A doação de corpos para ensino e pesquisa tem registrado crescimento na Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) e vem ampliando o acesso de estudantes e pesquisadores ao estudo da anatomia humana. Segundo o coordenador do programa de doação de corpos do Centro de Biociências, há cerca de dez anos a instituição recebia apenas dois ou três corpos por ano. O cenário começou a mudar há aproximadamente cinco anos e, em 2025, a universidade registrou a doação de 11 corpos, número que continua em crescimento.
De acordo com professores da instituição, a utilização de corpos humanos é fundamental para a formação de profissionais da saúde e contribui para o desenvolvimento científico e tecnológico em diversas áreas, como Medicina, Educação Física, Ortopedia, Neurologia e outras especialidades. Eles explicam que, embora modelos artificiais tenham utilidade didática em determinadas situações, o treinamento em corpos reais é considerado indispensável para a formação de profissionais que atuarão diretamente no atendimento a pacientes.

Após o uso em atividades de ensino e pesquisa, o material anatômico pode continuar sendo utilizado por diferentes cursos da área da saúde. Segundo a coordenação do programa, há órgãos preservados na universidade desde a década de 1970, sem prazo de validade para utilização. Quando a instituição entende que determinado material deve ser sepultado, o procedimento é realizado no Cemitério Parque Nova Descoberta.
A doação pode ser formalizada ainda em vida. O interessado deve manifestar à família o desejo de doar o corpo e procurar o Centro de Biociências da UFRN para assinar um termo de interesse. Após o falecimento, uma equipe vinculada aos programas de doação entra em contato com os familiares para confirmar o procedimento. Em seguida, o corpo é encaminhado à universidade.
O crescimento do número de doadores também é atribuído ao aumento da divulgação sobre essa modalidade de doação. Uma familiar de uma doadora, Salete Gregorin, contou que a decisão foi tomada ainda em vida pela filha, que morreu há dois anos em decorrência de um afogamento. Segundo ela, antes havia pouca divulgação sobre a possibilidade de doar o corpo para estudos, enquanto a doação de órgãos era mais conhecida pela população.
Ela afirmou acreditar que os estudantes conseguem realizar um estudo mais aprofundado utilizando corpos humanos, compreendendo melhor a anatomia e o funcionamento dos órgãos, algo que, segundo ela, não é possível reproduzir integralmente em manequins. Também destacou que o aumento do número de doações representa um avanço para a formação dos futuros médicos e para o desenvolvimento da medicina.
Os benefícios da utilização de corpos reais também são percebidos pelos estudantes. Mariana Gomes, aluna de Medicina em Portugal, participou de um curso de Anatomia promovido pela UFRN e relatou que, durante sua formação no país europeu, os estudos eram realizados apenas por meio de livros e modelos tridimensionais. Segundo ela, o contato com corpos humanos proporciona uma compreensão mais precisa das estruturas anatômicas, da densidade dos tecidos e das diferenças entre as regiões do corpo, tornando a experiência essencial para a formação profissional.

Entre os cadastrados no programa está Clarice Rodrigues, que decidiu doar o próprio corpo à universidade. Ela informou que tomou a decisão de forma voluntária, com o apoio da família, motivada pelo desejo de contribuir para a formação de estudantes e para o avanço das pesquisas científicas. Para ela, a doação representa um gesto de amor ao próximo e de responsabilidade social.
Segundo a UFRN, a conscientização da população sobre a importância da doação de corpos tem aumentado ano após ano, ampliando o número de pessoas interessadas em contribuir com o ensino, a pesquisa e a formação de profissionais da saúde.