A trajetória de James Kamau Ndungu, um queniano de 32 anos, ilustra um fenômeno que tem ganhado escala silenciosamente: o recrutamento de africanos para a guerra na Ucrânia sob falsas promessas de trabalho. Desempregado, ele informou a amigos que viajaria para a Rússia para atuar como diarista. Meses depois, já vestia uniforme militar em uma trincheira. Foi a última vez que deu notícias.
Casos como o de Kamau vêm sendo registrados em diferentes países africanos, em um esquema que envolve empresas de fachada e intermediários que oferecem vagas civis no exterior. Ao chegarem à Rússia, os trabalhadores são pressionados a assinar contratos militares — muitas vezes em russo, sem compreensão do conteúdo — e enviados para zonas de combate.

As ofertas são disseminadas principalmente por redes sociais e aplicativos de mensagens, como WhatsApp e Telegram. Agências se apresentam como operadoras de viagens ou recrutamento profissional, prometendo empregos em áreas como logística, comércio e serviços.
A escassez de empregos formais na África torna essas propostas altamente atrativas. Com uma das populações mais jovens do mundo e altos índices de desemprego, o continente tornou-se alvo desse tipo de aliciamento.
No Quênia, autoridades estimam que cerca de mil cidadãos tenham viajado à Rússia e acabado no front na Ucrânia. Apenas 30 retornaram com vida.
Relatos indicam que muitos dos recrutados não tinham intenção de participar da guerra. Ao chegarem ao destino, são informados de que só poderão retornar aos seus países se arcarem com os custos da viagem — algo inviável para a maioria.
Vincent Odhiambo Awiti, também queniano, afirma ter sido convencido por um agente a aceitar uma vaga em uma loja na Rússia. Ao desembarcar em São Petersburgo, foi instruído a assinar um contrato militar.
“Achamos que era uma grande oportunidade. Eu não tinha outra opção”, disse.
Após recusar inicialmente, ele e outros recrutados acabaram cedendo diante da impossibilidade de retornar ao país de origem. O grupo foi enviado para treinamento militar e, em seguida, deslocado para áreas de combate próximas à linha de frente.
Awiti relata ter sido enviado para a região de Kharkiv, onde enfrentou combates intensos. Em uma missão, sua unidade recebeu ordens para atravessar uma área exposta até uma trincheira. O comandante foi morto antes de completar o trajeto.
“A cabeça dele se separou do corpo. Eles chamam isso de zona da morte”, afirmou. Ele conseguiu escapar com a ajuda de um desertor russo e, após ser ferido, retornou ao Quênia com apoio diplomático. O recrutamento se transformou em uma atividade lucrativa para intermediários. Anúncios prometem salários de até US$ 3 mil mensais, bônus de até US$ 18 mil e até cidadania russa após seis meses de serviço. Empresas como a St. Fortunes Travels and Logistics divulgaram vagas para funções civis que, na prática, estavam vinculadas ao Exército russo.
Autoridades de ao menos nove países africanos — incluindo África do Sul, Nigéria e Gana — já registraram casos semelhantes. Governos têm reforçado controles migratórios e iniciado investigações sobre redes de recrutamento.
No Quênia, um homem foi acusado de aliciar 22 cidadãos. Na África do Sul, o tema chegou ao nível presidencial, com discussões diretas entre Cyril Ramaphosa e Vladimir Putin. O senador queniano Okoiti Andrew Omtatah comparou a situação a um cenário extremo de exploração. “Se um navio negreiro atracasse hoje em Mombaça, não haveria espaço suficiente a bordo”, afirmou. O governo russo reconhece a presença de estrangeiros na guerra, mas nega irregularidades. O ministro das Relações Exteriores, Sergey Lavrov, afirmou que os voluntários atuam em conformidade com a legislação. Já o Kremlin declarou não ter conhecimento de casos de recrutamento enganoso.
A Ucrânia, por outro lado, acusa Moscou de explorar a vulnerabilidade econômica de jovens africanos. “É desumano o tratamento dado a pessoas que só precisam de dinheiro”, afirmou o embaixador ucraniano na África do Sul, Olexander Scherba. O fenômeno evidencia a interseção entre crises econômicas, fluxos migratórios e conflitos geopolíticos. Para milhares de jovens africanos, a busca por trabalho no exterior tem se convertido em risco de vida em um dos principais conflitos armados da atualidade. Enquanto anúncios continuam circulando nas redes sociais, governos e organismos internacionais enfrentam dificuldades para conter um modelo de recrutamento que se adapta rapidamente às fragilidades econômicas e institucionais dos países de origem.