O candidato ao Governo do Rio Grande do Norte Dário Barbosa (PSTU) defendeu nesta quinta-feira 20 a desmilitarização da segurança pública e uma mudança na formação dos policiais, para que as corporações deixem de tratar a população pobre e negra como inimiga.
“Primeiro, a gente quer introduzir uma discussão que já vem há algum tempo, que é sobre a desmilitarização da segurança pública”, afirmou em entrevista ao programa Contraponto, da rádio 96 FM. Para ele, a atual estrutura policial reproduz uma mentalidade de guerra concebida para as Forças Armadas, cuja função é proteger o território nacional diante de ameaças externas.

“Eu lhe pergunto: qual é o inimigo aqui interno que justifique que a polícia olhe os pobres como inimigo?”, questionou. E completou: “A pobreza não é inimiga. Quem produz a pobreza são os ricos. E os ricos não são inimigos da polícia”.
O que os dados mostram
A tese do candidato sobre a seletividade da ação policial encontra respaldo nos números oficiais. O 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, registrou que pessoas negras foram 82% das vítimas de mortes por intervenção policial em 2025, contra 17,7% de pessoas brancas — a maior desproporção entre todas as categorias de mortes violentas intencionais analisadas.
A taxa por 100 mil habitantes deixa a diferença ainda mais evidente: 3,5 entre pessoas negras e 1,0 entre pessoas brancas. O índice cresceu 3,5% entre pretos e pardos na comparação com 2024 e ficou estável entre brancos.
A proposta tem endereço no Congresso — e está parada
A desmilitarização que Dário defende foi formalizada em 2013 na PEC 51, apresentada pelo então senador Lindbergh Farias, que propunha unificar as polícias estaduais em uma corporação de caráter civil e ciclo completo, com ouvidoria externa e autonomia para cada estado definir seu modelo.
A proposta foi arquivada em dezembro de 2018. Desde março de 2019 há pedido de desarquivamento, sem avanço. Ou seja, a mudança legal que o candidato defende depende de emenda constitucional que não tramita há sete anos.
Efetivo, tecnologia e formação
Apesar da crítica ao modelo, Dário não propõe reduzir a estrutura. Ele defendeu ampliar os efetivos, modernizar as forças estaduais e combinar repressão e tecnologia no enfrentamento às facções e milícias, inclusive no ambiente digital.
A mudança que propõe é dupla: legal, na estrutura das corporações, e pedagógica, no conteúdo ensinado aos futuros agentes. Segundo ele, as escolas de formação não apresentam os grupos mais ricos como ameaça, mas adotam outra abordagem em relação aos “pobres e pretos, principalmente”.
O candidato reconheceu as poucas chances eleitorais, mas afirmou que o partido não desistirá de apresentar suas ideias, e se colocou como alternativa socialista tanto à direita quanto ao que classificou como “esquerda de conciliação” representada por PT e PSOL. As propostas foram noticiadas originalmente por O Correio de Hoje.