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Repercussão
Caso Marielle: família e políticos demonstram preocupação após saída de promotoras de força-tarefa
Dupla teria decidido se afastar por 'interferência externa' no trabalho do grupo; Ministério Público ainda não anunciou substitutos
O Globo
12/07/2021 | 17:48

Políticos e a família da vereadora assassinada Marielle Franco demonstraram preocupação com a saída das promotoras Simone Sibílio e Leticia Emile da Força-Tarefa do Caso Marielle. O afastamento da dupla, revelado pelo GLOBO no último sábado, teria sido motivado por “interferência externa” no trabalho do grupo. Parentes de Marielle, que foi morta a tiros junto com o motorista Anderson Gomes em março de 2018, também cobraram explicações do Ministério Público do Rio por conta do episódio.

“Governador Claudio Castro e Luciano Mendonça, Procurador-Geral de Justiça do RJ, quero saber do que se trata: s senhores não tem competência para impedir a interferência ou estão interferindo. Podem explicar?”, questionou a viúva de Marielle, Monica Benicio, ela própria também eleita vereadora no Rio pelo PSOL no ano passado.

Anielle Franco, irmã de Marielle, também usou as redes sociais para externar dúvidas a respeito do ocorrido: “Acho que nem dormi direito tentando imaginar as tais ‘interferências externas'”, escreveu ela.

O deputado federal Marcelo Freixo (PSOL) foi mais um a se manifestar sobre a saída das promotoras. Em um longo texto postado no Twitter, Freixo afirmou que a decisão de Simone e Leticia é “gravíssima” e frisou que “o pedido de demissão de ambas ocorre na mesma semana em que o delegado do caso, Moisés Santana, foi substituído”.

Em outro trecho, Freixo cobrou diretamente o governador em virtude do ocorrido: “O governador @claudiocastroRJ e os chefes do Ministério Público e da Polícia Civil do RJ precisam vir a público explicar a substituição do delegado e se posicionar sobre a saída das promotoras. É preciso que haja transparência e responsabilidade”, cobrou o parlamentar.

Colega de Freixo no PSOL, o vereador Tarcísio Motta classificou como “gravíssima a notícia de que as promotoras encarregadas do caso do assassinato de Marielle pediram afastamento devido a influências externas”. Ele prosseguiu: “Desde o início existe enorme preocupação com as interferências políticas que pudessem obstar as investigações. O MP deve explicações!”

Já a Anistia Internacional divulgou uma nota pública em que diz acompanhar “com preocupação a notícia acerca do afastamento das promotoras Simone Sibílio e Leticia Emile da Força Tarefa”.

“Os acusados de serem os responsáveis pela execução de Marielle e Anderson, Ronnie Lessa e Élcio Queiroz, ainda não foram jugados pelo Tribunal do Júri. Toda e qualquer suspeita de que a investigação possa sofrer interferências indevidas deve ser investigada”, afirma um trecho do comunicado.

Nesta segunda-feira, o MP-RJ informou que os substitutos ainda não foram definidos, mas que “a escolha dos nomes para atuar na força-tarefa que investiga o caso Marielle Franco e Anderson Gomes terá todo o cuidado necessário para que essa mudança não programada não prejudique a investigação destinada à apuração de eventuais mandantes do crime e tenha o êxito esperado pela sociedade”. O órgão acrescentou ainda que “tão logo sejam escolhidos os substitutos, eles serão anunciados publicamente e apresentados aos familiares de Marielle e de Anderson”.

Suel, sargento do Corpo de Bombeiros, de 44 anos, teria cedido carro para esconder armas de Lessa, acusado de matar a vereadora Marielle Franco. De acordo com os investigadores, coube ao bombeiro ajudar, logo após a prisão do sargento, no descarte das armas escondidas por Lessa Foto: Hermes de Paula / Agência O Globo - 10/06/2020
Suel, sargento do Corpo de Bombeiros, de 44 anos, teria cedido carro para esconder armas de Lessa, acusado de matar a vereadora Marielle Franco. De acordo com os investigadores, coube ao bombeiro ajudar, logo após a prisão do sargento, no descarte das armas escondidas por Lessa Foto: Hermes de Paula / Agência O Globo – 10/06/2020
Leonardo Gouvea da Silva , o Mad, é substituto do ex-capitão do Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope), Adriano Magalhães da Nóbrega, assassinado em janeiro, à frente da organização criminosa de assassinos de aluguel, ligada à execução da vereadora Marielle Franco. Mad foi preso dia 30 de junho Foto: Hermes de Paula / Agência O Globo - 30/06/2020
Leonardo Gouvea da Silva, o Mad, é substituto do ex-capitão do Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope), Adriano Magalhães da Nóbrega, assassinado em janeiro, à frente da organização criminosa de assassinos de aluguel, ligada à execução da vereadora Marielle Franco. Mad foi preso dia 30 de junho Foto: Hermes de Paula / Agência O Globo – 30/06/2020
Marcada com o número 1, a casa 58 pertence a Jair Bolsonaro, no Vivendas da Barra; o imóvel fica perto da casa 66, marcada com o 2, de Ronnie Lessa. O outro suspeito do crime disse que iria à casa de Bolsonaro Foto: Arquivo O Globo
Marcada com o número 1, a casa 58 pertence a Jair Bolsonaro, no Vivendas da Barra; o imóvel fica perto da casa 66, marcada com o 2, de Ronnie Lessa. O outro suspeito do crime disse que iria à casa de Bolsonaro Foto: Arquivo O Globo
Registro da portaria do condomínio onde o então deputado Jair Bolsonaro morava à época do crime – antes de ser eleito presidente – aponta a entrada de Élcio Queiroz (foto), ex-PM preso por envolvimento da vereadora Marielle Franco, para a casa 58, de Bolsonaro Foto: Marcelo Theobald / Agência O Globo
Registro da portaria do condomínio onde o então deputado Jair Bolsonaro morava à época do crime – antes de ser eleito presidente – aponta a entrada de Élcio Queiroz (foto), ex-PM preso por envolvimento da vereadora Marielle Franco, para a casa 58, de Bolsonaro Foto: Marcelo Theobald / Agência O Globo
O PM reformado Ronnie Lessa, à esquerda, e o ex-PM Élcio Queiroz. Os dois foram presos em março deste ano, acusados de participarem da morte da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes, em março de 2018 Foto: Agência O Globo
O PM reformado Ronnie Lessa, à esquerda, e o ex-PM Élcio Queiroz. Os dois foram presos em março deste ano, acusados de participarem da morte da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes, em março de 2018 Foto: Agência O Globo
Prisão de Elaine de Figueiredo Lessa (centro), um dos alvos da operação
Prisão de Elaine de Figueiredo Lessa (centro), um dos alvos da operação “Submersus”. Elaine é esposa do PM reformado Ronnie Lessa, que é apontado como o assassino da vereadora Marielle Franco (PSOL) e do motorista Anderson Gomes Foto: Fabiano Rocha / Agência O Globo
O sargento reformado Ronnie Lessa é apontado como o autor dos disparos que mataram a vereadora Marielle Franco e o motorista Anderson Gomes Foto: Marcelo Theobald / Agência O Globo
O sargento reformado Ronnie Lessa é apontado como o autor dos disparos que mataram a vereadora Marielle Franco e o motorista Anderson Gomes Foto: Marcelo Theobald / Agência O Globo
Ronnie Lessa e Élcio de Queiroz foram presos em março de 2019, na Operação Lume. A motivação do crime, segundo as investigações, seria o avanço de ações comunitárias da vereadora na Zona Oeste, região de atuação de milícias Foto: Reprodução
Ronnie Lessa e Élcio de Queiroz foram presos em março de 2019, na Operação Lume. A motivação do crime, segundo as investigações, seria o avanço de ações comunitárias da vereadora na Zona Oeste, região de atuação de milícias Foto: Reprodução
O bombeiro Maxwell Simões Correa, conhecido como Suel (de boné vermelho) prestou depoimento na Delegacia de Homicídios na Barra da Tijuca. Ele foi um dos alvos da Operação Lume Foto: Fabiano Rocha / Agência O Globo
O bombeiro Maxwell Simões Correa, conhecido como Suel (de boné vermelho) prestou depoimento na Delegacia de Homicídios na Barra da Tijuca. Ele foi um dos alvos da Operação Lume Foto: Fabiano Rocha / Agência O Globo
Na casa de Suel, os policiais apreenderam uma réplica de fuzil e documentos Foto: Fabiano Rocha / Agência O Globo
Na casa de Suel, os policiais apreenderam uma réplica de fuzil e documentos Foto: Fabiano Rocha / Agência O Globo
Na Operação Lume, também foi preso Alexandre Motta, solto posteriormente pela Justiça Foto: Márcio Alves / Agência O Globo
Na Operação Lume, também foi preso Alexandre Motta, solto posteriormente pela Justiça Foto: Márcio Alves / Agência O Globo
Na casa de Alexandre, foram apreendidos 117 fuzis desmontados. Alexandre declarou que guardava o material a pedido do amigo Ronnie Lessa Foto: Alexandre Cassiano / Agência O Globo
Na casa de Alexandre, foram apreendidos 117 fuzis desmontados. Alexandre declarou que guardava o material a pedido do amigo Ronnie Lessa Foto: Alexandre Cassiano / Agência O Globo
O sargento PM Rodrigo Jorge Ferreira, o Ferreirinha, foi preso na Operação Entourage, desdobramento da investigação das mortes de Marielle e Anderson. Ferreirinha chegou a ser considerado a principal testemunha do inquérito dos assassinatos de Marielle e Anderson. Ele é apontado pela Polícia Federal como o responsável por atrapalhar a investigação Foto: Reprodução / Reprodução
O sargento PM Rodrigo Jorge Ferreira, o Ferreirinha, foi preso na Operação Entourage, desdobramento da investigação das mortes de Marielle e Anderson. Ferreirinha chegou a ser considerado a principal testemunha do inquérito dos assassinatos de Marielle e Anderson. Ele é apontado pela Polícia Federal como o responsável por atrapalhar a investigação Foto: Reprodução / Reprodução
Orlando Oliveira de Araújo, o Orlando Curicica, é acusado de comandar milícia que atua em Jacarepaguá, Zona Oeste do Rio. Foi apontado pelo PM Ferreirinha como um dos mandantes das mortes de Marielle e Anderson Foto: Reprodução / Reprodução
Orlando Oliveira de Araújo, o Orlando Curicica, é acusado de comandar milícia que atua em Jacarepaguá, Zona Oeste do Rio. Foi apontado pelo PM Ferreirinha como um dos mandantes das mortes de Marielle e Anderson Foto: Reprodução / Reprodução
Outro desdobramento da investigação das mortes de Marielle e Anderson desencadeou a Operação Intocáveis, em janeiro deste ano. O major Ronald Paulo Alves Pereira foi um dos cinco presos. Ele é suspeito de chefiar uma milícia que age em grilagem de terras na Zona Oeste do Rio. A polícia considera a prisão do major estratégica para a investigação Foto: Márcia Foletto / Agência O Globo
Outro desdobramento da investigação das mortes de Marielle e Anderson desencadeou a Operação Intocáveis, em janeiro deste ano. O major Ronald Paulo Alves Pereira foi um dos cinco presos. Ele é suspeito de chefiar uma milícia que age em grilagem de terras na Zona Oeste do Rio. A polícia considera a prisão do major estratégica para a investigação Foto: Márcia Foletto / Agência O Globo
O ex-capitão do Bope Adriano Magalhães da Nóbrega, foragido da Justiça, é suspeito de chefiar o grupo paramilitar Escritório do Crime Foto: Divulgação
O ex-capitão do Bope Adriano Magalhães da Nóbrega, foragido da Justiça, é suspeito de chefiar o grupo paramilitar Escritório do Crime Foto: Divulgação
Um dos investigados na Operação Intocáveis é Jorge Alberto Moreth, conhecido como Beto Bomba. Foragido desde janeiro, ele se entregou à polícia no dia 25 de maio. Beto Bomba é ex-presidente da Associação de Moradores de Rio das Pedras, Zona Oeste do Rio, e apontado como um dos líderes da milícia que atua na região. A polícia investiga o grupo criminoso conhecido como Escritório do Crime, apontado como a mais letal e secreta falange de pistoleiros da cidade Foto: Reprodução
Um dos investigados na Operação Intocáveis é Jorge Alberto Moreth, conhecido como Beto Bomba. Foragido desde janeiro, ele se entregou à polícia no dia 25 de maio. Beto Bomba é ex-presidente da Associação de Moradores de Rio das Pedras, Zona Oeste do Rio, e apontado como um dos líderes da milícia que atua na região. A polícia investiga o grupo criminoso conhecido como Escritório do Crime, apontado como a mais letal e secreta falange de pistoleiros da cidade Foto: Reprodução
Familiares de Marielle Franco chegam ao Ministério Público para coletiva sobre a prisão dos executores da vereadora e do motorista Anderson Gomes. Na foto, Antonio da Silva Neto, pai de Marielle; Luyara, filha; e Anielle Silva, irmã da vereadora Foto: Gabriel de Paiva / Agência O Globo
Familiares de Marielle Franco chegam ao Ministério Público para coletiva sobre a prisão dos executores da vereadora e do motorista Anderson Gomes. Na foto, Antonio da Silva Neto, pai de Marielle; Luyara, filha; e Anielle Silva, irmã da vereadora Foto: Gabriel de Paiva / Agência O Globo
Marielle Franco e Anderson Gomes, mortos em março de 2018 Foto: Reprodução
Marielle Franco e Anderson Gomes, mortos em março de 2018 Foto: Reprodução

Divergências sobre delação

Há cerca de um mês, a Polícia Civil do Rio apresentou ao procurador-geral de Justiça, Luciano Mattos, a viúva do ex-capitão do Bope Adriano da Nóbrega, Júlia Lotufo, para fazer uma delação premiada em troca de benefícios como a revogação da prisão — atualmente ela se encontra presa em casa e fazendo uso de tornozeleira eletrônica. Ao assinar o termo de colaboração, que ainda não foi homologado, Júlia estaria disposta a denunciar o submundo do crime organizado, principalmente envolvendo a contravenção, a qual Adriano pertencia. O ex-PM foi morto na Bahia, em fevereiro do ano passado, de acordo com a polícia daquele estado, num confronto.

A viúva de Adriano também teria pistas sobre os mandantes do Caso Marielle, razão pela qual teria sido apresentada às promotoras da força-tarefa pela delegada da Coordenadoria de Investigação de Agentes com Foro (Ciaf) da Polícia Civil, Ana Paula Costa Marques. No meio do processo, porém, houve um desacerto. De acordo com as fontes do MPRJ, as promotoras da Força-Tarefa do Caso Marielle e o titular da Delegacia de Homicídios da Capital (DHC), Moysés Santana, foram alijados da negociação sobre a colaboração de Júlia. O processo foi redirecionado ao promotor que atua na 1ª Vara Especializada Criminal, onde a viúva do ex-capitão responde por associação criminosa e lavagem de dinheiro, com a coordenação da delegada Ana Paula.

Sem conhecer detalhes do processo do Caso Marielle, que já possui mais de 40 volumes, o promotor da 1ª Vara Especializada teria dificuldade de confrontar as informações trazidas por Júlia Lotufo com as peças da investigação, para verificar a veracidade do depoimento da viúva de Adriano. Também pesou para a crise o não envolvimento da DH, que conduz a investigação sobre as mortes de Marielle e Anderson desde o primeiro momento, enquanto a Ciaf é especializada em crimes de atribuição originária do procurador-geral de Justiça — geralmente, casos chamados de crime do colarinho branco, com conotação política.

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