Poucas tecnologias tiveram a capacidade de transformar tantos setores da economia em tão pouco tempo quanto a inteligência artificial. Isso acontece porque ela é uma tecnologia de propósito geral, categoria reservada a inovações como a eletricidade, a internet e a computação. Seu impacto não se limita a uma atividade específica: ela atravessa diferentes segmentos, modifica processos e cria novas formas de gerar valor.
A mesma tecnologia que ajuda uma empresa a melhorar o atendimento aos clientes pode apoiar outra na previsão de demanda, na gestão de estoques, na análise de documentos, na manutenção de equipamentos ou no desenvolvimento de novos produtos. Seu potencial está justamente na versatilidade.

Para o Rio Grande do Norte, essa característica é especialmente relevante. Nossa economia reúne turismo, comércio, serviços, indústria, agropecuária, energia, construção civil, economia criativa e milhares de pequenos negócios. Em todos esses setores existem oportunidades para aplicar inteligência artificial de forma prática e gerar melhores resultados.
No turismo, por exemplo, a IA pode ajudar a compreender o perfil dos visitantes e personalizar experiências. No comércio, apoiar decisões sobre estoques, preços e relacionamento com clientes. Na indústria, contribuir para a qualidade e a produtividade. No agro, melhorar o planejamento e a gestão da produção.
Mas existe uma diferença importante entre usar IA e gerar valor com IA.
Peter Drucker resumiu isso de maneira simples: eficiência é fazer certo; eficácia é fazer o que realmente importa. No contexto da inteligência artificial, isso significa que acelerar tarefas não é suficiente. O verdadeiro valor surge quando a tecnologia é direcionada para resolver problemas relevantes e produzir resultados concretos. Sem estratégia, corremos o risco de apenas chegar mais rápido ao lugar errado.
Por isso, o desafio não é apenas adotar ferramentas, mas desenvolver uma cultura de aplicação inteligente da IA. Isso envolve capacitar pessoas, estruturar dados, selecionar bons casos de uso, medir resultados e estabelecer mecanismos de governança.
A inteligência artificial, por si só, não determina o futuro de uma economia. Ela amplia as escolhas que fazemos. Se a utilizarmos apenas para executar mais rápido o que já fazemos hoje, obteremos ganhos de produtividade. Mas seu potencial é muito maior.
Quais novos negócios podem surgir no Rio Grande do Norte a partir dessas capacidades? Que problemas históricos dos nossos setores produtivos poderão ser enfrentados de maneira diferente? As respostas dependerão menos da tecnologia em si e mais da nossa capacidade de combinar conhecimento, talento local e visão estratégica.
Talvez o maior valor da inteligência artificial não esteja em substituir o que fazemos hoje, mas em ampliar aquilo que somos capazes de imaginar e realizar.
Carlos von Sohsten é gestor do IALab do Sebrae e articulador da Governança IA para o RN