Pesquisa Datafolha divulgada no sábado mostra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) com 46% das intenções de voto em uma simulação de segundo turno da eleição presidencial, contra 43% do senador Flávio Bolsonaro (PL). É o primeiro levantamento divulgado desde que o senador foi anunciado como pré-candidato com o aval de seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro.
Na comparação com o levantamento anterior, realizado no início de dezembro, a vantagem de Lula contra Flávio caiu de 15 para 3 pontos. Antes, o petista aparecia com 51% das intenções de voto, contra 36% do senador na segunda rodada do pleito.

O resultado indica que Flávio se consolidou como candidato de oposição. Em dezembro, quando o levantamento anterior foi realizado, a viabilidade de sua candidatura ainda era vista com ceticismo, e parte significativa dos partidos de centro e centro-direita apostava no governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), como principal nome para disputar a Presidência.
O Datafolha destaca ainda as dificuldades de Lula frente ao rival entre os evangélicos. Neste segmento religioso, o petista alcança no máximo 23% das intenções de voto, enquanto Flávio obtém até metade da parcela dos eleitores. Entre católicos, o petista passa a ser o preferido de até 45% dos entrevistados, contra 30% de Flávio no cenário de melhor desempenho.
Além do cenário de Lula contra Flávio, a pesquisa também simulou outras seis possibilidades de segundo turno, levando em conta os três pré-candidatos do PSD, a reversão da candidatura de Flávio para viabilizar o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), e uma improvável substituição do presidente nas urnas pelo ministro da Fazenda, Fernando Haddad (PT).
Nestas simulações, se Lula disputasse contra Ratinho Jr. (PSD), o petista ficaria com 45% das intenções de voto contra 41% do paranaense. Eduardo Leite (PSD) marca 34% dos votos, contra 46% do petista. Se Lula disputasse contra o governador de Goiás, Ronaldo Caiado (PSD), o presidente teria uma vantagem de 10 p.p., com 46% das intenções de voto contra 36% do goiano.
Mesmo fora da disputa pela Presidência — já que pretende buscar a reeleição ao governo paulista e se comprometeu a coordenar a campanha de Flávio em São Paulo — Tarcísio também aparece tecnicamente empatado com Lula no levantamento. O petista tem 45% das intenções de voto, contra 42% do governador paulista, no embate direto.
Haddad aparece com mais dificuldades do que Lula no levantamento, principalmente no primeiro turno, mas empata tecnicamente com Flávio Bolsonaro no enfrentamento isolado entre os dois. A pesquisa mostra o ministro com 41% das intenções de voto, enquanto o senador teria 43%. O petista também aparece empatado com Ratinho Jr., ambos com 40%, no segundo turno.
O Datafolha ouviu 2.004 eleitores, em 137 municípios brasileiros, entre os dias 3 e 5 de março. A pesquisa está registrada na Justiça Eleitoral com o protocolo BR-06798/2026. A margem de erro é de 2 pontos percentuais para mais ou para menos, e o nível de confiança é de 95%.
Governistas e oposição avaliam resultado
O resultado da pesquisa Datafolha divulgada no sábado acendeu um alerta no Palácio do Planalto. Integrantes do governo avaliam que o cenário retrata um momento de desgaste político enfrentado pela gestão petista.
Auxiliares de Lula atribuem parte do recuo à repercussão de investigações que atingiram pessoas próximas ao presidente. Entre os episódios citados está a atuação da CPMI do INSS, que determinou a quebra de sigilo bancário e fiscal do empresário Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, filho do presidente. A decisão ampliou a pressão política sobre o governo nas últimas semanas. Na quinta-feira, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Flávio Dino suspendeu a medida, atendendo a pedido da defesa do empresário.
Nos bastidores, integrantes do governo admitem que a possibilidade de uma candidatura competitiva de Flávio Bolsonaro vinha sendo tratada com desconfiança por parte do sistema político. O novo cenário, contudo, reforça a avaliação de que o PT pode precisar antecipar uma estratégia de confronto direto com o senador caso ele continue avançando nas pesquisas.
O líder do PT na Câmara, deputado Pedro Uczai (SC), afirmou que o resultado reflete o ambiente de forte polarização política no país, mas sustentou que Lula permanece como favorito na disputa.
“Isso expressa a polarização social e política do país e desafia o governo a ampliar sua comunicação, comparar as realizações e projetar o futuro. Eu não tenho dúvida de que o presidente Lula é favorito pelas condições objetivas”, declarou.
O senador Fabiano Contarato (PT-ES) também avaliou que a disputa tende a ser equilibrada, mas ressaltou que Lula ainda conta com a vantagem de ocupar a Presidência da República.
“A eleição tende a ser acirrada e decidida nos detalhes. A pesquisa mostra um cenário competitivo, de conformação após a troca do candidato da extrema-direita, e também confirma que o presidente Lula segue liderando no primeiro turno e mantém forte apoio popular”, disse.
Entre aliados do ex-presidente Jair Bolsonaro, o resultado foi interpretado como um sinal de que a estratégia de apresentar Flávio Bolsonaro como um representante mais moderado do bolsonarismo começa a produzir efeitos eleitorais. A avaliação dentro do PL é que o senador tem potencial para ampliar diálogo com setores que rejeitam o estilo mais confrontacional de seu pai.
“O Brasil não quer mais radicalismo, quer equilíbrio. O Lula vai atacar muito, mas o Flávio tem se mostrado um candidato centrado e moderado, e isso está dando certo”, afirmou o deputado Cabo Gilberto (PL-PB).
O próprio senador comentou o resultado da pesquisa nas redes sociais. “O Brasil escolheu prosperar. Que Deus conduza a nossa missão”, escreveu.
Ao jornal O Globo, o presidente do PL, Valdemar Costa Neto, disse que o desempenho de Flávio confirma avaliações internas de que sua eventual candidatura vem ganhando força. “O Flávio está muito bem. Outras pesquisas recentes já vinham mostrando números positivos para nós”, afirmou.
O crescimento do senador também passou a ser observado com mais atenção por partidos do centrão. Na federação formada por União Brasil e PP, interlocutores afirmam que levantamentos internos já apontam Flávio em posição competitiva, inclusive com desempenho superior ao de Lula em alguns cenários.
Minas Gerais aparece como um dos estados em que o senador apresenta desempenho mais consistente, segundo dirigentes dessas legendas. O estado possui o segundo maior colégio eleitoral do país e costuma ser considerado um termômetro das disputas presidenciais.
Dentro da federação, a leitura é que o desempenho nas pesquisas reforça a possibilidade de Flávio se tornar um ponto de convergência para a direita, caso mantenha um perfil considerado mais moderado durante a pré-campanha. Ainda assim, o apoio do bloco dependerá da confirmação desse desempenho em novos levantamentos.
Até poucas semanas atrás, dirigentes de partidos de centro e centro-direita subestimavam o potencial eleitoral do senador. A aposta predominante era que a direita acabaria se reorganizando em torno de outros nomes, especialmente o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), ou de alternativas fora da família Bolsonaro.