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Filme

“A Noiva!” revisita Frankenstein com nova perspectiva e foco na protagonista

Filme estreia nas plataformas digitais e propõe reflexão sobre identidade e autonomia
Por O Correio de Hoje
13/04/2026 | 14:22

Até que a morte os separe? Em A Noiva!, a pergunta deixa de ser promessa e se transforma em provocação. A partir de 19 de abril, o filme chega às plataformas digitais para compra e aluguel, oferecendo ao espectador algo cada vez mais raro: tempo — para pausar, voltar, rever e absorver, sem a pressa dos intervalos ou a rigidez de uma grade.

A história parte de um terreno familiar, mas rapidamente se afasta dele. Inspirado no universo criado por Mary Shelley em 1818, o longa revisita o mito de Frankenstein, deslocando o olhar. Em vez de seguir Frank — interpretado por Christian Bale —, a narrativa encontra sua força em Ida, vivida por Jessie Buckley. Ressuscitada como a Noiva, ela não aceita o destino que lhe foi atribuído. Ao contrário, confronta-o.

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A Noiva! reposiciona personagem clássica como protagonista de sua própria história - Foto: Divulgação

Há algo de profundamente contemporâneo nessa recusa.

Ambientado em uma Chicago dos anos 1930, o filme acompanha uma personagem que nasce já em conflito com o mundo que a cerca. Criada em laboratório, moldada por expectativas alheias, ela rapidamente se torna uma presença incômoda — não por aquilo que é, mas pelo que se recusa a ser. Sua trajetória não é de adaptação, mas de ruptura.

A diretora Maggie Gyllenhaal constrói esse percurso com um olhar que combina delicadeza e tensão. Romance e horror coexistem, mas são atravessados por uma estética que flerta com o punk — não apenas na superfície visual, mas na atitude. A Noiva não pede espaço. Ela o ocupa.

O resultado é uma releitura que transforma um arquétipo historicamente marginalizado em eixo central da narrativa. Se, ao longo de mais de dois séculos, a figura da Noiva foi tratada como extensão do monstro, aqui ela se torna sujeito. E mais: autora de si mesma.

O elenco reforça o peso da proposta. Jessie Buckley, que venceu o Oscar de Melhor Atriz neste ano, entrega uma personagem que oscila entre fragilidade e força, sem se fixar em nenhuma das duas. Ao lado dela, Christian Bale, Penélope Cruz e Annette Bening — todos nomes associados à premiação da Academia — compõem um conjunto que sustenta a densidade do filme sem sobrecarregá-lo.

Mas é nos detalhes que A Noiva! encontra sua camada mais silenciosa.

Ao longo da narrativa, o figurino acompanha a transformação da protagonista. Foram criadas 23 versões do vestido da Noiva, cada uma marcada por rasgos, manchas e alterações que não apenas vestem a personagem, mas contam sua história. As roupas não escondem o processo — revelam.

Essa escolha estética dialoga com o próprio percurso da personagem: um corpo reconstruído que se recusa a parecer intacto.

Mais do que uma releitura de Frankenstein, A Noiva! é um filme sobre identidade — e sobre o custo de reivindicá-la. Ao deslocar o foco para quem antes ocupava as margens, a obra não apenas revisita um clássico, mas o reorganiza.

Para quem busca narrativas que desafiam, personagens imperfeitos e histórias que resistem a respostas fáceis, o filme oferece um convite raro: assistir não apenas ao que acontece, mas ao que se transforma.

E talvez, ao final, a pergunta inicial — até que a morte os separe? — já não faça mais sentido.