O diretor de elenco Gabriel Domingues acredita que o filme brasileiro “O Agente Secreto”, dirigido por Kleber Mendonça Filho e estrelado por Wagner Moura, pode alcançar destaque na disputa pelo Oscar. Responsável pela escolha dos atores do longa, ele afirma que a variedade de perfis no elenco é um dos fatores que podem contribuir para o reconhecimento da produção.
Segundo Domingues, o conjunto de intérpretes reúne trajetórias e origens diferentes, o que ajuda a compor personagens marcantes e a ampliar a força narrativa do filme.

“Muitos são uma amostra da nossa complexidade. Isso fortalece a mitologia do cinema brasileiro”, afirma.
Para o diretor de elenco, o cenário internacional também tem se mostrado mais aberto a produções com maior diversidade. Ele lembra que a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas passou por mudanças nos últimos anos para ampliar a pluralidade entre seus membros.
Domingues destaca ainda que o processo de seleção buscou equilibrar nomes conhecidos com artistas menos presentes no grande circuito comercial. Entre eles estão a cantora e compositora Tânia Maria, de 79 anos, e o ator Roberio Diógenes.
A presença de Tânia Maria chama atenção por sua trajetória consolidada na música. No filme, ela interpreta uma artista em fim de carreira que, após perder espaço no mercado, passa a se apresentar em um programa de TV.
Em uma das cenas, a personagem canta “Yellow Cake”, música criada especialmente para o longa e também apresentada durante o Festival de Roterdã.
“O filme reúne personagens muito densas, pelas quais muitos têm sido hipnotizados. Os sotaques geram identificação e são importantes para o discurso do filme — que tem chamado atenção pelas suas pretensões políticas”, diz Domingues.
Para ele, o fato de o elenco não ser formado por grandes estrelas internacionais também permite que o público concentre a atenção nas interpretações.
Reflexões sobre memória e ditadura
Além da discussão sobre o elenco, o longa também desperta interpretações sobre seu contexto histórico. Em artigo de opinião, o crítico de cinema Inácio Araújo observa que “O Agente Secreto” costuma ser associado a uma narrativa sobre a ditadura militar brasileira, embora o filme não se restrinja a retratar diretamente esse período.
Segundo ele, a obra utiliza esse contexto como ponto de partida para discutir temas mais amplos ligados à memória e ao esquecimento histórico.
Para o crítico, o filme se aproxima da ideia de um “tempo de pirataria”, marcado por instabilidade e incerteza, em que personagens tentam compreender acontecimentos políticos e sociais.
Araújo aponta que o cinema de Kleber Mendonça Filho frequentemente dialoga com o passado para refletir sobre o presente. Em “O Agente Secreto”, esse movimento aparece na maneira como o enredo aborda violência, repressão e relações de poder.
O protagonista Armando, interpretado por Wagner Moura, surge como um personagem em busca de respostas. Ao tentar reconstruir sua própria história, ele acaba se deparando com fragmentos de memórias que revelam aspectos mais profundos da realidade política brasileira.
Para o crítico, a obra articula suspense e reflexão histórica ao mostrar como experiências individuais podem se conectar com acontecimentos coletivos.
Adaptado de reportagens de Davi Galanter e Inácio Araújo, publicadas na Folha de S.Paulo.