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Eleições 2026

Na pandemia, Cadu descartou auxílio a trabalhadores, mas assinou reajuste para sua categoria

Medida tem impacto anual estimado em R$ 13,16 milhões; caso virou ataque de Allyson na campanha e levou a disputa por direito de resposta no TSE
Agora RN
25/09/2026 | 19:25

O candidato ao Governo do Rio Grande do Norte Cadu Xavier (PT) afirmou, em 23 de março de 2021, que o Estado não tinha recursos para criar um auxílio emergencial próprio para a população afetada pela pandemia. Em 7 de maio, 45 dias depois, o então secretário estadual da Tributação assinou a resolução que elevou uma parcela da remuneração dos auditores fiscais, categoria à qual pertence.

“Não temos recursos para uma iniciativa como essa”, declarou Cadu em entrevista ao Jornal da Manhã, da Jovem Pan News Natal. A fala foi publicada pela Tribuna do Norte no dia da entrevista e repercutida pelo De Fato em 24 de março de 2021.

Cadu Xavier, de camisa vinho, durante debate da Band RN
Cadu Xavier durante debate da Band RN, em agosto de 2026, quando Allyson Bezerra o questionou sobre a UPV — Foto: José Aldenir/Agora RN

As reportagens situam a declaração no contexto da cobrança por um benefício estadual semelhante ao auxílio emergencial pago pelo governo federal. O De Fato registrou que trabalhadores e setores atingidos pela pandemia reivindicavam esse apoio e descreveu a posição do secretário como uma negativa à possibilidade de o Estado financiar a iniciativa.

O reajuste dos auditores voltou ao debate político na campanha deste ano. No debate da Band RN de 9 de agosto, o candidato ao governo Allyson Bezerra (União Brasil) apresentou documentos de um processo do Tribunal de Contas do Estado (TCE-RN) e acusou o adversário de aumentar o próprio salário durante a crise sanitária. Cadu negou irregularidades. “O meu salário é regulamentado por lei. Eu não descumpro lei”, respondeu.

A acusação passou à propaganda eleitoral de Allyson no rádio e na televisão. Uma das inserções afirma que Cadu assinou o aumento do próprio salário enquanto pessoas morriam sem leitos de UTI. A peça menciona o impacto de aproximadamente R$ 13 milhões para a categoria e a investigação sobre respiradores comprados pelo governo estadual e não entregues.

Nesta sexta-feira 25, o ministro Ricardo Villas Bôas Cueva, do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), suspendeu os efeitos de cinco decisões do Tribunal Regional Eleitoral do RN (TRE-RN) que haviam concedido direitos de resposta a Cadu. “Os fatos afirmados na inserção não são falsos”, escreveu o ministro, em análise preliminar.

A decisão é provisória e deverá ser submetida ao plenário. Seu alcance é a disputa sobre as inserções que mencionam o reajuste e os respiradores. A declaração de março de 2021 sobre auxílio emergencial não integra os fatos examinados nessa decisão.

O registro da entrevista ajuda a delimitar a posição de Cadu naquele momento. Segundo a Tribuna, o secretário explicou que o governo estadual não tinha condições financeiras de oferecer à população uma ajuda nos moldes do benefício federal. Disse também que a gestão preparava medidas para apoiar o setor produtivo e preservar empregos, enquanto esperava que a União retomasse os pagamentos diretamente às famílias.

“Esse é um papel que foi desempenhado muito bem pelo Governo Federal no ano passado”, afirmou na mesma entrevista. Cadu disse que esperava a retomada do auxílio em abril de 2021 e lamentou a redução do valor para menos da metade. Sua manifestação, portanto, tratava da capacidade de financiamento de um programa estadual; ele reconhecia a importância da assistência federal.

A entrevista abordou também as dificuldades para quitar salários de servidores atrasados desde 2018. Cadu afirmou que a crise fiscal se agravava com a pandemia e que não podia assegurar a manutenção das datas previstas para pagar esses passivos. Em relação à folha mensal corrente, disse acreditar que o Estado conseguiria preservar o cronograma.

O levantamento do Agora RN confrontou esses registros com a Resolução Interadministrativa nº 355, de 7 de maio de 2021. Publicado no Diário Oficial em 8 de maio, o documento tem as assinaturas de Cadu e da então secretária estadual da Administração, Virgínia Ferreira.

A resolução fixou em R$ 108,91 o valor da Unidade da Parcela Variável (UPV), componente usado no cálculo da remuneração dos auditores fiscais. O valor anterior era de R$ 97,24, uma elevação de aproximadamente 12% nessa parcela. O ato estabeleceu efeitos financeiros retroativos a 1º de março de 2021, anterior à entrevista em que Cadu alegou falta de recursos para o auxílio.

A área técnica do TCE estimou impacto anual de R$ 13,16 milhões para o conjunto dos beneficiários. Esse valor corresponde à despesa projetada com a categoria, e não ao pagamento individual recebido pelo ex-secretário.

Na defesa apresentada ao Tribunal de Contas, Cadu sustenta que a atualização cumpriu uma obrigação estabelecida antes da pandemia. Segundo ele, a Lei Complementar Estadual nº 484/2013 definiu critérios relacionados à arrecadação e às metas de fiscalização, com homologação por resolução conjunta das secretarias. A defesa afirma também que havia cobertura orçamentária para o pagamento.

Em 13 de julho de 2021, o plenário do TCE rejeitou, por unanimidade, o pedido de suspensão dos pagamentos. Naquela análise preliminar, os conselheiros entenderam que a atualização decorria de legislação anterior e se enquadrava nas exceções às restrições remuneratórias impostas durante a pandemia.

A apuração prosseguiu. Técnicos do tribunal mantiveram questionamentos sobre a necessidade de lei específica, os cálculos e a comprovação de recursos para cobrir integralmente a despesa. Nos documentos consultados, não foi identificado julgamento definitivo sobre a regularidade da resolução.