Registrar emoções no papel — ou em aplicativos e dispositivos digitais — tem se consolidado como uma ferramenta relevante no acompanhamento e no tratamento de transtornos mentais. A prática, conhecida como automonitoramento emocional, tem sido associada por especialistas à identificação precoce de mudanças de humor e sinais de recaída, além de auxiliar na compreensão de padrões comportamentais ao longo do tempo.
A estudante Luana Rodrigues, de 26 anos, incorporou o hábito de escrever em um diário como parte do cuidado com a saúde mental. Diagnosticada com transtorno bipolar em 2022, após enfrentar episódios de ansiedade desde a infância, ela passou a utilizar o registro diário como forma de organizar pensamentos e emoções. “Hoje estou bem para baixo, não estou indo à academia. Quero terminar meu relatório, mas não sei por onde começo, preciso ir ao médico. Eu fui ao médico e voltei muito bem”, escreveu.

A prática do registro emocional não é recente, mas tem ganhado destaque em estudos contemporâneos. Pesquisas indicam que escrever sobre sentimentos contribui para a organização dos pensamentos, favorece o autoconhecimento e ajuda a identificar gatilhos que podem desencadear crises. Esse processo permite que a pessoa reconheça padrões de comportamento e desenvolva estratégias para lidar com situações difíceis.
Para quem convive com transtornos mentais, como depressão, ansiedade e transtorno bipolar, o automonitoramento pode ser uma ferramenta complementar ao tratamento. Ao registrar emoções, sintomas e acontecimentos do dia a dia, é possível perceber variações de humor com mais clareza e agir de forma preventiva.
A psicóloga Aline Ribeiro, do Instituto de Assistência Médica ao Servidor Público Estadual, explica que esse acompanhamento frequente está diretamente relacionado à identificação precoce de recaídas. Segundo ela, o registro contínuo permite reconhecer alterações no padrão emocional e identificar fatores que podem influenciar essas mudanças, como hábitos de consumo, sono ou situações de estresse.
Além disso, o automonitoramento pode ocorrer de diferentes formas. A primeira delas é o registro manual, feito em diários ou cadernos, que permite um contato mais direto com a própria experiência emocional. A segunda envolve o uso de aplicativos e ferramentas digitais, que auxiliam na organização das informações e na visualização de padrões ao longo do tempo.
A comunicadora Luíza Leal, de 30 anos, também adotou a prática. Diagnosticada com transtorno de personalidade borderline e ansiedade generalizada há dois anos, ela passou a registrar emoções diariamente em um aplicativo no celular. Segundo ela, o hábito trouxe benefícios ao longo dos anos, ajudando na identificação de oscilações de humor e na tomada de decisões mais conscientes.
“Antes eu fazia isso, agora penso antes de fazer e consigo evitar”, afirma Luíza, ao relatar como o acompanhamento emocional contribuiu para mudanças no comportamento.
Especialistas destacam que o registro frequente também auxilia no processo terapêutico, ao fornecer informações mais detalhadas para profissionais de saúde. Ao compartilhar esses dados em consultas, pacientes e terapeutas conseguem construir estratégias mais eficazes e personalizadas.
Para a psiquiatra Ana Carolina Santucci, a prática tem base científica consolidada. Segundo ela, estudos indicam que pacientes que adotam o automonitoramento apresentam redução significativa nos sintomas e melhor adesão ao tratamento. Em pesquisas, pessoas que registraram emoções de forma regular relataram melhora na compreensão dos próprios sentimentos e maior capacidade de lidar com situações desafiadoras.
Outro ponto importante é o impacto fisiológico do hábito. De acordo com especialistas, expressar emoções por meio da escrita pode contribuir para a redução do estresse acumulado, influenciando positivamente o funcionamento do sistema imunológico e cardiovascular, além de favorecer o bem-estar psicológico.