O filme Cinco Tipos de Medo, dirigido por Bruno Bini, chega aos cinemas após conquistar quatro Kikitos no Festival de Gramado de 2025. Rodado em Cuiabá, no Mato Grosso, o longa marca a primeira experiência de Xamã e Bella Campos no cinema e propõe uma reflexão sobre a violência presente nos indivíduos, apresentada como uma reação humana.
A narrativa é construída em formato de mosaico, com múltiplas histórias que se cruzam ao longo do enredo. No centro está Marlene, interpretada por Bella Campos, uma enfermeira que vive um relacionamento abusivo com o traficante Sapinho, papel de Xamã. A trajetória da personagem muda quando ela conhece e se apaixona por Murilo, um jovem músico interpretado por João Vitor Silva.

As histórias dos protagonistas se entrelaçam com as de outros personagens, como Luciana, uma policial vivida por Barbara Colen, movida por um desejo de vingança, e Ivan, advogado interpretado por Rui Ricardo Diaz, que atua com segundas intenções.
Segundo o diretor Bruno Bini, a escolha por uma estrutura não linear foi intencional. “A escolha da não linearidade foi deliberada, buscando, por ser uma história com tanta coisa acontecendo, aproveitar essa oportunidade para conseguir duas coisas: envolver um pouco mais o espectador e conversar com a característica de cada um dos personagens, que estão sempre escondendo algo”, afirma.
Ao longo do filme, os elementos são apresentados gradualmente, à medida que as conexões entre os cinco protagonistas se tornam mais evidentes. Para o diretor, a violência é um elemento comum a todos. “É um filme que reconhece que a violência está dentro de todo mundo. Todos os personagens têm o seu momento no qual se entregam, o que acaba sendo uma reação muito humana. Carregamos isso dentro de nós”, explica.
Bella Campos ganhou projeção nacional aos 24 anos ao interpretar Muda no remake de Pantanal e consolidou sua carreira na televisão com a personagem Maria de Fátima em Vale Tudo. No longa, ela dá vida a Marlene, uma mulher que vive em uma comunidade onde a estabilidade está ligada ao tráfico. A personagem se torna o eixo central da narrativa, mesmo em meio a um contexto marcado pela violência.
“A gente sabe que ser mulher nessa sociedade é muito difícil. Se você encara, vai sofrer as consequências de ter encarado; se você se submete, vai sofrer as consequências disso. Marlene quer sair daquela situação. Ela enfrenta as dores e as consequências”, afirma a atriz.
João Vitor Silva, que recentemente integrou o elenco de O Agente Secreto, destaca que o principal desafio ao interpretar Murilo foi construir de forma natural a evolução do personagem. Ao longo da trama, o jovem músico se vê inserido em um contexto de criminalidade ao cruzar o caminho de Marlene e Sapinho.
“Murilo é um violinista; a arma dele, a princípio, é o violino. Então, pensar nesse caminho, e em como eu iria trazer isso para a tela com verdade, foi o meu maior desafio. Quando estão com medo, as pessoas fazem coisas que não achavam que iriam fazer. Você consegue acreditar que o Murilo faz essas coisas por amor e vai fundo nessa história”, diz.
Xamã, que iniciou sua trajetória como ator na novela Amor de Mãe e atualmente está em Três Graças, interpreta novamente um personagem associado ao universo do crime. Em Cinco Tipos de Medo, ele vive Sapinho, papel que, segundo o artista, permite explorar camadas mais complexas da realidade de jovens periféricos.
“A violência vira uma saída, na favela, que é uma potência criativa incrível. Muitas crianças acabam olhando para o lado e vendo o crime. Não sabem que aquilo é errado e isso acaba sendo cíclico, geração após geração”, afirma. Para ele, o filme apresenta contrastes que podem levar o público a refletir sobre essas trajetórias.
“A arte me salvou e salvou várias pessoas desse panorama de violência. Não sei qual seria a minha realidade se eu não tivesse sido politizado pelo rap. E acho que, se o Sapinho não tivesse sido entregue a esse panorama de violência, também poderia ser um Murilo”, completa.
Em Gramado, o longa conquistou os prêmios de melhor filme brasileiro, montagem, roteiro e melhor ator, concedido a Xamã. O artista afirma que o reconhecimento representa um momento marcante em sua trajetória. “Você se sente meio que fazendo um gol. Demorei para processar. Foi um dos momentos mais felizes da minha vida”, diz.