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Coluna

Plano Real 30 anos: o que me lembro

Confira a coluna de Heverton de Freitas nesta quarta-feira 26
Heverton de Freitas
26/06/2024 | 07:53

A memória humana é traiçoeira. Tentando lembrar o dia em que foi anunciado o Plano Real há 30 anos, surge uma nuvem na minha cabeça. Lembro-me do Plano Cruzado com os fiscais do Sarney nas ruas, nós repórteres indo aos supermercados para verificar se havia remarcação de preços e a publicação da tabela de preço da Sunab nas páginas do Diário de Natal.

Lembro do Plano Collor. Como esquecer? Todo mundo – ao menos todo mundo que não era amigo do rei – acordou perplexo. Ninguém tinha mais dinheiro na sua conta, fosse uma simples poupança, fosse um grande especulador no over night. Só uns caraminguás que mal davam para as despesas do dia a dia.

Plano Real foi anunciado há 30 anos. Foto: José Aldenir/AGORA RN.
Plano Real foi anunciado há 30 anos. Foto: José Aldenir/AGORA RN.

No jornalismo, se multiplicavam as matérias com personagens que viviam as situações mais inusitadas. Os noivos que não tinham mais como pagar as contas da festa. O aposentado que não poderia mais viajar para ver os netos. Ou os mais desesperados que, literalmente da noite para o dia, se viam sem condições de pagar um tratamento médico ou as prestações do financiamento de um imóvel, levando a situações extremas na tentativa exasperada de chamar atenção para seu drama pessoal.

Dois exemplos de como uma participação ativa da Comunicação na definição e anúncio de uma política pública pode levar ao fracasso do que poderia ser positivo.

Quem não se lembra da única “bala de prata’ apresentada pela ministra Zélia Cardoso de Melo de forma atabalhoada e sem concatenação nos telejornais atônitos com o que acontecia. Ou o Ippon marqueteiro do até então mais midiático dos presidentes voluntaristas do Brasil.

Já sobre os primeiros dias do Plano Real tenho poucas lembranças. Lembro do presidente FHC dando entrevista ao Silvio Santos falando sobre o que era a URV (Unidade Real de Valor), a moeda de transição para o Real. Um intelectual buscando transmitir as mudanças em linguagem popular. O mais difícil do ponto de vista da comunicação era transmitir tranquilidade às pessoas, em meio a termos como âncora cambial ou sistema de metas de inflação.

Não foi um plano anunciado um dia para valer já no outro. Ao contrário, era um plano trabalhado de forma aberta com uma comunicação eficaz e cujo resultado se vive até hoje.

No jornalismo lembro de uma entrevista que fiz com o então candidato Lula da Silva, que esteve em Natal na sua segunda campanha presidencial na qual fez duras críticas ao Plano e criticou as “perdas salariais” que a conversão de valores representava segundo dados do Dieese. A má avaliação do PT levou à vitória do ex-ministro da Fazenda Fernando Henrique Cardoso ainda no primeiro turno das eleições.
Resumo da história: Não adianta chamar a comunicação apenas quando a fogueira está queimando.