BUSCAR
BUSCAR
Inovação
Pebolim humano vira solução para jogar futebol durante a pandemia
Na versão humana recentemente desenvolvida do jogo, os jogadores têm de se manter dentro de quadrantes marcados do campo e só podem chutar a bola ou passá-la aos colegas. Todos os cinco jogadores de cada time precisam se manter em seus quadrados
Folha/ The Wall Street Journal
26/08/2020 | 10:40

Quando a Argentina entrou em quarentena, em março, Ramiro Fabris foi forçado a fechar os muitos campos de futebol que supervisiona, na cidade de Rosário e em cidades vizinhas.

Era preciso ficar em casa.

O nome deriva do jogo de futebol de mesa conhecido como pebolim em algumas regiões do Brasil e totó em outras, no qual figuras montadas em hastes metálicas conseguem chutar uma bola na direção do gol adversário, mas fora isso não têm como se movimentar.

Na versão humana recentemente desenvolvida do jogo, os jogadores têm de se manter dentro de quadrantes marcados do campo e só podem chutar a bola ou passá-la aos colegas. Todos os cinco jogadores de cada time precisam se manter em seus quadrados, ou a bola passa para o adversário.

O jogo está conquistando Rosário, a terra natal do astro Lionel Messi, e fascinou os argentinos, cansados da quarentena. Outras cidades do país também estão formando times.

“Não conseguimos parar de jogar futebol”, disse Fabris. “É uma parte importante demais de nossa vida”.

O novo esporte foi um achado para Andrea Ortenzi, 26.

Contadora que se descreve como fanática por futebol, Ortenzi treinava toda semana para jogos no sábado com seu time amador. Mas na quarentena, ela e as colegas de time estavam limitadas a correr paradas e a fazer ginástica, acompanhando via Zoom os exercícios umas das outras.

Embora o pebolim humano “não seja exatamente o que queríamos”, diz Ortenzi, “é bom porque podemos colocar a bola em jogo e treinar passes”. Outro benefício, disse ela, é que o risco de lesão é menor, e os jogadores escapam das canelas doloridas e tornozelos machucados que os choques constantes do futebol comum causam.

A empresa de Fabris, Tifosi Football 5, opera 29 campinhos de futebol onde times de cinco jogadores jogam uns contra os outros em ligas amadoras ou em partidas amistosas de bairro. É um esporte rápido, em tempos normais.

Fabris disse que a ideia surgiu depois que ele e seu pessoal assistiram a um vídeo de um time de futebol brasileiro treinando em um campo dividido em quadrantes, desenhados com giz. Os jogadores praticavam jogadas diferentes a depender da área em que estivessem.

Fabris e seus sócios, seu irmão Ivan Fabris e Gustavo Ciuffo, imaginaram por que não inventar uma versão do esporte que evitasse os choques, carrinhos e disputas pelo controle de bola, e a batalha por posição diante do gol? O posicionamento permitiria que os jogadores respeitassem as regras de distanciamento social e ainda assim pudessem jogar.

Rosário aprovou o plano. Logo, diversas cidades em outras províncias argentinas seguiram seu exemplo.

Fabris e sua equipe na Tifosi usaram tinta acrílica branca para delinear 12 quadrantes em alguns dos campos, cada um com cerca de 45 metros quadrados. É neles que os jogadores se posicionam.

“Perguntei às pessoas se seria possível jogar daquele jeito”, disse Fabris, que supervisiona os campos há 13 anos. Os jogadores provaram que sim, era possível.

Marcos Galetto, 33, sócio de uma clínica de oftalmologia em Rosario, costumava assistir a jogos de futebol amadores principalmente por causa dos filés e das cervejas Quilmes que ele e os amigos consumiam depois das partidas –no que os argentinos chamam de terceiro tempo. “Sou aquele cara que vai aos jogos para fazer companhia aos outros”, brincou Galetto.

Agora, os jogadores que vão ao Tifosi Football 5 estão proibidos de comer e beber juntos.

A repressão aos festejos forçou Galetto a participar do novo jogo, e ele descobriu que não é tão ruim. É mais fácil ficar parado em uma posição e controlar a bola nos passes, sem pressão de um defensor.

“Tive de me reinventar”, ele disse. “Não é o futebol tradicional, mas aqui você usa uma estratégia diferente”.

O jogo pode ser um desafio para jogadores acostumados a depender de jogadas criativas e da velocidade para passar pelos oponentes e marcar gols.

E porque os jogadores do pebolim humano não podem carregar a bola direto até a linha do gol, acontecem chutes longos e estranhos. Ortenzi estava no meio de um jogo quando uma de suas colegas de time tentou lançar a bola em um passe longo, e acertou o juiz na cabeça.

“Todo mundo riu, e o juiz também”, disse Ortenzi. “No futebol comum ela não teria tentado aquele passe”.

Jogadores de futebol medíocres de repente se tornaram campeões. Lucas Monza, 25, assistiu de sua posição em campo uma partida recente de pebolim humano na qual um goleiro que normalmente não pega coisa alguma começou a defender tudo.

“Ele fazia pontes, mergulhava, caía fazendo pose, e foi o herói da partida”, disse Monza, que é jornalista esportivo.

O motivo? Os jogadores que chutam em gol estão mais longe da meta, no pebolim humano. E nenhum deles está correndo para cima de um goleiro assustado.

“É preciso ser mais dinâmico”, disse Monza. “E mais preciso. Todo mundo está em posição fixa, e assim você está limitado em termos de onde pode ir, e precisa tomar cuidado com seus passes”.

Sob as regras estabelecidas por Fabris, os times melhores jogam futebol de um toque só. Um jogador pode chutar ou cabecear a bola uma vez só quando ela entra em sua área. Times menos experientes podem tocar a bola múltiplas vezes em cada quadrante, o que permite que um jogador prepare um chute, por exemplo.

Os jogadores às vezes brigam por causa das regras, por exemplo quando uma bola toca a linha e parece entrar em outro quadrante. “Há sempre muita discussão”, disse Fabris.

O time em que joga Lorena Quintana, 21, que trabalha com relações públicas, tipicamente permite até quatro toques na bola em cada posição, porque “para ser honesta, não sou das melhores jogadoras”, ela disse.

“Você tenta descobrir um jeito de tocar a bola para a posição em que seu colega de time está”, ela disse. “Um bom passe é crucial”.

Milton Jaimes, 27, treinava até cinco dias por semana, se preparando para as partidas de final de semana. Agora ele está feliz por poder chutar uma bola com os amigos.

“Para aqueles de nós acostumados ao futebol, as coisas não são as mesmas”, ele disse. “Mas é o que temos agora. E é melhor do que não jogar”.

Sede: Av. Hermes da Fonseca, 384 – Petropolis – Natal – RN – Cep. 59020-000
Telefone: (84) 3027-1690 / 3027-4415
Redação: (84) 98117-5384 - [email protected]
Comercial: (84) 98117-1718 - [email protected]
Copyright Grupo Agora RN. Todos os direitos reservados. É proibida a reprodução do conteúdo desta página em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização prévia.