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Samanda Alves

Walter Alves e o passado que prefere esquecer

Confira o artigo de Samanda Alves desta sexta-feira 10
Samanda Alves
10/07/2026 | 06:09

Nos últimos dias, chamou minha atenção ouvir o vice-governador afirmar que não participou da gestão do Estado e, ao mesmo tempo, apresentar um diagnóstico tão categórico sobre ela. Confesso que eu teria vergonha de me apresentar como um vice que diz não ter participado das decisões do governo. Afinal, quem abre mão da responsabilidade de governar perde, a meu ver, parte da autoridade para posar de fiscal da gestão. Mais do que isso, a memória do vice-governador parece bastante seletiva.

Ao tentar desqualificar o governo da professora Fátima Bezerra, do qual ele ainda participa, Walter Alves escolhe comparar a realidade atual com a do governo do seu pai, na década de 1990. Do tempo em que Garibaldi governou para cá, muita coisa mudou. Mudaram as regras fiscais, as obrigações constitucionais, a estrutura do Estado, a folha de pessoal e o volume de políticas públicas que precisam ser financiadas. Comparar a realidade de hoje com um governo de quase 30 anos atrás é viver no passado.

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Walter Alves e o passado que prefere esquecer - Foto: José Aldenir

Garibaldi vendeu a Cosern no fim de 1997 por R$ 676,4 milhões. Corrigido, esse valor corresponde hoje a cerca de R$ 4 bilhões. A privatização garantiu ao Estado uma enorme disponibilidade de caixa. Curiosamente, é um montante muito próximo da dívida herdada por Fátima ao assumir o governo. São pontos de partida completamente distintos. Governar com um caixa reforçado por uma privatização é muito diferente de assumir um Estado endividado e com salários atrasados.

Quando Fátima assumiu o governo, havia quatro folhas salariais em atraso e as despesas com pessoal alcançavam 63,64% da Receita Corrente Líquida. Hoje, esse índice caiu para 56,12%, com salários em dia, direitos assegurados e concursos em áreas essenciais. Esse esforço de reorganização das contas públicas foi reconhecido nacionalmente: o Rio Grande do Norte saiu da última colocação para conquistar o 2º lugar no Ranking da Qualidade da Informação Contábil e Fiscal da Secretaria do Tesouro Nacional.

O vice-governador, no entanto, evita comparar o Rio Grande do Norte de 2019 com o de hoje por uma razão evidente: atualmente está aliado justamente ao grupo que entregou ao Estado uma das maiores crises de sua história recente. É difícil levar a sério um discurso de preocupação com o futuro do Estado quando ele é feito ao lado de quem afundou o Rio Grande do Norte. Ou se está preocupado com o futuro do Rio Grande do Norte, ou se escolhe se aliar com Robinson Faria. As duas coisas não combinam.

O Estado voltou a investir, recuperou centenas de quilômetros de rodovias, retomou obras estruturantes, atraiu novos investimentos e passou a ser reconhecido nacionalmente pelos avanços na segurança pública. Os desafios fiscais continuam, como em praticamente todos os estados brasileiros, mas o RN recuperou sua capacidade de planejamento e execução. Por mais raivosa que seja a oposição, é difícil negar que hoje temos um Estado melhor do que aquele que encontramos.

Apontar problemas é sempre a tarefa mais simples. Difícil é assumir responsabilidades, tomar decisões e governar. É um atestado de incompetência ter a oportunidade de governar o Estado e fugir da tarefa. É uma incoerência criticar um governo do qual faz parte há quase quatro anos e falar em choque de gestão de mãos dadas com Robinson Faria, o pior governador da história do RN. Na política, não se pode ocupar o gabinete do governo e, ao mesmo tempo, posar de líder da oposição.

Reconstruir o Estado exigiu coragem, trabalho e compromisso. A posição de comentarista é sempre mais confortável. O Rio Grande do Norte merece um debate político baseado em fatos, contexto e honestidade intelectual. A população sabe de onde o Estado saiu e conhece os desafios enfrentados para recolocá-lo no caminho do desenvolvimento. Essa é a história que precisa ser contada, e não apenas os capítulos que interessam a quem faz da memória um instrumento de conveniência política.

Samanda Alves é presidente do PT-RN e pré-candidata ao Senado