Um grupo de 47 bispos católicos de 19 estados divulgou nesta quinta-feira 22 uma carta sobre o segundo turno presidencial com críticas a uma candidatura que, na avaliação dos signatários, ameaça a democracia e contraria os ensinamentos sociais da Igreja. O documento não menciona os nomes do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ou do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), mas faz referências ao governo do pai de um dos concorrentes.
Os religiosos questionam posições sobre acesso a armas, direitos dos trabalhadores, programas sociais, soberania nacional e proteção ambiental. Ao tratar da política de armamento, afirmam que um dos candidatos pretende ampliar o acesso “como fez o seu pai em seu Governo”, em referência ao ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).

“O cenário é muito grave, pois uma das candidaturas ameaça frontalmente diversos pontos centrais da DSI, a existência da democracia, a soberania nacional e a prática do bem comum”, afirmam os signatários. A sigla se refere à Doutrina Social da Igreja, conjunto de ensinamentos católicos sobre a vida em sociedade.
Intitulado “Carta de Bispos Católicos ao Povo de Deus diante do Segundo Turno das Eleições Presidenciais de 2026”, o documento reúne bispos, arcebispos e religiosos eméritos, que já deixaram o governo de suas dioceses. Os autores dizem que pretendem orientar a decisão dos eleitores a partir desses ensinamentos.
Segundo dados da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) citados pelo g1, o país tem 498 bispos, dos quais 325 estão em atividade e 173 são eméritos. Os 47 nomes apresentados na carta correspondem a aproximadamente 9,4% desse total.
A manifestação do grupo é distinta da mensagem oficial divulgada pelo Conselho Permanente da CNBB na quarta-feira 21. Procurada pelo g1, a conferência reafirmou a defesa da Constituição, do Estado Democrático de Direito, dos resultados das urnas e da participação consciente dos eleitores, sem se pronunciar especificamente sobre a carta dos 47 bispos.
Na discussão sobre trabalho, os signatários criticam a candidatura que, segundo eles, se posicionou contra o fim da escala 6×1 e defendeu remuneração por hora trabalhada. Para os religiosos, a avaliação de mudanças na organização do trabalho deve considerar a dignidade do trabalhador, uma remuneração suficiente e as condições de participação na vida social.
A carta também questiona a relação com os Estados Unidos. Os bispos acusam um dos candidatos de defender a submissão do Brasil ao país, apoiar interferências estrangeiras nas eleições e propor a exploração de terras raras brasileiras pelos americanos. Essas afirmações são apresentadas como avaliações e acusações dos autores do documento.
Sobre políticas sociais, os religiosos dizem que o partido de um dos concorrentes tem histórico de oposição a programas de combate à pobreza. Eles sustentam que as promessas de continuidade de benefícios precisam ser examinadas à luz da trajetória política da candidatura e da opção da Igreja pelos pobres.
Na área ambiental, o grupo critica o que considera negação da crise climática e intenção de dar continuidade às políticas do governo anterior. O documento também menciona a Lei nº 15.190/2025, chamada pelos signatários de “Lei da Devastação”, ao questionar a atuação partidária no Congresso.
Os autores rejeitam a ampliação do acesso a armas e qualquer justificativa para a tortura. Nesse trecho, fazem referência às homenagens da família de um dos candidatos ao agente da ditadura Carlos Alberto Brilhante Ustra, citado na carta como exemplo de uma posição incompatível com os ensinamentos católicos.
O documento relaciona a defesa da democracia à trajetória dos concorrentes e afirma que a concentração de poder pode criar condições para uma usurpação das instituições. Os bispos também comparam os riscos que enxergam na eleição a experiências autoritárias do século XX.
“Não se trata apenas de uma escolha eleitoral, tantas vezes já praticada no Brasil, mas da possibilidade de uma mudança profunda nos rumos da nação, cujos exemplos na história do século XX deixaram cruéis e amargas lembranças”, afirmam.
Ao abordar a outra candidatura, também sem nomeá-la, os signatários dizem que ela está sujeita a críticas, mas tem demonstrado compromisso com os pobres, com o meio ambiente e com os limites da ordem democrática. O grupo sustenta que a discordância em relação ao governo atual não deve se sobrepor à análise das propostas e do histórico dos adversários.
Entre os nomes apresentados como signatários estão o arcebispo de Porto Velho (RO), Roque Paloschi; o arcebispo de Feira de Santana (BA), Zanoni Demettino Castro; o bispo de Jales (SP), José Reginaldo Andrietta; e o bispo de Livramento de Nossa Senhora (BA), Vicente de Paula Ferreira.
Na mensagem própria do Conselho Permanente, a CNBB também destacou direitos como alimentação, moradia, saúde, educação, segurança e trabalho digno. A entidade condenou ameaças, pressões e negociação de votos e lembrou que a escolha eleitoral é livre e secreta.
A carta do grupo de bispos termina com um chamado à participação no segundo turno, marcado para domingo 25. Os signatários pedem que os católicos votem considerando a defesa da democracia, os valores humanitários, os pobres e os ensinamentos da Igreja.
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