Há quem acorde com dor de cabeça, sensação de cansaço no rosto ou sensibilidade nos dentes — sintomas muitas vezes tratados como algo pontual. Mas, por trás desses sinais aparentemente comuns, pode estar um distúrbio silencioso que age durante o sono: o bruxismo.
O transtorno é caracterizado pelo ato involuntário de apertar, deslizar ou ranger os dentes, principalmente durante o sono. Como ocorre de forma inconsciente, o hábito pode se repetir por meses ou anos sem que a pessoa perceba. É justamente essa característica que dá origem ao termo “bruxismo silencioso”.

A dentista Jermilly Amorim explica que o comportamento não faz parte das funções naturais do organismo. “O bruxismo é uma atividade parafuncional, ou seja, é exatamente o oposto do que o sistema estomatognático está programado a fazer, sendo mastigação, fonação, deglutição e sucção”, afirma.
Segundo ela, o problema pode se apresentar de diferentes formas. “Pode ser classificado como bruxismo cêntrico e excêntrico; diurno e noturno. O bruxismo noturno está mais correlacionado com o ranger dos dentes e o bruxismo diurno está correlacionado com o apertamento dos dentes e hábitos, como roer as unhas e morder objetos”, detalha.
A principal dificuldade está justamente na identificação. “Ele é chamado de silencioso por ser involuntário e, na maioria das vezes, o paciente não tem conhecimento da ação, principalmente no bruxismo noturno”, explica. Na prática, isso significa que o diagnóstico costuma depender de sinais indiretos. “Normalmente, um familiar ou parceiro é quem identifica o barulho”, diz.

Em outros casos, o problema aparece durante consultas de rotina. “O dentista vai perceber os dentes desgastados, a parte interna da bochecha mordiscada, a borda lateral da língua com marcações”, afirma. Esses indícios, segundo a especialista, são pistas importantes de que o hábito está acontecendo de forma recorrente.
Mesmo sem percepção consciente, o corpo reage. “Os sinais mais comuns incluem dor ou cansaço na mandíbula ao acordar, principalmente na lateral da face, dores de cabeça frequentes, sensibilidade nos dentes e desgaste dentário”, explica Jermilly. A região da bochecha, onde está localizado o músculo masseter, costuma ser uma das mais afetadas. “O masseter é um músculo extremamente forte, que gera uma carga muito grande na região”, acrescenta.
Com o tempo, os efeitos deixam de ser apenas desconfortos passageiros e passam a comprometer a saúde bucal. “O bruxismo pode desgastar os dentes, deixando-os mais curtos, sensíveis e até com fraturas”, alerta. Em quadros mais avançados, as consequências podem ser mais amplas. “Pode comprometer restaurações, próteses e até levar à perda de estrutura dental”, diz.
Além dos danos nos dentes, há impacto na articulação da mandíbula. “Em casos mais complexos, pode aparecer dor e estalos na articulação da mandíbula, devido ao excesso de carga”, afirma. Essa sobrecarga pode evoluir para disfunções que afetam movimentos básicos, como falar e mastigar.
O tratamento varia conforme a causa e a intensidade do quadro, mas envolve medidas de proteção e controle. “Geralmente envolve o uso de placas de proteção, placas de mordida, feitas sob medida, que protegem os dentes durante o sono”, explica. Essas placas funcionam como uma barreira física, reduzindo o impacto do atrito.
Em alguns casos, outras abordagens podem ser adotadas. “Pode ser necessária a aplicação da toxina botulínica tipo A para relaxar o músculo”, afirma. A técnica é indicada principalmente quando há sobrecarga muscular significativa.
Mas o bruxismo não se limita a uma questão mecânica. “Por se tratar de uma condição multifatorial, é importante controlar fatores como estresse e ansiedade, que estão muito relacionados ao bruxismo”, destaca a dentista. Esse componente emocional ajuda a explicar por que o problema pode se intensificar em períodos de maior pressão.
Por isso, o tratamento pode exigir uma abordagem integrada. “Em alguns casos, pode ser necessário acompanhamento com outros profissionais, como psicólogos”, diz. A combinação de cuidados físicos e emocionais tende a trazer melhores resultados.
A rotina também tem papel importante na prevenção e no controle. “Ter uma rotina de sono regular, evitar cafeína à noite e reduzir o estresse do dia a dia ajudam bastante”, orienta. Segundo ela, estratégias simples podem reduzir a intensidade dos episódios. “Técnicas de relaxamento, como respiração, meditação ou atividade física, também são muito eficazes”, afirma.
Durante o dia, pequenas mudanças comportamentais fazem diferença. “Orientar o paciente a manter os dentes desencostados e a musculatura relaxada já faz uma grande diferença”, reforça. Esse cuidado evita o apertamento involuntário fora do período de sono, que também contribui para o desgaste.
Cuidados
A adoção de hábitos simples pode ajudar a reduzir os impactos do bruxismo e prevenir complicações:
- Manter uma rotina de sono regular
- Evitar cafeína no período noturno
- Reduzir níveis de estresse e ansiedade
- Praticar técnicas de relaxamento, como respiração e meditação
- Evitar apertar os dentes durante o dia
- Buscar avaliação odontológica ao perceber sinais como dor ou desgaste dentário
“Ter uma rotina de sono regular, evitar cafeína à noite e reduzir o estresse do dia a dia ajudam bastante”, reforça a especialista. E completa: “Manter os dentes desencostados e a musculatura relaxada já faz uma grande diferença”.
Silencioso por natureza, o bruxismo não se anuncia no momento em que acontece. Ele se revela aos poucos, nos sinais acumulados ao longo do tempo. Entre noites imperceptíveis e sintomas persistentes, o transtorno mostra que o corpo reage — mesmo quando a mente não percebe.