Em 2025, o Brasil registrou 1.518 feminicídios, um recorde histórico. São quatro mulheres assassinadas por dia. Se considerarmos as tentativas, foram quase 7 mil casos no ano. Mulheres que enfrentaram a morte simplesmente por serem mulheres.
Em 2006, entrou em vigor a Lei Maria da Penha, que estabelece que todo o caso de violência doméstica é crime. Em 2015, foi sancionada a Lei do Feminicídio, que qualifica o crime contra mulheres em razão de seu gênero. Embora as leis sejam conhecidas, ainda temos uma lacuna quanto ao efeito social que deveriam provocar. De 2015 a hoje, o país registrou um aumento de mais de 300% nesses crimes.

Neste Mês Internacional da Mulher, proponho uma pausa para pensar no que podemos fazer. Quando olhamos o perfil das vítimas de feminicídio no Brasil, um padrão se repete: maioria jovem, de baixa renda, com baixa escolaridade; 61% são mulheres negras.
Não é coincidência. A falta de escolaridade alimenta o ciclo da violência. Sem educação, há menos acesso à informação sobre direitos e menos independência econômica para sair de uma relação abusiva.
Os dados do Censo Escolar 2025 mostram que o país perdeu 1 milhão de matrículas na educação básica em um único ano. Cada menina que a escola perde hoje pode ser amanhã uma mulher com menos recursos para se defender. Por outro lado, cada diploma conquistado amplia escolhas.
O esporte é outro instrumento poderoso. Meninas que praticam esporte permanecem mais tempo na escola e ampliam oportunidades de trabalho. Desenvolvem disciplina, autoconfiança e consciência corporal. No entanto, 49% das meninas brasileiras abandonam a prática esportiva na adolescência.
Precisamos tratar o esporte feminino como política pública de proteção e permanência. Como presidente do Pacto pelo Esporte, sei que o esporte é muito mais que desempenho e competição. É uma comunidade que acolhe.
Também é necessário olhar para o ambiente corporativo. O trabalho ainda expõe mulheres a assédios e violências morais. Em todos os níveis, convivemos com números alarmantes de vítimas. Para muitas mulheres, o trabalho representa superação e independência, mas ainda há barreiras que comprometem esse espaço.
Chegamos, por fim, no tema das redes de suporte social. Em 2025, o Ligue 180 recebeu 877 mil ligações. Em dois terços dos casos, foi a própria vítima quem pediu ajuda.
A educação que liberta precisa chegar antes que o ciclo se feche. O esporte que fortalece precisa manter as meninas na adolescência. As redes que protegem precisam funcionar antes que o desfecho seja irreversível.
Tenho 20 anos de trabalho em educação, esporte e construção de redes. E tenho uma certeza: os instrumentos existem. Precisamos de urgência. Porque enquanto uma mulher ainda morrer por ser mulher, nenhuma de nós está verdadeiramente livre, forte ou segura.
Cláudia Romano é vice-presidente do Grupo Yduqs, presidente do Instituto Yduqs, presidente do Semerj e presidente do Pacto pelo Esporte. Atua há mais de 20 anos pela educação como instrumento de transformação social.