Dois dos primeiros bairros de Natal, a Ribeira e as Rocas refletem o descaso com o patrimônio histórico e cultural da capital potiguar. Percorrendo as ruas desses bairros, é possível notar a degradação, os imóveis abandonados e os desafios que a população e o comércio local enfrentam. E a cultura resiste em meio a esse contexto.
A revitalização de bairros históricos é uma pauta que vez ou outra retorna ao debate público em Natal, mas a falta de políticas de preservação urbana chama a atenção de quem passeia nesses locais. Em 2010, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) tombou o conjunto arquitetônico, urbanístico e paisagístico de Natal, englobando a Cidade Alta e parte da Ribeira. Tanto a Ribeira quanto as Rocas abrigam importantes traços da história da capital potiguar.

Francisco Liberato, 71, é dono de uma mercearia na Ribeira desde 2000. Ele conta que o movimento era muito intenso quando abriu o estabelecimento, mas as vendas caíram e agora mal daria para sobreviver com o dinheiro do comércio. Ele também é aposentado e trabalha ao lado da esposa, Francisca Liberato, 65. Seus principais clientes são moradores e pescadores.
“Aqui tem muito prédio abandonado e caindo”, Francisco afirma. “Muita coisa precisa mudar com esses prédios velhos, fazer uma reformulação, botar um comércio, uma moradia”, sugere.

O comerciante potiguar diz que já ouviu muitas promessas nesse sentido, mas não é otimista quanto a possíveis perspectivas de melhora. A segurança no bairro, segundo ele, também deixa a desejar. Pequenos comércios e oficinas nas ruas da Ribeira resistem aos efeitos do esvaziamento deste que já foi um dos principais bairros da cidade.
Além de problemas de segurança e de outras questões urbanas, há acúmulo de lixo em pontos como o Beco da Quarentena, entre a Rua Frei Miguelinho e a Rua Chile – as vias mais próximas do Porto de Natal. Há relatos de que comerciantes descartam entulho no local, mas que o serviço de limpeza urbana funciona.
A reportagem buscou contato com as assessorias de comunicação do Iphan e da Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Urbanismo de Natal para comentar sobre ações de revitalização na Ribeira e nas Rocas. Contudo, os órgãos não retornaram as informações solicitadas.
História
O primeiro cinema de Natal, segundo o site Natal das Antigas, foi o Cine Polytheama, localizado na Ribeira e aberto em 1911 na rua da Alfândega, hoje rua Chile. Ao lado do cinema, ficava a Loja Paris, conhecida no começo do século 20 pela sofisticação. As peças eram importadas da França e atendiam à elite da época. Em 2024, foi anunciado que a loja seria restaurada e se tornaria um centro cultural.
Outro empreendimento histórico na Ribeira é o edifício Arpége, na esquina da travessa Venezuela com a rua Chile, que hoje está em ruínas. O prédio já foi armazém, funcionou durante a Segunda Guerra Mundial, quando Natal recebeu tropas estadunidenses, e já foi um dos cabarés mais famosos da capital potiguar.
Os filmes “For All – O Trampolim da Vitória” (1998) e “O Homem que Desafiou o Diabo” (2007) têm cenas gravadas no espaço. Também está na Ribeira a antiga rodoviária de Natal, que se tornou o Museu de Cultura Popular Djalma Maranhão, fechado temporariamente.

Já o bairro das Rocas abriga a antiga estação rodoviária, hoje área sob comando do Exército, e a história dos trens na capital norte-rio-grandense. O bairro tem uma forte relação com a pesca e uma localização estratégica, próximo ao Porto de Natal e ao rio Potengi.
Em sua tese de doutorado na Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Giovanni Bentes Filho tratou da história das Rocas. O trabalho, da área de História, explica que, nas primeiras décadas do século 20, o bairro era frequentemente compreendido como um arrabalde, um subúrbio ou uma área limite da cidade, e administrativamente ligado ao bairro da Ribeira.

Os primeiros habitantes das Rocas, segundo a pesquisa de Bentes Filho, eram pescadores e trabalhadores pobres. A imagem do bairro nesse período era muito negativa, associada à pobreza, miséria, insalubridade, doença, perigo e crime. Observadores da época, como o médico Januário Cicco, descreviam as Rocas como um local de péssimas condições sanitárias. Em visita ao Nordeste, entre 1928 e 1929, Mário de Andrade visitou as Rocas.
Cultura resiste
A cultura é um dos pilares dos dois bairros e, apesar do abandono desses espaços, ela resiste ao tempo. Foi na Ribeira que, por volta de 1998, o grupo de teatro Clowns de Shakespeare procurou um espaço para realizar os ensaios e os espetáculos que estavam montando. A Casa da Ribeira nasceu em 2001 por iniciativa deste grupo e mantém suas atividades até hoje, na rua Frei Miguelinho.
Alessandra Augusta, diretora-presidente da Casa da Ribeira, conta que o espaço cultural se mantém por meio de editais de incentivo à cultura, públicos e privados, e por meio de locação para espetáculos. As atividades são independentes e abrangem artes cênicas e audiovisual.

“O grupo queria achar um galpão, um espaço, e veio para a Ribeira, que é o bairro onde se encontram os casarões e as pessoas que fazem o comércio, a cultura, a música, a comida. Tudo isso ainda acontece ainda aqui, apesar do completo abandono do poder público em relação ao bairro”, diz Alessandra. “Acredito que o número de equipamentos culturais que a cidade tem ainda é muito incipiente, e as pessoas não têm tantas opções para poder apresentar os trabalhos artísticos”, pondera.
Nas Rocas, a Segunda do Vagabundo é hoje uma das principais atividades culturais. A roda de samba é um patrimônio cultural imaterial da capital potiguar e acontece entre a rua Pereira Simões e a rua das Donzelas. Inicialmente, o evento reunia pequenos grupos de pessoas que trabalhavam durante o final de semana e aproveitavam a segunda-feira para “vagabundear”.
A Casa da Ribeira tem espetáculos teatrais, lançou previamente uma sala de exibição para filmes nesta quarta-feira 20 e oferece cursos livres. Alessandra está na Casa desde 2007 e diz que sente que o tratamento do poder público com o bairro não evoluiu desde essa época.
De acordo com ela, as noites na Ribeira já foram mais festivas, mas hoje algumas iniciativas lutam para manter a cultura viva, como a Frisson, uma casa de música alternativa, por exemplo, e o grupo de samba Rosas na Cartola.
“Eu não percebo evolução no bairro em relação aos cuidados do poder público nos últimos 10 anos”, diz ela, comentando também sobre o cenário de insegurança. De setembro de 2024 até agora, a Casa da Ribeira já sofreu cinco furtos. “A gente percebe um repleto abandono mesmo, mas continuamos resistindo, porque a gente não vai deixar o espaço para trás”.
Esta é a segunda reportagem da série “Retratos da nossa história”, que resgata pontos fundamentais da cultura e da história de Natal e do Rio Grande do Norte e busca entender como o patrimônio público local é tratado.