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O que aconteceu?

Casal só consegue se vacinar após guardar cartaz com críticas a Bolsonaro

Aos 53 anos, eles não conseguiram receber o imunizante no posto do Lago Sul enquanto estiveram com cartolinas com frases contra o presidente
Metrópoles
18/06/2021 | 10:39

Um casal relatou ao portal Metrópoles ter enfrentado dificuldade para se vacinar contra a Covid-19 no posto da Policlínica do Lago Sul, no Distrito Federal, por terem levado cartazes com protestos contra o governo federal. Marido e esposa dizem que só conseguiram receber o imunizante após guardarem as cartolinas com as críticas.

Os dois, que têm 53 anos, agendaram a primeira dose da vacina na última segunda-feira 14, no período da tarde. Eles denunciam que, ao chegar a vez deles no drive-thru, profissionais se negaram a aplicar a vacina enquanto ambos segurassem os cartazes que continham críticas com alusão ao presidente da República, Jair Bolsonaro (sem partido).

Casal só consegue se vacinar após guardar cartaz com críticas a bolsonaro
Cartaz levado pelo casal para aplicação da vacina. Foto: Reproduçõa/Metrópoles

“Nós marcamos de ir no mesmo local, no mesmo dia, das 14h30 às 15h30. Preparamos cartazes com dizeres como: ‘500 mil mortes com a sua digital’, ‘ele não’. Mas nem tinha o nome do presidente”, conta o homem, que é servidor público e pediu para não ser identificado, por medo de represálias.

“Quando chegou a nossa vez, descemos do carro para fotografar o momento da vacinação. Nessa hora, a vacinadora falou: ‘Com o cartaz eu não vacino’. Ainda disse: ‘deixa eu ver o cartaz’ e depois repetiu que não vacinaria. A gente disse que iria tirar foto só da gente, que ela não apareceria, mas ela saiu nervosa. Depois, veio outro cidadão, que não sei se era o chefe, mas parecia ser. Ele disse: ‘o senhor está entendendo? Não pode. A gente aqui não faz política partidária’”, narra o marido.

O homem também disse que o funcionário do ponto de vacinação afirmou que “não concordava com este posicionamento”. “Tinha um vigilante armado dentro do posto e, depois que ele disse isso, o vigilante falou: ‘é isso mesmo, doutor’. Aí eu falei que estava me sentindo coagido, porque o homem estava armado”, acrescentou.

O casal conta que estacionou o veículo para que a fila do drive-thru seguisse enquanto isso. “O cara pediu para que a gente tirasse o carro da fila para não atrapalhar. Aí, sentamos numa cadeirinha debaixo da tenda enquanto passavam os carros.”

Após cerca de 20 minutos esperando na tenda da vacina, eles receberam a primeira dose, mas aplicada por outra funcionária, e sem que eles segurassem os cartazes de protesto. “Eu fiquei assustada. Falei: ‘será que agora vão vacinar a gente mesmo? Não sei até que ponto estão tirando o meu direito de ser vacinada’”, afirmou a mulher.

“Eles nos colocaram sentados num cantinho e eu só consegui vacinar tirando foto com o cartaz que dizia: ‘Viva a Educação, viva o SUS’. Porque os outros, não deixaram. Isso porque nem tinham a palavra presidente, ou o nome dele. Estava subentendido”, disse a aposentada.

O casal mora na Asa Sul e já contraiu o Sars-CoV-2. O servidor público chegou a ficar internado por uma semana e diz que, por saber da gravidade da doença, estava preocupado em se vacinar logo. Após o ocorrido na segunda-feira, eles registraram uma reclamação na Ouvidoria da Secretaria de Saúde do DF.

“Os nossos filhos trabalham na área de saúde, em dois postos de vacinação, e falaram que tem manifestação o tempo todo, de todos os lados políticos e todo mundo respeita. Não entendemos isso”, comentou ele. “Tive que tirar a foto com o cartaz num canto mais afastado porque falaram que não podia fotografar o posto, mostrar funcionário. Quando chegamos em casa, já fomos registrar na Ouvidoria, porque fora isso ainda teve a exposição à qual fomos submetidos. Uma fila de carros e todo mundo nos olhando”, lamentou.

Após tomar conhecimento da história, o deputado Leandro Grass (Rede), vice-presidente da Comissão de Educação, Saúde e Cultura da Câmara Legislativa do Distrito Federal (CLDF), enviou um requerimento pedindo informações à Secretaria de Saúde. No documento, o distrital questiona quais as providências a serem tomadas pela pasta “para que esse fato não se repita”.

Na quarta-feira 16, o parlamentar comentou sobre o caso durante sessão virtual do plenário. “Fiz o requerimento para que essa situação fosse esclarecida, a ponto inclusive de ratificar o direito de manifestação das pessoas com críticas em relação ao que está acontecendo no Brasil hoje”, declarou.

O que diz a Secretaria de Saúde

O Metrópoles procurou a Secretaria de Saúde para comentar o caso. Em nota, a pasta negou que o casal tenha sido impedido de tomar vacina e disse que a servidora citada “não concordou em aparecer na fotografia da vacinação das duas pessoas que portavam cartazes”.

“A alegação da profissional de saúde é a de que a sua imagem poderia ser vinculada a questões políticas. O casal teve o direito de se manifestar, mas não poderia associar os servidores que ali estavam trabalhando ao ato político”, diz a nota.