu percebo que a clientela do brechó são os mais jovens, e aí já se mostra uma visão de reúso. É importante que os jovens tenham essa percepção de que se vestir bem não é comprar numa loja cara. Chegam muitas roupas boas”, falou.
Com arte por todo lado, roupas nos cabides, opções doces e salgadas e um café moído na hora, a Lado B também realça as ações culturais do local. O espaço recebe, com frequência, rodas de conversa e reuniões culturais, bem como mostras e festas, que, por vezes, contam com a participação do irmão mais velho de Gabriela, que também atua no cenário musical e é DJ.

Cine-Cidade Discola
Um dos eventos mais novos realizados pela Discol foi o Cine-Cidade Discola, uma iniciativa que juntou cinema de rua gratuito, rodas de conversa, muita música e discotecagem. Em janeiro, ao longo de um dia inteiro, o Centro se tornou palco para exibição de filmes, troca de vivências e experiências, fomentando a cultura de forma gratuita e aberta para todos os públicos.
Gabriela, que está à frente dos projetos culturais da loja, conta que passaram pelo evento mais de 500 pessoas entre as 9h e as 22h. “As sessões lotaram, tinha gente nas calçadas, deu muito certo”.
A ação foi fruto da participação em um edital da Lei Aldir Blanc de apoio à cultura. O evento também contou com o apoio do projeto Aqui já Existiu Cinema, que mapeia e resgata memórias de espaços em Natal que um dia já puderam exibir filmes.

Uma das produções exibidas foi o filme A Maré, da Rabicó Produções, com direção de Jair Libanio e Sound Design de Breno Vieira, que destaca o evento como um movimento de resgate. “Nós fazemos filmes para serem contemplados pelas pessoas e a partir daquilo, gerar algum impacto por meio de reflexões ou debates acerca de assuntos diversos, coletivos e/ou individuais, então ter eventos que levem nossos projetos para serem exibidos gratuitamente e no nosso centro histórico pra mim foi como um movimento de resgate totalmente necessário, que nos leva a valorizar a cultura e a história local”, disse.
Breno parabenizou, ainda, os organizadores do evento: “Vem fazendo uma movimentação massa. Fiquei bem feliz de poder contemplar um filme em que participei na produção, mas também de prestigiar produções de outros colegas da área, toda essa união me deixa instigado a continuar realizando mais e mais”, falou.

Com a ação, o estudante de audiovisual que já carrega uma experiência com desenho de som e mixagem diz que o trabalho vem sendo valorizado de forma gratificante. “Não é um processo fácil, é pré produção, gravação e pós produção, tem toda uma organização coletiva por trás antes de soltar o filme pro mundo, processo demorado, desgastante, e muitas vezes até precário principalmente pra nós da nova geração de realizadores, mas que conseguiu chegar ali. É sobre resistência, então sim, dá visibilidade e relevância para nós enquanto jovens profissionais iniciando no mercado, mas a exposição também é importante para mostrar que tem novos nomes chegando na cena com novos conceitos e visões sobre nossa cultura, e isso precisa ser incentivado”, destacou.
“Tem muita coisa massa sendo produzida aqui, sou muito grato a galera da Aqui já Existiu Cinema e Discol pela oportunidade dessa mostra. Sem toda a dedicação das pessoas por trás dessas ações há muitas chances do nosso trabalho não ser devidamente contemplado pois o alcance fica muito limitado”, relembrou Breno.
A Maré é um produção realizada a partir de histórias contadas por quem vive do Rio Potengi, expondo memórias, vivências e a força de uma população que continua a fluir entre o rio, o mangue e a cidade. Sobre a produção, Breno diz que tinha em mente fazer referências a Chico Science e Nação Zumbi, assim como o movimento manguebit como um todo. “O protagonismo mesmo foi a paisagem sonora envolta do nosso rio, captadas por Victor Morais e Jade Helena, que além das nossas águas, também captaram nuances de intervenções da nossa gente no cotidiano”, finalizou.