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Eleições 2026

Dário Barbosa defende desmilitarizar a polícia, e os números dão contorno ao argumento dele

Candidato do PSTU diz que pobres e negros são tratados como inimigos; o Anuário de Segurança Pública registrou 82% de vítimas negras nas mortes por intervenção policial em 2025
Agora RN
21/08/2026 | 06:49

O candidato ao Governo do Rio Grande do Norte Dário Barbosa (PSTU) defendeu nesta quinta-feira 20 a desmilitarização da segurança pública e uma mudança na formação dos policiais, para que as corporações deixem de tratar a população pobre e negra como inimiga.

“Primeiro, a gente quer introduzir uma discussão que já vem há algum tempo, que é sobre a desmilitarização da segurança pública”, afirmou em entrevista ao programa Contraponto, da rádio 96 FM. Para ele, a atual estrutura policial reproduz uma mentalidade de guerra concebida para as Forças Armadas, cuja função é proteger o território nacional diante de ameaças externas.

Agente da Polícia Militar do Rio Grande do Norte fotografado de costas, com identificação da corporação no uniforme
Candidato do PSTU propõe desmilitarizar as corporações e mudar a formação dos policiais para alterar a relação com a população pobre e negra — Foto: Acervo Agora RN

“Eu lhe pergunto: qual é o inimigo aqui interno que justifique que a polícia olhe os pobres como inimigo?”, questionou. E completou: “A pobreza não é inimiga. Quem produz a pobreza são os ricos. E os ricos não são inimigos da polícia”.

O que os dados mostram

A tese do candidato sobre a seletividade da ação policial encontra respaldo nos números oficiais. O 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, registrou que pessoas negras foram 82% das vítimas de mortes por intervenção policial em 2025, contra 17,7% de pessoas brancas — a maior desproporção entre todas as categorias de mortes violentas intencionais analisadas.

A taxa por 100 mil habitantes deixa a diferença ainda mais evidente: 3,5 entre pessoas negras e 1,0 entre pessoas brancas. O índice cresceu 3,5% entre pretos e pardos na comparação com 2024 e ficou estável entre brancos.

A proposta tem endereço no Congresso — e está parada

A desmilitarização que Dário defende foi formalizada em 2013 na PEC 51, apresentada pelo então senador Lindbergh Farias, que propunha unificar as polícias estaduais em uma corporação de caráter civil e ciclo completo, com ouvidoria externa e autonomia para cada estado definir seu modelo.

A proposta foi arquivada em dezembro de 2018. Desde março de 2019 há pedido de desarquivamento, sem avanço. Ou seja, a mudança legal que o candidato defende depende de emenda constitucional que não tramita há sete anos.

Efetivo, tecnologia e formação

Apesar da crítica ao modelo, Dário não propõe reduzir a estrutura. Ele defendeu ampliar os efetivos, modernizar as forças estaduais e combinar repressão e tecnologia no enfrentamento às facções e milícias, inclusive no ambiente digital.

A mudança que propõe é dupla: legal, na estrutura das corporações, e pedagógica, no conteúdo ensinado aos futuros agentes. Segundo ele, as escolas de formação não apresentam os grupos mais ricos como ameaça, mas adotam outra abordagem em relação aos “pobres e pretos, principalmente”.

O candidato reconheceu as poucas chances eleitorais, mas afirmou que o partido não desistirá de apresentar suas ideias, e se colocou como alternativa socialista tanto à direita quanto ao que classificou como “esquerda de conciliação” representada por PT e PSOL. As propostas foram noticiadas originalmente por O Correio de Hoje.