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Alex Viana

A sociedade dopada de luz

Confira o artigo de Alex Viana desta sexta-feira 24
Alex Viana
24/10/2025 | 05:39

Há um novo tipo de vício que já não se esconde — apenas mudou de forma. Ele brilha nos rostos em qualquer lugar: no trânsito, nas reuniões de trabalho, nas filas, nas mesas de jantar. É o gesto involuntário de olhar o celular, mesmo sem notificação, apenas pelo reflexo do hábito. A humanidade vive dopada por luz.

A dependência digital deixou de ser uma previsão pessimista para se tornar rotina social. A Organização Mundial da Saúde estima que mais de um bilhão de pessoas em todo o mundo já apresentam algum nível de uso problemático de dispositivos eletrônicos. Estudos mostram que o brasileiro passa, em média, 9 horas e 32 minutos por dia conectado à internet, tempo superior à média mundial. É uma carga de exposição equivalente a um segundo emprego — sem salário, mas com consequências.

A sociedade dopada de luz - Foto: Tânia Rego/Agência Brasil
A sociedade dopada de luz - Foto: Tânia Rego/Agência Brasil

Nas empresas, reuniões são interrompidas por telas acesas. Em casa, famílias dividem o mesmo sofá, mas não o mesmo olhar. Nas ruas, pedestres se movem como sonâmbulos luminosos. E poucos percebem que esse comportamento coletivo vem produzindo um colapso silencioso. A Sociedade Brasileira de Psiquiatria aponta que os casos de ansiedade aumentaram 25% desde 2020, impulsionados pelo uso excessivo de telas e pela hiperconectividade.

O fenômeno é amplo e difuso: esgota a atenção, distorce o tempo e enfraquece o vínculo humano. O cérebro, adaptado por milênios para alternar entre estímulo e repouso, vive agora em estado de alerta permanente. Cada notificação aciona uma descarga de dopamina, o mesmo neurotransmissor do prazer químico. A ausência desse estímulo gera irritação e desconforto — sintomas clássicos de abstinência. Trata-se de uma dependência socialmente aceita, praticada em público e incentivada por todos.

O mais inquietante é a ausência de autocrítica. As pessoas reconhecem o excesso, mas o tratam como inevitável. Riem do próprio vício enquanto o alimentam. A tela virou refúgio, anestesia e espelho. É onde muitos procuram alívio da solidão que a própria tecnologia agravou.

O impacto é visível: perda de sono, irritabilidade, déficit de atenção, fadiga cognitiva e isolamento emocional. A OMS já classifica a fadiga mental como uma das principais causas de incapacidade laboral do século XXI, e o vício digital é uma de suas origens.

O problema não é mais a tecnologia em si, mas a complacência com ela. Vivemos cercados de ferramentas que deveriam servir ao homem, mas que o estão conduzindo. O alerta é simples: quem não controla o tempo diante da tela, aos poucos perde o controle sobre o tempo dentro de si.