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Fátima Bezerra

A chegada da água é a chegada da justiça social

Confira o artigo de Fátima Bezerra deste sábado 11
Fátima Bezerra
11/07/2026 | 05:43

Ainda hoje, quando vejo a água correr pelos canais da transposição do Rio São Francisco, a primeira imagem que me vem à memória não é a de uma grande obra de engenharia. É a da menina que fui, em Nova Palmeira, no Seridó paraibano, aprendendo cedo que a seca não era apenas um fenômeno da natureza. A seca tinha fome, tinha sede e marcava profundamente a vida das famílias do semiárido.

Sou uma sobrevivente da seca. Talvez por isso este momento tenha um significado tão profundo para mim. Nunca imaginei que aquela menina criada no sertão teria a honra de governar o Rio Grande do Norte justamente quando as águas do Velho Chico chegassem ao nosso estado. Ver as águas atravessarem o Túnel Major Sales e entrarem no RN pelo Ramal do Apodi representa a realização de um sonho coletivo e a reparação de uma injustiça histórica.

A chegada da água é a chegada da justiça social - Foto: Joana Lima/GoveRio Grande do Norteo do RN
A chegada da água é a chegada da justiça social - Foto: Joana Lima/Governo do RN

Durante muito tempo disseram que o Nordeste precisava aprender a conviver com a seca. E aprendemos. Aprendemos a resistir. Mas nunca aceitei que a fome, a sede e a pobreza fossem destino. A seca é um fenômeno da natureza; a desigualdade nunca foi. Durante décadas, a escassez foi administrada como instrumento de poder, quando deveria ter sido enfrentada com investimento público e presença do Estado.

Foi essa compreensão que levou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva a tirar do papel o Projeto de Integração do Rio São Francisco. Lula entendeu que levar água ao semiárido significava garantir dignidade e assegurar o direito de milhões de brasileiros permanecerem na terra onde escolheram viver.

Abracei essa luta desde o início. Como deputada federal, acompanhei o início das obras. Como senadora, percorri o Nordeste com a Caravana das Águas defendendo que água é direito, não privilégio. Como governadora, com a retomada do governo Lula e o Novo PAC, fiz da conclusão da infraestrutura hídrica uma prioridade para o Rio Grande do Norte.

Hoje, as águas fortalecem as bacias do Piranhas-Açu e do Apodi-Mossoró, beneficiando todas as regiões do estado. E é importante registrar: Lula iniciou e concluiu a transposição do São Francisco.

Isso significa muito mais do que abastecimento. Significa água para beber, produzir alimentos, fortalecer a agricultura familiar, gerar emprego, renda e oportunidades. Água é desenvolvimento. Água é saúde. Água é cidadania. Acima de tudo, água é justiça social.

Eu vivi a realidade de dividir o pouco que havia. Ouvi de minha mãe, dona Luzia, que eu não podia repetir o prato porque meus irmãos também precisavam comer. Essa lembrança nunca me deixou. É por isso que me emociono ao ver a água chegar, não apenas como governadora, mas como mulher nordestina que jamais esqueceu suas origens.

Há quem olhe para esses canais e veja concreto. Eu vejo gente. Vejo agricultores, mulheres, crianças e famílias inteiras que agora podem construir um futuro com mais dignidade.

Quando as águas do Velho Chico chegam ao Rio Grande do Norte, não chega apenas um rio. Chega um novo tempo. Chegam esperança, desenvolvimento e a justiça social que o povo nordestino esperou por tantas gerações.

Fátima Bezerra é professora e governadora do Rio Grande do Norte.