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Cultura

Série reúne autores potiguares em espaços simbólicos de Natal

Projeto “Poesia Pede Rua”, criado pela produtora Gessyka Santos, registra quatro autores em série audiovisual
Nathallya Macedo
06/03/2026 | 05:02

Há lugares onde a poesia costuma nascer — o silêncio do quarto, a mesa de trabalho, a página ainda em branco. Para a poeta e produtora cultural potiguar Gessyka Santos, de 36 anos, no entanto, ela também precisa respirar no espaço público. Precisa da cidade.

É desse impulso que nasce o projeto “Poesia Pede Rua”, uma série audiovisual que reúne poetas da cena potiguar em entrevistas e leituras de poemas gravadas em diferentes pontos de Natal. A iniciativa integra as ações do Sarau Dentro da Noite e propõe uma ocupação simbólica do espaço urbano por meio da palavra poética.

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Poeta e produtora Gessyka Santos idealizou a série visual “Poesia Pede Rua” - foto: Davi Selton / Divulgação

Ao longo do mês de março, em celebração ao Mês da Poesia, quatro autores participam de episódios semanais publicados no perfil oficial do sarau no Instagram. Cada vídeo registra uma breve conversa sobre processo criativo, território e produção literária, seguida da leitura de um poema autoral em ambiente aberto.

A proposta é simples, mas carrega um sentido maior: ampliar a visibilidade da poesia produzida no Rio Grande do Norte e reforçar a cidade como espaço de escuta e circulação da literatura.

Para Gessyka, a poesia é hoje um lugar de pertencimento. Mas esse encontro não aconteceu de forma imediata.

“Sou Gessyka Santos, tenho 36 anos e digo por aí que sou poeta há mais de 10 anos e também sou produtora cultural. Comecei nos bastidores, apoiando amigos em leituras, incentivando publicações e colaborando nos processos de circulação dos textos”, contou.

Antes de assumir publicamente a identidade de poeta, ela passou um tempo observando e participando da cena literária a partir de outras funções.

“Eu já escrevia, mas não tinha coragem de me assumir poeta. Sempre tive muito respeito pela palavra poeta, e me chamar assim parecia algo distante, quase impossível”.

Foram os próprios amigos que insistiram para que ela compartilhasse seus textos. Primeiro nas redes sociais, depois nos encontros literários.

“Comecei publicando no Facebook, depois nos saraus, nos fanzines, e desde então não parei mais, nem quero. A poesia se tornou uma necessidade. Seja escrevendo ou produzindo ações, saraus, podcast ou projetos como o Poesia Pede Rua, eu preciso estar em diálogo com a palavra”.

Essa necessidade também se traduz em um desejo de fortalecer a cena literária local. Como poeta e produtora, Gessyka diz sentir responsabilidade em registrar e divulgar a produção potiguar.

“Eu acredito profundamente na poesia, e na poesia potiguar, sobretudo. Temos uma produção riquíssima, com nomes importantes que muitas vezes foram esquecidos, e uma geração atual potente que ainda não recebe o devido destaque e isso me inquieta como poeta e produtora”, frisou.

Segundo ela, iniciativas independentes muitas vezes acabam assumindo o papel de preservar essa memória.

“Eu sinto a responsabilidade de registrar, divulgar e contribuir para a permanência dessa memória. Também quero que novos poetas se sintam livres para ocupar os espaços, dizer seus versos em público e entender que a cidade também lhes pertence”.

Essa inquietação é o que move projetos como o “Poesia Pede Rua”. Para Gessyka, transformar a inquietação em ação é quase inevitável. “Esses projetos são uma forma de escutar essa inquietação e transformá-la em ação”.

O cenário da poesia potiguar, na visão dela, vive ciclos de maior ou menor visibilidade, mas nunca deixa de existir. “A poesia no Rio Grande do Norte nunca deixa de existir. Mesmo quando a cena parece menos visível, ela segue borbulhando por dentro, insistente”, afirmou.

Ela observa que há momentos de maior efervescência, com saraus, lançamentos e eventos literários, e outros de retração. O desafio principal, segundo a produtora cultural, é garantir continuidade. “Resistir à falta de incentivo estruturado, à ausência de políticas públicas efetivas que garantam permanência e sustentação para quem cria”.

Mesmo assim, a cena segue se reinventando.

“Ainda assim, há um tanto de poetas insistindo na escrita e na produção em torno da palavra poética. Existe uma geração tentando se consolidar, enquanto outra começa a surgir, e é bonito testemunhar esse movimento”.

A série audiovisual parte justamente desse movimento de resistência. Os episódios apresentam diferentes trajetórias da poesia contemporânea potiguar.

O primeiro a aparecer é o poeta natalense Thiago Medeiros, que nasceu no final dos anos 1980 e cresceu no bairro do Alecrim. Atuando nas áreas de literatura, artes cênicas e produção cultural, ele celebra em 2026 duas décadas de trajetória artística.

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Poeta natalense Thiago Medeiros – Foto: Davi Selton / Divulgação

Thiago Medeiros é autor de sete livros de poemas, entre eles No Pescoço do Infinito, obra que integrou a II Bienal Internacional do Livro de Alagoas e circulou por capitais do Nordeste dentro do projeto independente Circulação Nordeste.

A série também apresenta a poeta Gabrielle Dal Molin, nascida em São Paulo em 1987 e radicada no Rio Grande do Norte. Professora, antropóloga e mãe da pequena Gal, ela publicou os livros Seiva (2017), Carnaval no Abismo (2021) e Veias (2025). Gabrielle também canta na banda Valvulosa e mantém relação espiritual com a jurema sagrada.

Outra voz presente no projeto é a da artista transmídia Christalina, potiguar nascida em 1991. Licencianda em Artes Visuais pela UFRN, ela coordena o projeto Potiguarias Visuais e criou o estúdio Bruxaria Digital Ateliê. Sua produção mistura poesia, tecnologia e memória, explorando temas como saúde mental, autobiografia ficcional e os processos mágicos da criação artística.

A série também inclui o rapper, slammer e produtor cultural Amém Ore, de 24 anos, homem trans negro de Mãe Luíza. Ele começou a escrever letras de rap aos 12 anos e passou a participar de batalhas de rima e rodas de poesia a partir de 2017. Em 2020 lançou os primeiros trabalhos solo, como os singles Ensaio e Family Friendly e o EP IRA – Insuficiência Respiratória Aguda, que aborda a realidade periférica de forma crítica. Sua trajetória inclui participações em festivais como MADA e Festival do Sol.

Para Gessyka, reunir essas vozes em uma mesma série é uma forma de registrar o presente da poesia potiguar.

Mas tão importante quanto os poetas são os lugares onde as conversas acontecem.

As gravações foram realizadas em espaços urbanos carregados de memória — cemitérios, escadarias, becos e ruas da cidade. A escolha foi intencional.

“Me encontro quando Sérgio Sampaio diz: ‘lugar de poesia é na calçada’. A poesia precisa estar na rua; na voz do poeta, no lambe, na intervenção urbana, no encontro com quem passa”.

A cidade, segundo ela, não funciona apenas como cenário.

“Escolher espaços como o Cemitério do Alecrim, Escadaria de Mãe Luíza, Beco da Lama e Ribeira não é acaso, são lugares que têm relação afetiva com os poetas e com a cidade. Há memória ali”.

A inspiração para essa abordagem veio da poeta e jornalista Marize Castro, especialmente do livro Além do Nome, em que os entrevistados escolhem os locais das conversas.

“Me inspirei muito na delicadeza desse livro. Achei potente essa ideia de que o território também conta a história”.

Por isso, gravar em estúdio não foi uma opção.“Como o projeto também fala de memória e afeto, me pareceu mais coerente registrar a poesia em espaços abertos do que em um estúdio fechado. A cidade participa da entrevista tanto quanto o poeta”, pontuou.

O projeto foi realizado de forma independente, sem recursos financeiros, mas mobilizando uma rede de colaboração cultural.

A direção e os roteiros são assinados por Gessyka Santos, que também integra a curadoria ao lado do poeta e pesquisador Lanuk Nagibson. Natalense, ator e professor formado em Letras pela UnP, Lanuk é mestre em Literatura e doutorando em Literatura e Memória Cultural pela UFRN. Ele também atua como poeta, autor do zine O silêncio tem que ser escolhido e dos livros Desértico e Vênus em Escorpião.

A produção é da Anzóis Produtora, com captação e edição de Davi Selton e produção audiovisual da Nobir. O projeto conta ainda com apoio da Nobir Produtora e do Lado B.

Mesmo nascido de forma independente, o “Poesia Pede Rua” carrega uma ambição maior: fortalecer a presença digital da poesia potiguar e ampliar o acesso do público à produção contemporânea do Estado.

Para Gessyka, no entanto, o futuro da poesia local depende também de políticas culturais mais consistentes. “Política pública consistente — e não apenas no sentido financeiro, embora ele seja fundamental. Precisamos de políticas mais eficazes de salvaguarda da memória literária do estado, de incentivo à formação de leitores, de apoio à circulação dos autores, de valorização da produção contemporânea”.

Ela acredita que a poesia potiguar já possui força suficiente. O que falta é estrutura para que essa potência não dependa apenas da resistência individual. “A poesia potiguar é potente. O que falta é estrutura para que essa potência não dependa apenas da resistência individual”.

Ainda assim, ela segue acreditando no futuro.“Espero que a poesia potiguar ocupe o lugar de destaque que merece. Que as políticas culturais se tornem mais efetivas e impulsionadoras”.