A Polícia Federal deflagrou nesta quarta-feira 19 a Operação Aisthesis para combater a entrada, distribuição e comercialização ilegal de produtos injetáveis anunciados para emagrecimento. Seis mandados de busca e apreensão foram cumpridos em Caicó, no Rio Grande do Norte, e em João Pessoa, na Paraíba.
As medidas foram expedidas pela Justiça Federal no Rio Grande do Norte e tiveram como alvos pessoas investigadas por introduzir e distribuir os produtos. Segundo a PF, a comercialização ocorria por meio de redes sociais e grupos em aplicativos de mensagens.

Durante as buscas, foram apreendidas ampolas e canetas injetáveis. Parte do material já estava aberta e, conforme a investigação, seria utilizada para vender doses individuais. Alguns produtos estavam armazenados em condições consideradas inadequadas.
O risco da dose fracionada
A chamada “aplicação fracionada” é um dos pontos centrais da investigação. Nessa modalidade, o conteúdo de uma mesma ampola ou caneta é dividido entre diferentes usuários. Além das dúvidas sobre procedência e dosagem, o compartilhamento de frascos e materiais pode favorecer contaminações, infecções e transmissão de doenças, alerta a corporação.
A PF também aponta que o armazenamento inadequado amplia o risco de contaminação, sobretudo quando se trata de substâncias de procedência e composição desconhecidas.
Os investigados poderão responder por crimes relacionados à comercialização e distribuição irregular de produtos destinados a finalidades terapêuticas ou medicinais. A corporação não informou quantas pessoas são investigadas nem se houve prisões, e afirmou que pretende intensificar no Rio Grande do Norte as ações de fiscalização sobre esse comércio.
Um mercado que cresceu na busca do Google
A operação ocorre em meio ao avanço de um mercado clandestino que se desenvolveu à sombra de medicamentos aprovados. O sucesso de produtos à base de semaglutida, como Ozempic, Rybelsus e Wegovy, e de tirzepatida, como Mounjaro, ampliou o interesse por tratamentos para perda de peso — e abriu espaço para versões sem autorização sanitária.
O crescimento foi medido pelo estudo “Saúde em risco na era digital: desinformação, automedicação e busca por canetas emagrecedoras não autorizadas no Brasil”, que analisou dados do Google Trends entre maio de 2025 e maio de 2026 para cinco produtos sem registro no país: T.G., Tirzec, Lipoless, Lipoland e Retatrutida.
Entre junho de 2025 e janeiro de 2026, as buscas cresceram em média 6,29% por semana. Depois, estabilizaram-se em patamar elevado. Os dados mostram interesse, mas não permitem determinar quantas pesquisas resultaram em compra.
No caso da Retatrutida, há um agravante: a substância permanece em fase de pesquisa clínica e, segundo alerta da Anvisa citado no estudo, ainda não havia sido aprovada para uso terapêutico em nenhum país.
As apreensões dispararam
O aumento das buscas acompanhou o crescimento das apreensões. A Receita Federal apreendeu cerca de 2,7 mil unidades em 2024. O número chegou a aproximadamente 32 mil em 2025 e, somente nos dois primeiros meses de 2026, alcançou 25 mil. Desde 2024, os produtos apreendidos representam cerca de R$ 51 milhões. Mato Grosso do Sul concentra aproximadamente 60% das apreensões do país.
A pesquisa também mapeou onde a procura é maior. Mato Grosso do Sul lidera, com 88,9 pesquisas por milhão de habitantes, seguido por Mato Grosso (48,8), Distrito Federal (39), Alagoas (33,2) e Acre (29,4). Os menores índices ficaram com Amapá (1,2), São Paulo (2,5), Rio de Janeiro (3,6) e Minas Gerais (4).
Um dos principais riscos é a falta de controle sobre a composição. Em julho de 2025, a farmacêutica Eli Lilly alertou para a circulação de versões falsificadas ou não aprovadas de produtos à base de tirzepatida, entre eles Lipoless, T.G. e Tirzec — que não são equivalentes ao Mounjaro e podem apresentar dosagens incorretas, impurezas ou até não conter o princípio ativo informado.
Durante a elaboração do trabalho, os pesquisadores fizeram uma busca exploratória no Instagram pelos termos investigados: em poucos segundos, a plataforma começou a apresentar anúncios relacionados aos produtos. A observação não integrou os resultados formais do estudo, que é assinado, entre outros, por Claudia Pereira Galhardi, do Núcleo de Estudos em Comunicação, História e Saúde da Fiocruz.
A orientação da PF é que medicamentos sejam utilizados somente com acompanhamento médico e adquiridos em estabelecimentos regulares, com procedência conhecida e documentação fiscal. A operação foi noticiada originalmente por O Correio de Hoje, em reportagem sobre a apreensão das canetas.