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Conflito

Resistência do Irã e pressão sobre petróleo levam EUA a reavaliar estratégia no conflito

Especialistas dizem que Washington enfrenta impasse militar e diplomático após retaliações iranianas e impacto no mercado global de energia
Por O Correio de Hoje
12/03/2026 | 14:06

A capacidade de resistência da República Islâmica do Irã e os efeitos da escalada militar sobre o comércio global de petróleo têm pressionado a Casa Branca a buscar uma saída para o conflito sem alcançar o objetivo inicial de promover uma mudança de regime em Teerã. A avaliação é de especialistas ouvidos pela Agência Brasil.

Segundo o cientista político e especialista em geopolítica Ali Ramos, o Irã conseguiu afetar sistemas de defesa utilizados pelos Estados Unidos no Oriente Médio e impor custos relevantes à cadeia global de energia.

mojtaba khamenei
Khamenei - Foto: Reprodução

“Os EUA não têm como derrubar o governo iraniano sem invasão terrestre, o que traria baixas gigantescas. A topografia do Irã inviabiliza qualquer ação rápida. Os EUA simplesmente entraram num atoleiro e Trump não sabe como sair”, afirmou o especialista.

De acordo com análises baseadas em imagens de satélite e vídeos citados pelo jornal The New York Times, ataques iranianos teriam atingido sistemas de radar norte-americanos instalados em países aliados do Golfo.

Entre os locais afetados estariam bases no Kuwait, Catar, Arábia Saudita, Bahrein e Emirados Árabes Unidos. Esses equipamentos eram responsáveis por detectar e interceptar mísseis iranianos lançados contra alvos na região.

Segundo Ramos, a degradação desses sistemas reduz o tempo de alerta e dificulta a interceptação de ataques. “Com essa cobertura de radar e satélite degradada, as baixas aumentam e o tempo de reação diminui”, afirmou.

O avanço do conflito levou aliados de Washington no Golfo a pedir uma solução diplomática. O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores do Catar, Majed al-Ansari, defendeu a retomada imediata das negociações.

“Chegar rapidamente à mesa de negociações e suspender os ataques serviria aos interesses dos povos da região, bem como à paz e segurança internacionais, além de fortalecer a estabilidade econômica global”, afirmou o diplomata, segundo a emissora Al Jazeera.

Para o professor de relações internacionais do Ibmec em São Paulo, Alexandre Pires, Washington esperava que o assassinato do líder supremo iraniano, o aiatolá Ali Khamenei, acelerasse uma mudança política interna no país.

Segundo ele, o resultado foi o oposto do esperado. “O Irã tem apresentado uma resiliência muito mais forte do que se esperava, inclusive escolhendo uma nova liderança suprema sem nenhum tipo de negociação, o que sinaliza continuidade do regime”, afirmou.

Pires acrescenta que o impacto do conflito no mercado de energia tem ampliado a pressão sobre o governo do presidente Donald Trump. O aumento dos preços do petróleo levou Washington a flexibilizar sanções contra a Rússia, numa tentativa de aliviar a pressão sobre o mercado global.

A continuidade da ofensiva também expõe possíveis diferenças entre Washington e Israel. Para Pires, o governo israelense tende a resistir a um encerramento rápido das operações militares, buscando enfraquecer ao máximo o Irã.

“Há um certo sinal de divisão entre os aliados, com declarações que apontam posições diferentes”, disse.

O ministro das Relações Exteriores israelense, Gideon Saar, afirmou que o país não pretende prolongar o conflito indefinidamente, mas indicou que qualquer decisão será coordenada com os EUA.

“Consultaremos nossos amigos americanos quando acharmos que é o momento certo para isso. Não estamos buscando uma guerra sem fim”, disse Saar a jornalistas em Jerusalém, segundo o jornal The Times of Israel.

Analistas avaliam que o confronto pode alterar o equilíbrio de poder no Oriente Médio. Para Ramos, o fato de o Irã ter conseguido atacar múltiplas bases militares americanas e manter sua estrutura política intacta pode reduzir a confiança de aliados regionais na capacidade de proteção dos EUA.

Segundo ele, alguns países já passaram a buscar novas parcerias de defesa, como acordos entre os Emirados Árabes Unidos e a Índia, além da cooperação militar entre a Arábia Saudita e o Paquistão.

Na avaliação do especialista, a guerra pode redefinir a arquitetura de segurança da região e ampliar as pressões internacionais por uma solução diplomática para o conflito.