O projeto social Balé da Ralé, localizado na comunidade Novo Horizonte, na Zona Oeste de Natal, tem, como principal missão, mostrar que a arte e a dança são para todos. Com atualmente 120 crianças inscritas no projeto que nasceu nesta comunidade, o Balé da Ralé teve seu início ainda num cenário de pandemia, em 2021 e, segundo a idealizadora Saryne Fernandes, foi a partir de um pedido das crianças da comunidade que o Balé surgiu.
“Tinha muita criança nas ruas da comunidade e eles pediram muito para eu dar aula de balé, eu sempre fiz balé e eles viam aqui. Não é uma coisa acessível para a comunidade, na verdade”, explica. De fato, as crianças da comunidade não têm acesso à prática de esportes e de arte tão facilmente, conforme conta Saryne. Algumas das famílias não têm nem mesmo condições financeiras para a compra de alimentos em quantidade suficiente.

Saryne narra que é por esse motivo que o projeto, que também abarca práticas de capoeira, alfabetização de adultos e cursos profissionalizantes, tudo completamente gratuito, oferece a entrega de 600 refeições por semana. “[Damos tudo], a roupa que eles usam, a comida que eles comem. Hoje, inclusive, não vai ter lanche porque o recurso não chegou, infelizmente”, disse, durante a visita do AGORA RN à comunidade.
Fardamento completo: meia calça, sapatilha, camisetas, tênis e tudo o que é necessário para que as crianças possam ter acesso pleno à arte da dança são distribuídos pelo projeto do Balé da Ralé. Mas, para além disso, a iniciativa também atua em parceria com ações sociais. “Quando tem passeio eles não pagam. Ação social como vai ter, e a cada três meses eles recebem escovas de dente, sabonete e pasta de dente”, explicou.
Hoje, o projeto que atende 120 crianças e que conta com uma fila de espera de mais 270, é capaz de sobreviver por meio das doações de voluntários e participação em editais, como o do programa para negócios de impacto do Sebrae RN.
“A gente ainda se mantém de doação, da venda das camisas, de botons, xícaras. A gente faz o que a gente consegue para vender, os pais mesmo [colaboram], as mães costuram as camisas para que a gente consiga manter o projeto que não é barato também. Na verdade, cada criança custaria R$ 360 por mês [de despesas], a gente fez essa média”, explicou.
É devagar que esse sonho está sendo realizado, como diz Saryne. Ela, que é professora de balé na iniciativa, explica que esse projeto nasceu com o pensamento de “desmistificar a ideia de que o balé nasceu para os ricos e que as crianças de comunidade podem fazer o que elas quiserem na hora que elas quiserem”, aponta.
Não só as crianças, mas os adultos e famílias da comunidade tem a oportunidade de serem impactados pela ação. Entre as histórias que se cruzaram com a da professora de balé, Saryne destaca a de uma mulher, mãe de um dos alunos do balé, que deixou uma vida de sofrimento de violência doméstica após se profissionalizar em um dos cursos profissionalizantes gratuitos oferecidos no local.

“Hoje a gente tem o curso profissionalizante de design de sobrancelhas que atende 15 pessoas. Dentro dele a gente tem uma história de uma mãe que sofria violência doméstica e quando terminou o curso deixou o esposo. Ela entendeu que podia, sim, viver. Ela achava que tinha aquela dependência financeira, mas ela não tinha mais. Ela consegue se manter financeiramente e manter os filhos financeiramente”, falou.
E são histórias aquilo que o projeto mais coleciona, junto dos sorrisos e brincadeiras felizes de crianças e adolescentes que podem sonhar com um voo mais alto. Entre as ações do projeto, Saryne conta que também há cursos disponibilizados para adolescentes, como o de Produção Cultural, com o caráter de capacitar aqueles que desejam, assim como ela, trabalhar com os elementos da cultura e até mesmo atuar com o próprio Balé da Ralé. “Meus dois filhos mais velhos fazem [o curso], são crianças entre 11 e 16 anos que fazem o curso. Hoje a gente atende oito crianças”, conta.
“A gente participou também do Sebrae Acelera e conseguiu um recurso não financeiro, mas de pessoas, que eu acho que é muito mais importante”, disse Saryne. Ela disse que, com a participação no edital, o projeto conseguiu ainda mais conhecimento. Por meio disso, o Balé da Ralé adquiriu ainda mais parceiros e doadores, como conta Saryne.
O Balé da Ralé realizará um espetáculo no dia 27 de julho, no Teatro Alberto Maranhão, localizado na Ribeira, onde os participantes do projeto levarão seus sonhos para o palco. “Quando a gente começa a entender que o balé, ele chegou aqui, a gente consegue entender que eles podem chegar onde eles quiserem. É um sonho, talvez seja um sonho pequeno para muita gente, mas para eles é um sonho enorme. E quando eles estão no teatro, eles conseguem ver que o trabalho deles foi bem feito e ali eles conseguem transformar a vida um pouquinho que seja”, completou Saryne.
Os ingressos para o espetáculo “Os Segredos do Meu Matulão” já estão à venda. Já para doar, a idealizadora conta que basta acessar a rede social do projeto: @baledarale no Instagram, onde tem mais detalhes. As doações são realizadas, geralmente, por meio do código PIX do projeto: 45.322.227/0001-91, que também é o CNPJ do Balé da Ralé.