Pela primeira vez desde o início da série histórica do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA), em 1960, o Brasil deve ultrapassar os Estados Unidos como o maior produtor mundial de carne bovina em 2025, um marco que reforça o protagonismo do agronegócio brasileiro no cenário global e sinaliza mudanças profundas na dinâmica de um setor tradicionalmente dominado pelos norte-americanos.
Segundo as últimas projeções do USDA, a produção da pecuária brasileira deve alcançar 12,35 milhões de toneladas equivalentes de carcaça em 2025, superando os 11,81 milhões de toneladas estimados para os Estados Unidos — cerca de 4,5% a mais que os norte-americanos neste ano. A China aparece em terceiro lugar no ranking mundial, com projeção de 7,79 milhões de toneladas produzidas.

Fim de uma hegemonia histórica
Desde 1960, os Estados Unidos lideraram o ranking mundial de produção de carne bovina, com uma vantagem significativa sobre o Brasil nas últimas décadas. Em 2021, por exemplo, a produção americana superava a brasileira em mais de 30%, segundo dados históricos da série do USDA.
O cenário de 2025 reflete mudanças estruturais: enquanto a produção brasileira cresceu cerca de 4,2% em relação ao ano anterior (11,85 milhões de toneladas em 2024), a oferta americana teve queda estimada de 3,9%. Esse movimento reverte anos de vantagem americana e coloca o Brasil na liderança, com quase um quinto de toda a produção mundial de carne bovina (aproximadamente 19,9%).
Especialistas atribuem esse avanço brasileiro ao crescimento do rebanho nacional — estimado em cerca de 186,9 milhões de cabeças pelo USDA — e à maior disponibilidade de animais para abate, além da forte demanda externa. Já nos Estados Unidos, o rebanho bovino atingiu o menor nível desde 1952, refletindo desafios como condições climáticas adversas, custos elevados de ração e energia e ajustes estruturais no setor.
Exportações em alta mesmo diante de tarifas
O Brasil já era, há mais de duas décadas, o maior exportador global de carne bovina, antes mesmo de assumir a ponta na produção. Em 2025, apesar de um tarifaço imposto pelo governo dos Estados Unidos que incidiu sobre a carne brasileira por quase quatro meses, as vendas internacionais continuaram em expressiva alta. Dados do Ministério de Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) apontam um crescimento de 18,9% nas exportações brasileiras até novembro, em comparação com o ano anterior.
Nas projeções do USDA, o Brasil deve fechar o ano com um volume recorde de cerca de 4,25 milhões de toneladas exportadas, um aumento de aproximadamente 16,8% em relação a 2024. A Austrália aparece como segunda maior exportadora, com cerca de 2,18 milhões de toneladas, seguida da Índia (1,61 milhão de toneladas, considerando carne de búfalo). Já as exportações americanas devem registrar queda de aproximadamente 14% em 2025.
O desempenho nas exportações é relevante inclusive diante de medidas protecionistas que vinham sendo implementadas pelos EUA, incluindo tarifas adicionais de até 50% sobre a carne brasileira, que afetaram o volume exportado ao longo do ano. Ainda assim, os embarques brasileiros cresceram de forma robusta, refletindo a competitividade do produto nos mercados internacionais.
Projeções para 2026 e leitura do mercado
Apesar da liderança inédita em 2025, o USDA projeta que em 2026 a produção entre Brasil e Estados Unidos poderá ficar praticamente empatada, com ambos os países figurando em torno de 11,7 milhões de toneladas. A dinâmica para o próximo ano dependerá de fatores como a retomada do ciclo de produção nos EUA e as condições de pastagens e clima nos dois países.
Analistas afirmam que a inversão histórica é um reflexo do momento vivido pelo agronegócio mundial, marcado por mudanças climáticas, custos de produção crescentes e fluxos comerciais mais voláteis, que influenciam decisões de produtores e empresas. Para o Brasil, a nova liderança adiciona um elemento simbólico à já consolidada posição como gigante exportador, com forte presença especialmente no mercado chinês e em países da Ásia e Oriente Médio.
Impacto e desafios domésticos
Internamente, a indústria da carne no Brasil enfrenta desafios que vão desde a logística de escoamento até pressões por critérios de sustentabilidade ambiental e social. A expansão da produção e das exportações ocorre em meio a debates sobre práticas de manejo, legislação ambiental, custos de produção e a necessidade de investimentos em tecnologia para manter a competitividade.
Para os Estados Unidos, o recuo da produção e a necessidade de reconstrução de rebanhos apontam para um período de ajustes no setor, potencialmente impulsionando maior dependência de importações de carne bovina, inclusive de fornecedores como o Brasil — um movimento que também influencia os preços internos e a estrutura do mercado americano.
Em suma, 2025 marca uma virada histórica na pecuária global, com o Brasil assumindo pela primeira vez a liderança mundial na produção de carne bovina — um feito que reforça o papel estratégico do país no agronegócio e na segurança alimentar global, mesmo em um cenário econômico e climático desafiador.