Debater o papel dos professores é, mais do que nunca, refletir sobre o impacto dessa profissão na construção de uma sociedade saudável. Diante de tantos desafios sociais e educacionais, não é exagero afirmar que o futuro do Brasil depende diretamente do cuidado que temos com nossos docentes. É real o risco de um “apagão de professores”.
Há 35 anos, quando entrei em uma escola rural multisseriada na condição de professora, sabia que se tratava de uma escolha que me colocaria frente a frente com realidades e desafios para os quais eu não tinha respostas de antemão. Sabia, também, que precisava dar o meu melhor – um dia sim e o outro também – pois eles só tinham a mim e eu a eles. O que eu não esperava, no entanto, é que esse cenário ficasse ainda mais complexo, a ponto de, entre os jovens, encontrarmos cada vez menos interessados em seguir a carreira docente.

Pesquisas recentes revelam a gravidade desse cenário. Um estudo realizado com 438 professores brasileiros mostrou que docentes da educação básica apresentaram índices de burnout significativamente mais elevados do que os do ensino superior, associados a piores condições do desenvolvimento da sua atividade. Há a constatação de que mais da metade dos professores relataram altos níveis de exaustão emocional, embora afirmem manter o entusiasmo e a dedicação ao trabalho. Esse paradoxo é perigoso: a paixão pela docência, quando não apoiada por condições dignas, pode acelerar o adoecimento.
E o problema não se restringe à Educação Básica. Um estudo realizado com professores universitários no Rio Grande do Norte, por exemplo, identificou prevalência de burnout em mais de 61% dos participantes.
Se não conseguimos educadores mental e fisicamente saudáveis, como o seu trabalho poderá contribuir com o desenvolvimento integral dos estudantes? Por sua vez, se não asseguramos um ensino de qualidade, como podemos almejar um país pujante, com uma economia sólida e uma sociedade preparada para lidar com os múltiplos desafios que o mundo apresenta? Um ingresso para podermos operar nesse mundo!
O que está em jogo é, mais do que a qualidade do ensino, a saúde da própria sociedade. Quando professores adoecem ou deixam a profissão, os estudantes perdem não apenas o acesso ao programa curricular previsto para a escolaridade, mas também acolhimento, referência emocional e inspiração crítica. Essa ausência repercute diretamente na formação de cidadãos mais equilibrados, empáticos e preparados para a vida em comunidade. A escola é um espaço privilegiado para o exercício da cidadania!
Mas há motivos para esperança. As mesmas pesquisas que denunciam o esgotamento revelam também a resiliência e o compromisso dos docentes, que seguem acreditando no valor transformador da educação. É uma categoria profissional encharcada de propósito. É nesse ponto que a sociedade deve agir: investir em políticas públicas de valorização, garantir condições dignas de trabalho, oferecer suporte psicológico e programas de formação continuada. Precisamos cuidar de quem cuida do futuro. É preciso estabelecer o compromisso coletivo de assegurar que nenhum professor precise escolher entre a própria saúde e a sala de aula.
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