O candidato ao Governo do Rio Grande do Norte Cadu de Lula recebeu, na última quarta-feira 14, o apoio de um dos mais enfáticos adversários do PT nos últimos anos. Vice-governador na gestão Robinson Faria, entre 2015 e 2018, Fábio Dantas (PSDB) incorporou seu grupo político à campanha petista depois de uma trajetória marcada por críticas a Fátima Bezerra, enfrentamentos com dirigentes do PT e defesa de medidas fiscais que provocaram reação de parlamentares e sindicatos.
A adesão foi anunciada em São José de Mipibu, ao lado do prefeito Zé Figueiredo e do vice-prefeito Bruno Dantas. No primeiro turno, o grupo acompanhou Álvaro Dias (PL). Com a eliminação do ex-prefeito de Natal, escolheu apoiar Cadu contra Allyson Bezerra (União) na votação de 25 de outubro. Fábio é marido da deputada estadual reeleita Cristiane Dantas (PSDB).

A mudança aproxima Fábio do grupo que, em 2022, quando ele disputou o governo pelo Solidariedade, associou reiteradamente sua candidatura à condição de vice de Robinson e aos problemas deixados pela administração, especialmente os salários atrasados. Naquela eleição, Fábio enfrentou Fátima e apoiou Jair Bolsonaro (PL) na disputa presidencial.
Da aliança ao rompimento
A relação, contudo, começou com uma aliança. Em 2014, Robinson, então no PSD, e Fábio, filiado ao PCdoB, foram eleitos governador e vice na composição que também levou Fátima ao Senado. Os três dividiram o palanque, e o PT participou da administração estadual em seu início, com indicações para secretarias e órgãos públicos.
O rompimento ocorreu em abril de 2016, no contexto do impeachment da então presidente Dilma Rousseff. Depois que o deputado federal Fábio Faria, filho de Robinson, anunciou voto favorável ao afastamento da presidente, o PT entregou os cargos no governo estadual. À época, o presidente estadual da legenda, Eraldo Paiva, afirmou que os petistas se consideravam “traídos pelo governo estadual e o PSD”. A ruptura abriu caminho para o acirramento das divergências sobre a condução do Estado.
Um dos principais episódios ocorreu em março de 2017. No exercício do governo, Fábio apresentou à Assembleia Legislativa um pacote econômico e fiscal que previa elevar de 11% para 14% a contribuição previdenciária dos servidores e limitar os gastos públicos por 20 anos. As propostas incluíam mudanças em gratificações e reajuste de cargos comissionados, tornando-se alvo de mobilizações do funcionalismo.
O então deputado estadual Fernando Mineiro (PT) se colocou contra as medidas e promoveu audiência pública para discutir seus efeitos. “Não foi realizado nenhum cálculo atuarial que justifique o aumento da contribuição dos servidores”, afirmou. O parlamentar acusava o governo de utilizar recursos do fundo previdenciário e transferir ao funcionalismo a responsabilidade pelo desequilíbrio das contas.
Entidades sindicais ligadas ao PT também exigiram a retirada das propostas, chamadas de “pacote de maldades”.
Fátima, ainda senadora, levou as críticas ao plenário do Senado. Em dezembro de 2017, condenou os atrasos salariais, a proposta de aumento da contribuição previdenciária e a repressão a manifestações. Ao comentar a atuação do governo contra servidores, afirmou que a situação revelava “a falência de uma gestão”. Também acusou Robinson de reproduzir no Estado a política de austeridade do governo Michel Temer.
O peso de ter sido vice
Na disputa de 2022, a passagem de Fábio pelo Executivo tornou-se um dos principais argumentos usados por petistas para contestar sua candidatura. O discurso governista vinculava o ex-vice às quatro folhas salariais deixadas em atraso pela gestão Robinson e à crise financeira enfrentada pelo Estado. Fábio procurava afastar essa responsabilidade, alegando falta de poder decisório e discordância com os rumos da administração.
O confronto com o então controlador-geral Pedro Lopes expôs o tom da disputa. Em entrevista ao AGORA RN, em abril daquele ano, Lopes declarou: “Eu teria vergonha na cara de me expor em uma pré-candidatura ao governo do Estado”. Ao relacionar Fábio às dificuldades da administração anterior, afirmou que ele teria mais a justificar e a “pedir desculpas” do que a apresentar realizações.
A resposta veio em entrevista à 98 FM Natal. Fábio atacou Lopes e desafiou a governadora a debater diretamente. “Esse aí é um capacho dela, capataz candidato a deputado dela”, disse. Sobre sua participação na gestão Robinson, apresentou uma justificativa que acompanharia o esforço para desvincular sua candidatura daquele governo: “Vice não manda em canto nenhum”.
Na mesma ocasião, Fábio chamou Fátima de “incompetente” pela demora em quitar os salários herdados. Argumentou que outros estados haviam resolvido pendências semelhantes em menos tempo e acusou a governadora de explorar politicamente o problema. “Fátima usa como retórica. É o discurso de quem não tem o que falar, não tem o que mostrar”, afirmou.
Novo compromisso
Quatro anos depois, o encontro em São José de Mipibu formalizou a aproximação com o candidato petista. Além de Fábio, prefeito e vice, participaram do encontro 10 vereadores, entre eles a presidente da Câmara, Verônica Senra. Segundo a organização, estiveram presentes 22 ex-vereadores, 19 suplentes e representantes de 12 municípios do Agreste.
Cadu apresentou a aliança como um compromisso político e administrativo com o município. “Eu chego aqui com compromisso com o Rio Grande do Norte, com a minha honestidade e com o meu trabalho pelo povo”, declarou. Aos novos aliados, assegurou: “De Cadu, a única coisa que você pode não esperar é que haja traição desse compromisso que a gente está selando aqui”.
O candidato citou seus 21 anos de serviço público e mais de sete anos como secretário estadual, reafirmou a ligação com Lula e abordou demandas de saúde, educação e segurança. A adesão amplia sua articulação no Agreste e reúne, na reta final da eleição, lideranças que estiveram em campos opostos nos embates sobre a administração estadual.