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Opinião
‘O Brasil vive uma guerra não declarada’, diz João Barone, do Paralamas
Banda de rock se apresenta em Pernambuco com turnê do Sinais do Sim, disco que encerrou jejum de oito anos sem álbuns de inéditas
Da Redação
04/03/2018 | 21:30

Após dar uma pausa de oito anos na produção de trabalhos autorais para percorrer o país com as turnês Brasil a fora e 30 anos de estrada, os Paralamas do Sucesso se reuniram em estúdio no começo de 2017 para gravar um novo disco de inéditas. Naquele período, as denúncias que expuseram a corrupção de nomes da política nacional deram um ar de esperança para os músicos. Como forma de traçar um rastro de otimismo diante de uma época pessimista, eles batizaram o álbum de Sinais do sim. “A gente está precisando virar o jogo e a ideia é que vamos conseguir depurar isso”, conta o baterista João Barone. A faixa homônima que abre o álbum é uma canção de amor que fala justamente sobre acreditar em algo melhor. “Não tem outro país para a gente sair correndo, não pode ser assim. Temos que deixar um melhor para os nossos”, diz o artista.

Lançado em agosto do ano passado, o trabalho acabou fazendo uma espécie de apanhado do legado do grupo: conta com uma pegada mais roqueira, discursos românticos, engajados, passeando por influências latinas e experimentalismos. A turnê do álbum vem ao Recife neste domingo, com um show no Teatro Guararapes (Avenida Professor Andrade Bezerra, Salgadinho, Olinda), às 19h. Herbert Vianna (voz e guitarra), Bi Ribeiro (baixo), João Barone (bateria e vocais), João Fera (teclados), Bidu Cordeiro (trombone) e Monteiro Jr. (sax) apresentarão um repertório que equilibra as músicas novas com as antigas, a exemplo de Óculos, Aonde quer que eu vá, Lanterna dos afogados, entre outros clássicos de uma banda que já possui mais de três décadas de estrada.

A longeva trajetória, sem dúvidas, cria certa expectativa do público e da crítica com os lançamentos inéditos. Apesar disso, os Paralamas não possuem a intenção de competir com a própria obra. “O que a gente conseguiu anteriormente não se iguala a qualquer coisa que a gente venha a fazer. É uma outra época, um outro momento histórico”, admite Barone, que compõe o grupo desde sua gênese. “Temos uma espécie de legado sonoro e uma carta branca para explorar as nossas várias matrizes estilísticas. É o que se reconhece do som dos Paralamas, fazemos isso com o mínimo de ambição artística, nunca tivemos a premissa de fazer música de ‘qualquer jeito'”.

MEDO DO MEDO

Em Sinais do sim, a faixa que mais explora o potencial “engajado” do disco é Medo do medo, originalmente lançada pela rapper portuguesa Capicua. Os Paralamas fizeram uma nova interpretação da música, adaptando para o português brasileiro com um tom de pós-punk – segmento que foi moda nos anos 1980. Para Herbert, ficou o desafio de cantar a letra quilométrica nos shows. “Ouve o que eu te digo, vou te contar um segredo / É muito lucrativo que o mundo tenha medo”, diz um dos trechos da composição, que aborda a forma como o medo é explorado na política, no comércio e em outros alicerces do mundo contemporâneo.

“Gravamos a música por que estamos vivendo, de fato, uma época de medo. É um cenário muito desconfortável, da eleição do Trump, da xenofobia, com grandes potências que continuam fazendo guerra. No Brasil, com toda essa violência, chegamos a ver pessoas usando o medo para surgir com o discurso de ‘salvador da pátria’. É um retrato bem atual”, explica Barone. O músico ainda afirma acreditar que o país vive uma “guerra não declarada”. “Morrem 60 mil pessoas por ano e tá todo mundo fingindo que não tem nada acontecendo. Tem momentos que fingem resolver, como estão fazendo agora. É um negócio tipo assim: ‘Temos um problema, então vamos criar um ministério!’. É muita falta de vontade política”, diz ele, em referência à criação do Ministério Extraordinário da Segurança Pública por Michel Temer.

O ROCK NÃO MORREU

Ao usar o rock para denunciar uma crise global, os Paralamas resgataram uma característica que sempre acompanhou o gênero. Nos anos 1960 e 1970, quando era o “ritmo da moda” entre os jovens, o rock tentava ser uma espécie de válvula de escape para a tensão social. Os rockeiros norte-americanos, por exemplo, criticavam a Guerra Fria, enquanto os brasileiros tentavam burlar a ditadura militar. Atualmente, mesmo com diversas crises ao redor do mundo, é possível afirmar que o gênero musical perdeu expressão nas paradas musicais, com uma menor adesão das novas gerações – segundo um relatório da Nielsen Music, o gênero mais ouvido nos EUA atualmente é o hip hop.

Para João, essa perda de popularidade se deu devido a um momento representativo da nossa sociedade, que se encontra com um sistema musical mais democrático. “Antes, havia um predomínio do que a classe média queria dentro dos canais midiáticos. Naquele tempo, o jornal que o povo lia era o mesmo que esmagava e saia sangue [risos]. Hoje a música sofreu uma democratização por causa da internet, o modelo das gravadoras sucumbiu. É muito fácil gravar em casa. Assim, os ritmos das classes C e D se tornaram consumidos por uma parcela muito mais significativa da sociedade”, analisa.

Apesar disso, ele ressalta que o rock continua, mas “no formigueiro dele”: “Continuamos fazendo nossos shows, vemos que funciona. A sobrevivência se dá no bom sentido. Skank, Nando Reis, Titãs, Nação Zumbi e outras muitas bandas que vieram depois da gente continuam ganhando seu peixe da forma mais edificante possível”.

 

 

Fonte: Diário de Pernambuco

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