A reflexão à qual proponho-me neste artigo tem a instigação de Dom Paulo Jackson, arcebispo de Olinda e Recife. Na formação para as lideranças que articulam as atividades da Campanha da Fraternidade no Regional Nordeste II da CNBB (que é composta pelas províncias eclesiásticas de Alagoas, Pernambuco, Paraíba e Rio Grande do Norte), ele me trouxe esta provocação, tendo em vista o significado da etimologia da palavra “paróquia”, a partir da Primeira Carta de São Pedro: “Amados, exorto-vos como estrangeiros e forasteiros”…
O apóstolo admoesta que, entre os gentios, a conduta dos cristãos deve ser irrepreensível para que aqueles possam glorificar a Deus por causa do seu testemunho. Os cristãos, segundo o autor, “devem respeitar todas as pessoas, amar os seus irmãos na fé, temer a Deus e respeitar as autoridades constituídas”. Ou seja, a sua vida fará com que as suas relações sejam pautadas pelo amor e tenham a marca da proximidade, e não pela estranheza causada pelas diferenças que expulsam os outros.

A paróquia tem por vocação e caminho identitário a promoção da comunhão entre os que estão inseridos em sua constituição, seja pela sua geografia, ou pelo vínculo afetivo. A integração de todos os que podem ser alcançados pela sua ação missionária precisa acontecer pelo anúncio da Alegria do Evangelho. O Papa Francisco afirmou: “Paróquia não é uma estrutura caduca; precisamente porque possui uma grande plasticidade, pode assumir formas muito diferentes que requerem a docilidade e a criatividade missionária do Pastor e da comunidade. Embora não seja certamente a única instituição evangelizadora, se for capaz de se reformar e adaptar constantemente, continuará a ser ‘a própria Igreja que vive no meio das casas dos seus filhos e das suas filhas’. Isto supõe que esteja realmente em contacto com as famílias e com a vida do povo, e não se torne uma estrutura complicada, separada das pessoas, nem um grupo de eleitos que olham para si mesmos”.
A partir do significado de “casa de estrangeiro”, somos chamados a redescobrir, em contexto de cultura urbana, se as nossas comunidades paroquiais, com suas subjetividades, estão sendo casas de proximidade e fraternidade; se há reconhecimento de todos que deveriam estar nelas e ainda não estão.
Será que nos questionamos acerca das pessoas que ainda não foram chamadas pelo nome e contempladas em seu rosto? Onde elas estão? Saímos para ir ao encontro delas? Quando saímos, que metodologia utilizamos? O nosso estilo é propositivo ou impositivo? O que Jesus Cristo nos ensina sobre o nosso estilo missionário? Num mundo em que tantos “estranhos batem à nossa porta”, como lembrava o sociólogo Zygmunt Bauman, as nossas paróquias são chamadas a repensar as suas ações evangelizadoras para que a maioria dos batizados, indiferentes e marginalizados possam estar nestas tendas de acolhimento e hospitalidade. Assim o seja!