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Alerta
‘Brasil precisa estar alerta’, diz virologista da Fiocruz sobre potencial pandêmico de vírus descoberto no Paraná
Em entrevista, Marilda Siqueira detalha estudos de nova variante do influenza A H1N2
OGlobo
27/07/2020 | 07:10

O coronavírus não é o único vírus respiratório na mira de cientistas no Paraná. A Fiocruz busca detectar em amostras de pacientes do estado outros casos da nova variante do vírus influenza de potencial pandêmico A H1N2. Essa gripe é transmitida de porcos para seres humanos e foi descoberta, pela primeira vez no mundo, em uma mulher de 22 anos, que se recuperou.

O objetivo é estudar sua capacidade de transmissão e manter a vigilância, explica a virologista Marilda Siqueira, chefe do Laboratório de Vírus Respiratórios e Sarampo do Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz), que identificou o novo vírus e é referência nacional e para as Américas (Organização Mundial da Saúde) para influenza e o Sars-CoV-2.

A variante de influenza do tipo A H1N2 identificada pelo seu laboratório no Paraná é diferente das demais?

Sim. Desde 2005, a variante do vírus influenza A H1N2 já foi encontrada outras 25 vezes. Mas esta que identificamos em uma amostra de Ibiporã, no Paraná, é diferente de todas as demais já descobertas no mundo.

Ela é uma variante da variante?

Sim, é genomicamente diferente. Mas não sabemos ainda o que isso significa, se lhe confere mais risco ou menos. É por isso que vamos buscar outros possíveis casos.

O que significa ter potencial pandêmico?

Os vírus influenza são muito contagiosos, e, sempre que um novo emerge, causa preocupação porque a população não tem imunidade contra ele.

Quão perigosa é a variante descoberta no Paraná?

Ela provocou um caso gripal leve, uma moça de 22 de anos, que trabalhava num matadouro em Ibiporã, no Paraná. Ela adoeceu em abril, mas se recuperou totalmente. Essa variante do vírus influenza A H1N2 tem potencial pandêmico, mas isso não quer dizer que vá causar pandemia.

Esse vírus é mais ou menos perigoso do que o anunciado recentemente na China?

Diria que o potencial de causar pandemia é o mesmo. Sendo que o novo vírus influenza identificado na China (G4 EA H1N1), pelo que se sabe, infectou somente os porcos. Este daqui do Brasil foi transmitido para seres humanos.

Como é o estudo que seu laboratório fará?

Vamos analisar amostras enviadas pelo Laboratório Central do Paraná (Lacen), que é muito bom. São cerca de 3.000 amostras de moradores da região de Ibiporã e Londrina que tiverem quadro de doença respiratória. Queremos descobrir a capacidade de transmissão desse vírus.

Que amostras são essas?

Casos de doença respiratória que testaram negativo tanto para o coronavírus Sars-CoV-2 quanto para os demais vírus respiratórios. E, se não encontrarmos agora, não quer dizer que o novo vírus não está lá.

Por quê?

Porque embora a vigilância do Paraná seja excelente, nossa capacidade é limitada e estamos começando ainda. Esse vírus que identificamos foi pego por acaso na amostragem regular, justamente porque a vigilância do estado é boa. E precisa ser. Vigilância é fundamental no Brasil.

Por que o Brasil tem situação especial?

Porque temos todas as condições para a gripe. Temos uma grande população; temos aves migratórias, as maiores carregadoras mundiais de vírus influenza; e temos um imenso rebanho suíno (o Brasil é o quarto maior produtor e exportador do mundo de porcos).

E qual a importância dos porcos?

A ave carrega o vírus pelo planeta. Mas é no porco que o vírus influenza “rearranja” o seu genoma. Os suínos são pequenas fábricas de vírus, que se adapta muito bem a eles. O genoma do influenza é particularmente suscetível a essas rearranjos, que levam a mutações. Volta e meia uma delas permite que esses vírus ganhem a capacidade de “pular” de espécies. Foi o que aconteceu em Ibiporã. A moça infectada trabalhava num matadouro. É assim que essas gripes emergem. E não foi a primeira vez

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