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Opinião

Editorial: 420 anos ensinam

Redação
27/12/2019 | 06:00

O espelho é sempre uma boa medida do envelhecimento e da sabedoria. Toda vez que a imagem não condiz com a realidade pretendida por quem olha, o problema jamais será do espelho, mesmo que ele não seja um cristal de primeira. O problema é nosso, da nossa incapacidade de nos enxergar.

Dizem que as cirurgias plásticas existem para corrigir o que nos parecem imperfeições físicas. Mas, quando elas são usadas para melhorar apenas banalidades, por conta da nossa imensa e ancestral vaidade, acabam produzindo caricaturas de nós mesmos.

Editorial: 420 anos ensinam - Agora RN

Infelizmente, não enxergamos, mas outros enxergam.

Natal comemorou esta semana 420 anos, o que coloca a capital potiguar entre as mais antigas do País. No entanto, os fatos mais lembrados colocam a Segunda Guerra como o maior entre os nossos momentos, a despeito de nos submeter a uma influência pesada dos norte-americanos e de sua ausência no pós-guerra.

A ditadura militar que perduraria a partir de 1964 já conta outra história: revelou, apesar dos descalabros, figuras ímpares da política potiguar, cujos sobrenomes adornaram por muitos anos o poder local, transformando nossas feições à imagem semelhança desse tempo às vezes um tanto caricato.

Heróis nasceram e morreram. Só não mudou uma coisa: a desigualdade social, que, de resto, acompanhou o Brasil (e, em especial, o Nordeste) nos últimos 70 anos.

É claro que nos orgulha lembrar os 420 anos de existência de Natal. Mas é preciso, diante de tanta história acumulada, interpretar corretamente o que somos e, principalmente, onde queremos chegar e como estamos nos saindo nessa missão.

Olhar o espelho requer mais crítica e menos vaidade.

Sabemos das nossas qualidades, mas sabemos também dos problemas que atrasam nossos projetos e nos distanciam de soluções factíveis há décadas.

Olhar no espelho é sempre bom e gratificante quando a disposição é falar a verdade e ter ouvidos abertos para entender e mudar a realidade.