Com frequência, se imagina que o principal trunfo do governante a tentar a reeleição no Executivo é o “uso da máquina”. De alguma maneira, poucas vezes explicitada, o comando sobre órgãos públicos resulta em votação ampliada para o buscador da reeleição. Claro que podemos citar processos concretos: uso de funcionários comissionados na campanha, gasto público maior, inaugurações, estruturas de campanha ligadas ao governo.
O que falta nesse tipo de raciocínio é levar em consideração como o eleitor traduz a tal máquina em sua decisão de voto. Se o gestor está mal avaliado, é plausível supor que a máquina bem empregada apenas impedirá a destruição completa do ativo eleitoral do governante. Foi o caso do governador Robinson Faria no pleito de 2018. Sua votação (quase 12%) coincidiu com o reduzido percentual de eleitores que ainda julgavam seu governo ótimo ou bom, provavelmente com base em entregas da estrutura governamental. O uso da máquina nesse caso não ajuda a predizer quem vencerá a eleição.

O emprego dessas estruturas também tem valor matizado em governos que já são bem avaliados antes da campanha começar. De certa forma, o governante bem avaliado já está “usando a máquina” desde o princípio da gestão de um modo que agrada ao eleitor. Podemos citar os casos dos atuais governadores do Mato Grosso do Sul, Eduardo Riedel (PP), e do Piauí, Rafael Fonteles (PT), que devem ser reeleitos com tranquilidade. A atuação de uma maquinaria política na campanha reforça o que já havia antes nesses casos.
Em governantes vitoriosos com avaliação média, como Fátima Bezerra (PT) em 2022 (somente 29% de avaliação positiva na pesquisa Ipespe de março daquele ano), teria sido a máquina decisiva? Mas que máquina ela efetivamente usou, estando às voltas com a atualização de folhas salariais e a quitação de dívidas estaduais? Mais plausível é supor que ela foi beneficiada por sua própria estratégia política, que gerou candidatos de baixa credibilidade na oposição, e pelo fato de já estar na cadeira de governadora produzindo algum resultado visível.
O exame rigoroso do assunto nos leva à conclusão de que o emprego da famosa máquina deve ser avaliado junto com outros fatores em relação à força de titulares no cargo tentando a reeleição. Termino com um desses fatores: a mera saliência do gestor na paisagem política. Um presidente, por exemplo, é necessariamente o ponto focal da atenção do eleitor. O presidente já está ali, fornecendo uma face ao Executivo, enquanto a oposição no mais das vezes é uma virtualidade política. Esse fator será decisivo, inclusive, na definição das chances do atual presidente do Brasil na eleição deste ano.
Alan Lacerda é professor titular do
Instituto de Políticas Públicas da UFRN