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Saúde mental

Bullying atinge 4 em cada 10 alunos e mobiliza escolas no RN

Instituições investem em ações preventivas, formação de professores e acolhimento para reduzir casos de violência entre estudantes
Helliny França
25/04/2026 | 05:50

Com o aumento de casos de bullying entre estudantes, educadores passaram a montar uma série de estratégias de prevenção e gestão dos casos no ambiente escolar. Dados da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE), divulgada em março pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mostram que quatro em cada dez estudantes brasileiros de 13 a 17 anos já sofreram bullying. Além disso, o levantamento apontou que 27,2% dos alunos nessa faixa etária já passaram por alguma forma de humilhação duas ou mais vezes. Os depoimentos que embasaram a pesquisa foram coletados em 2024 em escolas de todo o Brasil.

De acordo com a pedagoga e coordenadora do Colégio Marista de Natal, Olga Mourad, no entanto, os dados não se refletem de forma explícita na sala de aula. Ela explica que é preciso um olhar atento dos educadores, pois muitas vezes o bullying se manifesta de forma velada.

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Violência entre estudantes é, na maioria das vezes, psicológica e exige atenção redobrada nas instituições de ensino - Foto: José Aldenir

“O fato de os índices serem baixos no colégio é resultado direto do trabalho preventivo, mas a vigilância é constante para que nenhum aluno se sinta desamparado”, disse Olga.

Segundo a coordenadora, a instituição instalou um Comitê Antibullying para lidar com os casos. Ela explica que existe uma equipe especializada para iniciar o atendimento individualizado e escutar as partes envolvidas. A profissional destaca que o acompanhamento é feito de maneira acolhedora e sem expor os alunos.

“O foco é o trabalho restaurativo: atendemos quem sofreu a agressão para restabelecer sua segurança e, simultaneamente, trabalhamos com quem praticou para promover a conscientização e a mudança de atitude”, afirma Olga.

A educadora detalha que muitas vezes essa violência se manifesta por meio de agressões verbais e sociais, como apelidos pejorativos, exclusão deliberada de grupos e comentários disfarçados de “brincadeira”. “O bullying hoje é menos físico e muito mais psicológico, o que exige do professor uma sensibilidade redobrada para captar o que não é dito em voz alta.”

Olga Mourad coordenadora pedagógica do Marista
Olga Mourad coordenadora pedagógica do Marista – Foto: Arquivo pessoal

Já o coordenador de Educação do Sesc RN, Zênio Alves, destaca a importância da formação contínua dos profissionais para lidar com os casos de violência entre os jovens. De acordo com ele, a instituição promove momentos formativos com a equipe pedagógica para tratar do tema.

“Quando necessário, também contamos com a orientação do setor jurídico, especialmente para esclarecimentos sobre aspectos legais, garantindo que a atuação da escola esteja alinhada à legislação vigente e às boas práticas educacionais”, destaca Zênio.

Ainda de acordo com a pesquisa, os estudantes agredidos disseram que a aparência do rosto ou do cabelo foi o principal alvo do bullying, o que ocorreu em 30,2% dos casos. Em seguida, vêm a aparência do corpo, com 24,7%, e a violência por causa da cor ou raça, vivida por 10,6% deles. Uma parte dos alunos (26,3%) declarou que não sabe por que sofreu o ataque.

Olga relatou que a aparência física, como peso, altura, textura do cabelo e até o uso de óculos, estão entre os principais alvos desse tipo de violência. “Na adolescência, o corpo é um foco de muita insegurança e os agressores utilizam justamente esses pontos de vulnerabilidade para desestabilizar o colega. Trabalhamos isso em sala, focando na valorização da diversidade e na desconstrução de padrões estéticos.”

Zênio Alves coordenador de Educação do Sesc
Zênio Alves, coordenador de Educação do Sesc – Foto: Arquivo pessoal

A pesquisa identificou ainda que as meninas são as mais atacadas — 43,3% delas já sofreram bullying, contra 37,3% dos meninos. Os dados mostram ainda que 30,1% das estudantes adolescentes se sentiram humilhadas por provocações de colegas duas vezes ou mais. Essa proporção é quase 6 pontos percentuais maior que a dos alunos do sexo masculino. Além disso, 13,7% assumiram ter praticado bullying, e 16,6% dos estudantes já foram fisicamente agredidos por colegas.

“Geralmente, entre os meninos, o bullying tende a ser mais direto, envolvendo força física ou provocações sobre virilidade e habilidades esportivas. Entre as meninas, costuma ser mais sutil e relacional: fofocas, isolamento social, olhares de desprezo e exclusão de círculos de amizade”, explica Olga.

O coordenador de Educação do Sesc, Zênio Alves, destaca que a prevenção é o principal eixo do trabalho adotado pela escola. Ele aponta que, na instituição, são adotadas medidas educativas contínuas que promovem o diálogo e o respeito às diferenças. “Esse trabalho acontece por meio de projetos pedagógicos, rodas de conversa, atividades formativas, acompanhamento próximo dos estudantes e parceria constante com as famílias.”

Ambiente escolar e cyberbullying

De acordo com Belisa Sabina, orientadora educacional e psicóloga do Colégio Marista de Natal, esse tipo de violência acontece no ambiente escolar por meio de atitudes repetidas de desrespeito, como provocações, exclusão ou agressões, passando a afetar emocionalmente quem sofre. Segundo a profissional, alguns fatores, como a dificuldade de lidar com emoções, a influência do meio em que vive, a necessidade de se afirmar e a falta de empatia, podem levar estudantes a praticar esse tipo de comportamento.

Jovens que sofrem bullying tendem a apresentar tristeza, insegurança, baixa autoestima e dificuldades na escola e nas relações sociais, o que, segundo a psicóloga, pode gerar impactos emocionais a longo prazo, como insegurança, ansiedade e dificuldades nos relacionamentos.

Belisa Sabina
Psicóloga educacional Belisa Sabina – Foto: Arquivo pessoal

“Mudanças de comportamento, isolamento, queda no desempenho escolar e resistência em ir à escola são alguns sinais. A família deve acompanhar, orientar, oferecer apoio emocional e buscar diálogo com a escola quando necessário”, pontua Belisa.

Além das salas de aula, os ataques muitas vezes migram para as redes sociais, o chamado cyberbullying. Conforme a psicóloga, esse tipo de prática é mais difícil de controlar pela rapidez com que os conteúdos são disseminados no ambiente virtual e tende a intensificar o sofrimento da vítima.

“O bullying presencial acontece em um espaço e tempo mais delimitados, enquanto o bullying nas redes sociais pode ser contínuo, atingir um público maior e invadir o espaço pessoal da vítima, como sua casa. Isso pode intensificar o sofrimento, já que a vítima sente que não há saída. Além disso, o conteúdo pode ser compartilhado rapidamente, ampliando a exposição e o constrangimento”, explica a psicóloga.

De acordo com a coordenadora pedagógica do Marista, Olga Mourad, a instituição entende que, quando o conflito externo impacta o bem-estar do aluno ou a convivência em sala de aula, ele passa a ser responsabilidade da escola.

“Nesses casos, o comitê atua com o mesmo cuidado documental e mediador, trazendo a temática para o ambiente escolar e utilizando o ocorrido como uma oportunidade pedagógica para trabalhar a cidadania e o respeito nas redes sociais”.

Segundo Zênio Alves, do Sesc, a escola também passa a atuar quando o bullying impacta o ambiente escolar. Ele diz que, nesses casos, a escola realiza a escuta individual dos envolvidos, comunica às famílias e promove o diálogo com o objetivo de compreender o ocorrido e interromper a continuidade das agressões.