Criminosos estão usando o Telegram para vender vídeos de abuso sexual infantil por valores a partir de R$ 10. Uma investigação publicada pelo g1 identificou ao menos 35 links divulgados no TikTok que direcionavam usuários para grupos, conversas privadas e sistemas automatizados de venda no aplicativo de mensagens.
Os pacotes anunciados custavam entre R$ 10 e R$ 150. Parte dos vendedores aceitava criptomoedas, mas também foram encontradas cobranças por Pix. Segundo investigadores da Polícia Federal ouvidos pela reportagem, as transferências bancárias deixam registros que podem ajudar a identificar tanto os responsáveis pela venda quanto os compradores do material.

Os criminosos usavam publicações aparentemente sem relação direta com os crimes para atrair interessados. Códigos e links colocados nos comentários conduziam a ambientes no Telegram, onde as negociações eram realizadas. Algumas contas bancárias usadas para receber o dinheiro pertenciam a terceiros, incluindo possíveis laranjas e pessoas próximas aos envolvidos.
A produção, a venda, a compra, o armazenamento e o compartilhamento de conteúdo de violência sexual contra crianças e adolescentes são crimes no Brasil. A expressão substitui o termo “pornografia infantil”, considerado inadequado por especialistas por não representar a violência e a ausência de consentimento das vítimas.
Pagamentos no Telegram podem levar aos envolvidos
Embora os vendedores afirmassem que as operações não poderiam ser rastreadas, a Polícia Federal esclareceu que essa informação é falsa. As instituições financeiras mantêm registros das transferências e podem identificar movimentações atípicas, contas que recebem valores de diferentes regiões e os dados de quem envia ou recebe o dinheiro.
A investigação mostrou ainda que os próprios compradores eram incentivados a divulgar links em outras redes sociais em troca de acesso a novos arquivos. A estratégia ampliava o alcance dos anúncios e transformava os interessados em distribuidores do conteúdo criminoso.
Desde agosto, a legislação brasileira prevê penas mais duras para crimes dessa natureza. Quem produz ou vende material de violência sexual contra crianças e adolescentes pode ser condenado a quatro a dez anos de prisão, além de multa. Para quem adquire, possui ou armazena o conteúdo, a pena varia de três a seis anos de prisão e multa.
As regras também abrangem representações de crianças e adolescentes criadas por inteligência artificial. Toda a cadeia pode ser responsabilizada, desde a produção e divulgação até a compra e manutenção dos arquivos.
O Telegram afirmou que proíbe esse tipo de conteúdo e informou ter removido mais de 339 mil grupos e canais relacionados ao crime em 2026. A plataforma declarou que utiliza moderação humana e ferramentas automáticas para comparar arquivos publicados com bancos de dados de conteúdos já identificados.
O TikTok disse que remove as publicações e bane permanentemente as contas envolvidas. Segundo a empresa, 99,8% dos conteúdos que violaram suas regras sobre abuso sexual e físico de jovens foram retirados de forma preventiva no primeiro trimestre de 2026.
Como denunciar
Casos envolvendo crianças ou adolescentes em risco imediato devem ser comunicados à Polícia Militar pelo telefone 190. Denúncias também podem ser feitas de forma anônima pelo Disque 100, em delegacias, no Ministério Público e nos conselhos tutelares.
Quem receber esse tipo de arquivo não deve baixar, armazenar nem encaminhar o conteúdo. A orientação é preservar apenas as informações necessárias para a denúncia, como o endereço da página, o nome do perfil e o link da publicação, e entregá-las às autoridades.
No Rio Grande do Norte, a Polícia Federal realizou recentemente uma operação em Natal contra o armazenamento e o compartilhamento de material de abuso sexual infantil. Outra ação em Mossoró cumpriu mandado de busca durante investigação semelhante.