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Cultura

De monumentos a tradições populares, cultura potiguar enfrenta desafios de conservação e apoio

Entre abandono e resistência, o patrimônio potiguar revela a luta pela preservação da memória
Fernando Azevêdo
29/08/2025 | 07:57

O Rio Grande do Norte tem sua história contada por lugares como o Forte dos Reis Magos, o rio Potengi e bairros como a Ribeira e as Rocas, com um passado que inclui um papel estratégico na Segunda Guerra Mundial. Mas essa memória está sendo preservada? A série especial “Retratos da nossa história” percorreu alguns dos locais mais emblemáticos do estado para entender como o patrimônio público potiguar é tratado.

Essa história também é contada por manifestações culturais populares como a literatura de cordel, o teatro de João Redondo e o Boi de Reis, que atravessam gerações e se mantêm vivas, apesar da dificuldade de investimentos e da necessidade de inclusão no currículo escolar. A cena de arte independente também resiste, apesar da falta de apoio.

rio potengi
Manifestações culturais tradicionais atravessam séculos e se mantêm vivas em solo potiguar. Foto: José Aldenir / Agora RN

O grupo Boi de Reis do Bom Pastor, por exemplo, busca o interesse das crianças em escolas e eventos. A Associação Cultural Casa do Cordel promove a literatura popular em terras potiguares Já a Casa da Ribeira resiste há 24 anos, enquanto iniciativas como o Clube Frisson e a Segunda do Vagabundo, nas Rocas, mantêm a música e o samba vivos. A Casa da Ribeira, inclusive, acabou de abrir uma sala de exibição – resgatando o espírito dos antigos cinemas de rua.

Forte dos Reis Magos

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Forte dos Reis Magos tem desafios que podem comprometer a experiência de visitantes. Foto: José Aldenir/Agora RN

Marco inicial da capital potiguar, o Forte dos Reis Magos tem desafios que podem comprometer a experiência de visitantes interessados em conhecer a história do Rio Grande do Norte a partir da edificação militar. Apesar disso, sua importância histórica atrai a visitação de 5 mil pessoas mensalmente.

No monumento, há danos físicos visíveis e falta adaptação para pessoas com deficiência visual. A Fundação José Augusto afirmou que prevê reparos de combate a incêndio, manutenção elétrica, reboco e pintura para 2026. Qualquer intervenção no espaço precisa ser aprovada e fiscalizada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), pois o Forte é um bem tombado em nível federal desde 1949.

Ribeira e Rocas

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Ribeira reflete descaso com o patrimônio histórico da capital potiguar. Foto: José Aldenir / Agora RN

Dois dos primeiros bairros de Natal, a Ribeira e as Rocas refletem o descaso com o patrimônio histórico e cultural da capital potiguar. Percorrendo as ruas desses bairros, é possível notar a degradação, os imóveis abandonados e os desafios que a população e o comércio local enfrentam. Contudo, a cultura resiste, com instituições como a Casa da Ribeira e eventos como a Segunda do Vagabundo mantendo vivas as tradições e a identidade local.

A revitalização de bairros históricos é uma pauta que vez ou outra retorna ao debate público em Natal, mas a falta de políticas de preservação urbana chama a atenção de quem passeia nesses locais. Em 2010, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) tombou o conjunto arquitetônico, urbanístico e paisagístico de Natal, englobando a Cidade Alta e parte da Ribeira. Tanto a Ribeira quanto as Rocas abrigam importantes traços da história da capital potiguar.

Rio Potengi

Natal comemora 425 anos de história e cultura
Rio Potengi é símbolo de biodiversidade e história. Foto: José Aldenir / Agora RN

O rio Potengi, um dos mais importantes do RN, é símbolo de biodiversidade e história. Sua importância é tamanha que ele inspirou o próprio nome do estado, sendo batizado como “Rio Grande” pelos colonizadores. No entanto, a preservação de seus recursos naturais é um desafio. Apesar disso, o rio segue como fonte de renda essencial para pescadores artesanais, que cobram mais apoio do poder público.

Apesar de sua beleza e riqueza de ecossistemas, o rio enfrenta desafios socioambientais. Em resposta a essa situação, o Instituto de Desenvolvimento Sustentável e Meio Ambiente (Idema) do RN anunciou a criação da Reserva Extrativista Parque dos Mangues, uma demanda que existe desde 2005 para mitigar riscos ambientais.

Segunda Guerra no RN

CCTV preserva história da Segunda Guerra Mundial no RN
CCTV preserva história da Segunda Guerra Mundial no RN. Foto: José Aldenir / Agora RN

O Rio Grande do Norte esconde em seu passado um protagonismo que muitos de seus próprios moradores desconhecem. A capital potiguar já foi um ponto estratégico na história da aviação e na Segunda Guerra Mundial, enfrentando o desafio de reconectar a população com sua história. O Centro Cultural Trampolim da Vitória (CCTV), em Parnamirim, busca contar esse protagonismo.

Na antiga base do Aeroporto Internacional Augusto Severo, o CCTV tem um acervo de imagens e objetos históricos que resgatam a história da aviação desde os anos 1920, quando os europeus e os norte-americanos começaram a chegar a terras potiguares por meio do ar. Natal se tornou a maior base aérea americana fora dos EUA. Esse e outros fatos históricos são contados no CCTV, que enfrenta desafios de financiamento para ampliar sua estrutura e acervo.

Patrimônio cultural

Patrimônio cultural do RN precisa receber mais apoio, dizem artistas
Patrimônio cultural do RN precisa receber mais apoio, dizem artistas. Foto: José Aldenir / Agora RN

As manifestações culturais tradicionais atravessam séculos e se mantêm vivas em solo potiguar, mesmo em meio a pouco investimento. O patrimônio cultural imaterial do estado é repleto de bons exemplos de que a arte resiste, se reinventa e segue encantando as novas gerações. Essa cena é apoiada com as leis de incentivo, mas artistas pedem mais apoio e defendem que a cultura popular nordestina esteja inserida também na educação.

Na visão do professor André Carrico, do Departamento de Artes da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, um dos desafios enfrentados pela cultura popular é a visão do senso comum voltada para algo velho. “As pessoas ainda têm uma ideia muito folclorizada da cultura popular, de que é uma cultura que parou no tempo. E não é nada disso. A cultura popular está viva”, diz ele.