O primeiro debate presidencial do segundo turno entre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL), realizado pela Band na noite deste domingo 18, concentrou-se em acusações sobre corrupção, segurança pública, saúde, custo de vida e relações com os Estados Unidos. O confronto durou cerca de duas horas e foi o primeiro encontro direto dos dois candidatos na televisão nesta eleição.
Lula e Flávio chegaram ao estúdio separados por dez minutos. O senador entrou acompanhado de aliados como Tarcísio de Freitas (Republicanos), Sergio Moro (PL), Nikolas Ferreira (PL) e parlamentares eleitos. Na comitiva do presidente estavam Geraldo Alckmin (PSB), Fernando Haddad (PT), Marina Silva (Rede) e Simone Tebet (PSB), entre outros nomes.

O debate ocorreu a uma semana da votação de 25 de outubro. Flávio terminou o primeiro turno com 47,03% dos votos válidos, cerca de 56,1 milhões, enquanto Lula obteve 45,16%, aproximadamente 53,8 milhões. Nenhum dos dois participou dos debates do primeiro turno.
Como funcionou o debate da Band
O encontro foi promovido pelo Grupo Bandeirantes em parceria com Estadão, TV Cultura, TV Gazeta e Jovem Pan. Eduardo Oinegue e Adriana Araújo conduziram a transmissão.

A programação foi dividida em três blocos. No primeiro, os mediadores fizeram perguntas aos candidatos e, na sequência, Lula e Flávio tiveram um banco de 15 minutos cada para o confronto direto. No segundo bloco, novas perguntas dos apresentadores foram seguidas por perguntas de um candidato ao outro. O terceiro retomou a dinâmica de confronto e terminou com as considerações finais.
As interrupções da plateia foram frequentes. Os mediadores pausaram o relógio em diferentes momentos e pediram silêncio às comitivas. Um direito de resposta foi concedido no primeiro bloco. Nas falas finais, uma discussão na plateia voltou a interromper os dois candidatos.
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Segurança abre o confronto
A primeira rodada tratou da maioridade penal e do combate ao crime organizado. Flávio afirmou que pretende “declarar guerra ao narcoterrorismo”, recuperar áreas dominadas por facções e abrir mais de 500 mil vagas no sistema prisional. Também defendeu presença das Forças Armadas em fronteiras, portos e aeroportos.
Lula citou a legislação aprovada contra facções e voltou a defender a criação de um Ministério da Segurança Pública, caso a proposta de emenda constitucional sobre o tema avance no Congresso. Disse que o governo precisa combater o crime “da esquina ao andar de cima” e destacou ações federais contra organizações financeiras ligadas a grupos criminosos.
O embate ganhou tom pessoal quando Flávio perguntou por que, segundo ele, 73% dos presos teriam votado em Lula. O presidente respondeu: “Eu quero que votem 100%. Até teu pai”. Jair Bolsonaro está preso e, por ter condenação definitiva, não pode votar. Presos provisórios, que ainda não têm condenação transitada em julgado, mantêm o direito ao voto.

Flávio apresentou ainda quatro propostas na área:
- reduzir a maioridade penal para 14 anos em crimes hediondos;
- aplicar castração química a condenados por estupro e pedofilia;
- criar o programa Smart Brasil, com mais de 1 milhão de câmeras e uso de inteligência artificial;
- ampliar a atuação federal contra o narcotráfico e o financiamento das facções.
Lula, por sua vez, citou um programa federal de bloqueio de celulares roubados, a integração de bancos de dados e a responsabilização financeira de organizações criminosas.
Banco Master, Vorcaro e acusações sobre familiares
O caso Banco Master ocupou parte expressiva do debate. Lula cobrou explicações sobre os R$ 134 milhões que Flávio teria buscado com Daniel Vorcaro para financiar o filme Dark Horse, sobre Jair Bolsonaro. O senador confirmou que o projeto era um filme, mas não detalhou a estrutura da negociação.

Reportagens apontam que ao menos R$ 62 milhões teriam sido transferidos antes da prisão de Vorcaro. A Polícia Federal investiga se parte dos recursos poderia ter outra destinação. Flávio nega irregularidades e afirma que os valores estavam ligados à produção cinematográfica.
Flávio respondeu associando o governo Lula ao banqueiro e dizendo que a prisão foi determinada pelo ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal. Lula afirmou que Vorcaro se tornou banqueiro durante a gestão Bolsonaro e que a investigação federal avançou em seu governo.
O senador também citou a empresária Roberta Luchsinger e questionou Lula sobre supostas reuniões de Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, com integrantes do governo. O presidente disse que o caso está nas mãos da Polícia Federal e declarou acreditar na inocência do filho, mas afirmou que ele deverá prestar depoimento e responder às investigações.
As investigações sobre descontos indevidos no INSS abrangem fatos registrados entre 2019 e 2024. Portanto, o período examinado começou no governo Jair Bolsonaro e prosseguiu no atual governo Lula. O volume de descontos cresceu e alcançou o maior patamar em 2024.
Lula desafia Flávio a abrir sigilos
No último bloco, Lula propôs que os dois candidatos e seus familiares abrissem os sigilos bancário e telefônico antes da eleição. “Eu abro da minha família inteira e você abre da sua família”, afirmou.
Flávio respondeu que não tem nada a esconder, mas não aderiu de forma direta ao desafio. Em seguida, disse que o dinheiro atribuído a Lula circularia fora das contas do presidente e mencionou o Instituto Lula e recursos relacionados a uma produção audiovisual sobre o petista. Lula voltou a cobrar o adversário sobre a compra de uma casa avaliada em cerca de R$ 10 milhões e sobre a relação com Vorcaro.
Saúde, SUS e pandemia
Flávio prometeu criar um prontuário nacional vinculado ao CPF, ampliar a telemedicina e usar inteligência artificial para reduzir filas. Também disse que pretende levar ao Sistema Único de Saúde um atendimento com “padrão Albert Einstein” e mencionou Claudio Lottenberg para o Ministério da Saúde em um eventual governo.

Lula questionou se a proposta significaria privatizar o SUS. O presidente afirmou que o adversário desconhece o funcionamento da rede pública e destacou a ampliação do Mais Médicos, que passou de cerca de 12,5 mil profissionais em 2022 para aproximadamente 27,5 mil no fim de 2025.
A pandemia de covid-19 provocou um dos momentos mais duros do debate. Lula criticou a defesa da cloroquina, o atraso das vacinas e as trocas no Ministério da Saúde durante o governo Jair Bolsonaro. O presidente citou 716 mil mortes registradas no país.
Flávio reconheceu que a saúde “não foi a área que teve melhor resultado” na gestão do pai e fez um “mea-culpa”. Ao mesmo tempo, defendeu medidas adotadas durante a crise sanitária e argumentou que a violência produziu centenas de milhares de mortes durante governos do PT.
Economia, dívidas e fim da escala 6×1
Na economia, Flávio prometeu manter o Bolsa Família, criar um Ministério da Prosperidade e lançar uma renegociação de dívidas. A proposta inclui a compra de débitos das famílias junto aos bancos, congelamento das cobranças por seis meses para pessoas físicas e carência de um ano para empresas.
Lula defendeu o aumento real do salário mínimo, a recuperação do poder de compra e políticas de estímulo aos microempreendedores. Disse que o crescimento depende da circulação de renda e citou a criação do MEI e programas de renegociação já lançados pelo governo.
O fim da escala 6×1 também entrou no confronto. Flávio afirmou que mudou de posição depois de ouvir trabalhadores e votou a favor da proposta. Lula rebateu que o senador conhece a rotina dos trabalhadores “por literatura” e disse que a redução da jornada precisa preservar salário e emprego.

Os candidatos divergiram ainda sobre inflação. Lula sustentou que a alta dos alimentos é menor em seu governo do que na gestão Bolsonaro. Checagens posteriores apontaram que a direção da comparação é correta, mas os percentuais citados pelo presidente foram imprecisos.
Estados Unidos, soberania e terras raras
Lula acusou a família Bolsonaro de se subordinar aos interesses dos Estados Unidos e questionou a posição de Flávio sobre minerais estratégicos, como as terras raras. O presidente também criticou o chamado Escudo das Américas, proposta defendida pelo adversário para cooperação internacional contra o narcotráfico.

Flávio negou que pretenda entregar recursos brasileiros. Disse que suas viagens aos Estados Unidos buscaram defender empresas e produtos nacionais diante de tarifas comerciais. Também acusou o governo brasileiro de rejeitar a classificação do PCC e do Comando Vermelho como organizações terroristas.
O senador afirmou que ampliará a cooperação com outros países para enfrentar o tráfico de drogas e armas. Lula respondeu que acordos internacionais não podem reduzir a soberania do Brasil nem transferir a países estrangeiros o controle de ativos estratégicos.
O que cada candidato prometeu
Flávio Bolsonaro
- criar o Ministério da Prosperidade;
- renegociar e suspender temporariamente dívidas de famílias e empresas;
- implantar prontuário nacional, telemedicina e inteligência artificial no SUS;
- usar mais de 1 milhão de câmeras inteligentes no Smart Brasil;
- reduzir a maioridade penal para 14 anos em crimes hediondos;
- aplicar castração química a condenados por estupro e pedofilia;
- ampliar a presença das Forças Armadas nas fronteiras, nos portos e nos aeroportos.
Luiz Inácio Lula da Silva
- criar o Ministério da Segurança Pública após a aprovação da PEC da Segurança;
- aprofundar a integração de informações entre União, estados e municípios;
- manter a política de aumento real do salário mínimo;
- ampliar o Mais Médicos e defender o SUS público;
- estimular microempreendedores e consumo interno;
- prosseguir com programas de renegociação de dívidas;
- investir em indústria, inovação e economia verde.
O que as checagens encontraram
As falas dos dois candidatos tiveram informações corretas, dados imprecisos e acusações sem comprovação apresentada durante o programa. Entre os principais pontos verificados após o debate estão:
- Viagens do governo: Flávio disse que Lula e Janja teriam gasto R$ 7 bilhões em viagens. O valor de aproximadamente R$ 8,46 bilhões citado em levantamentos oficiais inclui viagens de todos os órgãos federais desde 2023, e não somente do presidente e da primeira-dama.
- Crescimento do PIB: Lula afirmou que o país só voltou a crescer mais de 3% com ele em 2023. O PIB cresceu 4% em 2011, no governo Dilma Rousseff, e 5% em 2021, no governo Jair Bolsonaro.
- Preço dos alimentos: a alta acumulada foi maior no governo Bolsonaro do que no atual mandato de Lula, mas o percentual de 56,17% citado no debate difere do cálculo de 54,2% usado em checagens.
- Banco Master: houve pedido de R$ 134 milhões para o filme sobre Jair Bolsonaro. As investigações ainda apuram a operação e a destinação de recursos; não há conclusão judicial sobre responsabilidade de Flávio.
- INSS: o esquema investigado não se limita a um único governo. As apurações alcançam descontos feitos de 2019 a 2024.
- Mortes por covid-19: o total de aproximadamente 716 mil mortes está de acordo com registros do Ministério da Saúde. A afirmação de que metade delas poderia ter sido evitada deriva de estudo citado na CPI da Covid e depende dos critérios utilizados.
Confusão na plateia e falas finais
O clima se deteriorou perto do encerramento. A passagem de Flávio atrás de Lula coincidiu com uma discussão entre integrantes das comitivas. Os mediadores interromperam o relógio, pediram silêncio e devolveram tempo aos candidatos.
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Lula agradeceu aos eleitores e defendeu empresas públicas, recuperação da economia e continuidade de políticas sociais. Também acusou o adversário de apoiar privatizações de Petrobras e outras estatais.
Flávio reclamou das interrupções, pediu respeito ao tempo de fala e afirmou que não prometerá o que não pode cumprir. Reforçou as propostas de segurança pública e pediu um voto de confiança no segundo turno.
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O próximo debate entre Lula e Flávio está marcado para sexta-feira 23, às 21h20, na TV Globo, logo após o Jornal Nacional. O encontro será mediado por César Tralli e será o último confronto televisivo previsto antes da votação.
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O segundo turno das eleições será realizado no domingo 25 de outubro. Os eleitores voltarão às urnas para escolher o presidente da República e, nos estados em que a disputa não foi definida no primeiro turno, os governadores.