A nação brasileira — e o mundo, a reboque — assiste estarrecido a mais um ato de barbárie contra a humanidade. Cento e vinte um assassinatos, naquilo que já vem sendo chamado de a maior chacina cometida por forças de segurança do País. O desfecho de qualquer ação que resulte em mortes humanas não admite debate: trata-se de morticínio, crime contra a natureza. Tirar a vida de um ser humano é agredir a própria vida — é ferir Deus, e, portanto, ferir a nós mesmos.
O Brasil tornou-se um território onde a violência perdeu o espanto e a compaixão perdeu o hábito. Vivemos uma anestesia coletiva diante da morte — e o que antes chocava, agora apenas muda o canal. A banalização do mal é o retrato mais cruel de um país que já não se reconhece. Os que deveriam guiar a nação com luz e discernimento — políticos, governantes, gestores públicos — perderam o dom do serviço e a humildade do propósito. Resta o teatro das aparências, as frases ensaiadas, a manipulação dos fatos.

O resultado é um país adoecido. De um lado, políticas públicas capengas, populistas, incapazes de curar as feridas da desigualdade. De outro, a corrupção institucionalizada, travestida em contratos obscuros, licitações viciadas e emendas parlamentares a serviço de poucos — ou de campanhas futuras. Vivemos o ocaso moral de uma era, o esgotamento ético de um tempo em que o poder virou mercadoria e o interesse coletivo foi vendido ao menor preço.
No Rio Grande do Norte, a mentira de que a governadora Fátima Bezerra teria “pacto com o crime” ecoou justamente porque a população já não confia em ninguém. A ausência do Estado — nas escolas, nas ruas, nas comunidades — alimenta o desespero. A segurança pública, tratada como fim em si mesma, tornou-se apenas reação ao caos. Esquece-se que segurança é consequência, não causa.
Enquanto se multiplicam armas e discursos de ódio, desaparecem programas de formação de jovens, projetos de esporte, cultura e lazer. O Estado sumiu. A Igreja, em parte, também. Evita o confronto, refugia-se em debates teológicos estéreis e esquece-se do evangelho simples e transformador: o de cuidar, ensinar e servir.
É nesse vazio — de fé, de moral e de presença — que o mal se enraíza. Faltam homens e mulheres íntegros, de alma elevada e vocação pública verdadeira, dispostos a reconstruir a sociedade sobre valores de justiça e compaixão. Enquanto isso, o país oscila entre a indiferença e o medo, à espera de líderes que ainda saibam o que significa servir.