A violência na adolescência está relacionada a fatores sociais, familiares, emocionais e tecnológicos, segundo a psicóloga Priscila Pinheiro. Em entrevista exibida pela Band RN nesta segunda-feira 16, a especialista afirmou que o fenômeno é multifatorial e envolve desde episódios de bullying até o impacto das redes sociais e do ambiente familiar.
Ao comentar a percepção de aumento dos casos, Priscila questionou se o fenômeno é necessariamente mais frequente ou se atualmente há maior exposição. “Será que a gente está vendo muitas recorrências ou será que sempre existiu a violência? E hoje nós temos mais acesso a isso. Existe também um impacto enorme que nós estamos vivendo no mundo e também o desenvolvimento da tecnologia que tem avançado muito rápido e que tem atingido nós como seres humanos como um todo, principalmente os nossos adolescentes”.

A psicóloga destacou que a violência não se manifesta apenas em casos extremos. “A violência é algo que é estrutural e quando nós falamos de violência, nós não falamos só de violências extremas. […] A gente esquece que a violência começa lá de uma forma muito sutil, é quando começa o bullying, quando começa o isolamento social na escola, por exemplo”.
Segundo ela, o ambiente digital ampliou o alcance dessas agressões. “Hoje nós temos um crime que se chama cyberbullying, que se estende para além da escola, por exemplo. Que hoje acontece dentro da parte virtual, onde existem grupos que agridem adolescentes e estimulam esses adolescentes à violência. Antes nós não tínhamos esse acesso”.
A especialista citou dados recentes relacionados à violência no ambiente escolar. “Existem dados de 2024 para cá, que a violência física aumentou 50%, a violência psicológica 23% e a violência sexual 22%, por exemplo, dentro das escolas”.
Outro fator apontado é o distanciamento nas relações familiares. “Hoje nós temos também um ambiente familiar que está muito desconectado. Nós temos famílias hoje que são muito ligadas, por exemplo, ao virtual e se desconectam muitas vezes não só dos filhos”.
De acordo com a psicóloga, adolescentes envolvidos em atos violentos muitas vezes enfrentam sofrimento emocional e histórico de agressões. “Existem dados que esses adolescentes que chegam a cometer um crime maior, são adolescentes que sofreram bullying, por exemplo, na infância. Uma criança que sofre bullying na infância e na adolescência também, ela é muito mais suscetível a perpetuar esse bullying, a se tornar uma criança ou um adolescente agressivo, a ter transtornos mentais”.
Priscila também destacou que a dificuldade em lidar com emoções e frustrações pode contribuir para comportamentos agressivos. “Na adolescência nós temos dificuldade em lidar com frustrações. E nós temos dificuldade em lidar com os nossos impulsos, até por causa do nosso cérebro que ainda está em desenvolvimento”.
Ela afirmou ainda que a forma como meninos são socializados pode influenciar esse cenário. “Eu atendo adolescentes e os meninos que eu atendo, é como você disse, eles são desconectados com as emoções dele, porque eles têm uma crença que a emoção é fraqueza, que sentir é fraqueza, que isso não é ser homem”.
Para a psicóloga, as redes sociais podem intensificar esse processo. “É um combustível, Rodrigo, eu diria que é um combustível. Porque existem muitos estímulos. […] Existem grupos de adolescente que é como se eles se encontrassem, fossem acolhidos aqueles grupos que estimulam a violência.”
Ela acrescentou que conteúdos violentos se tornaram mais acessíveis na internet. “Antes para um adolescente […] ter contato com algo violento, tinha a Deep Web. Hoje isso está nas camadas mais fáceis da internet”.
Ao final da entrevista, Priscila Pinheiro destacou a importância do exemplo familiar na busca por apoio psicológico. “Eu falo muito para os pais que os pais precisam entender que os filhos, eles são modulados por eles. […] Os pais são espelhos para uma criança e para um adolescente”.
Segundo ela, a busca por terapia pelos próprios responsáveis pode incentivar os filhos. “Se você quer que seu filho entenda que precisa de terapia, nada melhor do que os pais fazerem terapia”.