BUSCAR
BUSCAR
Cultura

Casa da Ribeira: 23 anos de história, cultura e resistência 

Local se destaca como um espaço independente de educação e cultura com o objetivo de manter o legado cultural da cidade
Belita Lira e Larissa Silva
10/12/2024 | 11:27

A Ribeira, um dos bairros mais antigos de Natal, respira história e cultura em cada rua, casarão e esquina. Situada à margem do Rio Potengi, o bairro luta contra o abandono, mas ainda guarda um rico patrimônio cultural e histórico. Um dos pilares dessa resistência é a Casa da Ribeira, inaugurada em 6 de março de 2001, que se destaca como um espaço independente de educação e cultura, comprometido em preservar e renovar o legado cultural da cidade.

A Casa da Ribeira ocupa o casarão n.º 52 da Rua Frei Miguelinho, construída há mais de 100 anos e tombada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN). O espaço foi transformado num verdadeiro hub cultural, com um teatro de 164 lugares – que já recebeu mais de 2.700 espetáculos- uma sala multiuso, um café literário com mais de 1.500 títulos e um laboratório de comunicação. Desde a sua fundação, a Casa da Ribeira não apenas apresenta espetáculos, exposições e mostras, mas também promove a educação artística e a formação de jovens talentos locais.

Casa da Ribeira (64)
Sala principal da Casa da Ribeira para apresentações culturais. Foto: José Aldenir/Agora RN

Alessandra Augusta, atriz, produtora e presidenta da Casa da Ribeira, destacou a importância do local para a cidade de Natal e o estado do Rio Grande do Norte: “Nosso principal objetivo é manter a Ribeira Viva. Hoje somos um dos únicos espaços culturais tombados pelo IPHAN na Ribeira que têm atividade diária, semanal, mensal e anual. Pensamos na democratização do acesso à cultura e no desenvolvimento humano por meio da arte. Muitos educandos que passaram por aqui hoje atuam em diferentes áreas artísticas, como teatro, moda e produção cultural.”, disse.

Desde a sua fundação, a Casa da Ribeira tem sido uma incubadora de talentos. Um exemplo disso é o projeto “ArteAção”, responsável por formar diversas pessoas que hoje atuam nas artes, seja como atores, bailarinos, cenógrafos ou designers gráficos. Alessandra relembra com entusiasmo: “Diversos educandos do Arte e Ação estão hoje engajados no campo das artes e fazem parte de nossa trajetória de formação artística e cultural”.

Para Alessandra, o impacto da Casa vai além da formação artística. Ela aponta uma contribuição significativa da instituição para o fortalecimento da economia criativa local. “Desde o primeiro ano, promovemos a economia criativa com editais e chamadas públicas, permitindo que artistas se apresentem e desenvolvam seus projetos. O projeto ‘Cena Aberta’, por exemplo, já permitiu que mais de 30 grupos passassem pelo palco da Casa”, explica.

Alessandra Augusta Pres. Casa da Ribeira (26)
Alessandra Augusta, presidenta da Casa da Ribeira. Foto: José Aldenir/Agora RN.

Entretanto, o caminho da Casa da Ribeira não tem sido livre de desafios. “Gerir um espaço tombado, com três andares e no bairro da Ribeira, que não está inserido no Centro Histórico, é um grande desafio. A Ribeira é um lugar estigmatizado, visto como perigoso e abandonado pela gestão pública. Mesmo assim, a Casa da Ribeira continua viva, promovendo atividades culturais de alta qualidade e recebendo artistas de todo o Brasil e do mundo”, ressalta Alessandra.

A história da Casa da Ribeira remonta a 1998, quando o Grupo Cláudio Shakespeare, com a visão de Gustavo Vanderlei e Ariane, encontrou o casarão abandonado e o transformou em um espaço cultural. “A ideia de trazer esse centro cultural para a Ribeira surgiu de uma necessidade de ter um espaço para ensaios e apresentações. Com o apoio da iniciativa privada, conseguimos transformar esse sonho em realidade, com a ajuda de empresas como Petrobras, Cosern e Telemar”, explica Alessandra.

Nestes 23 anos de história, a Casa da Ribeira não apenas preservou um importante património histórico, mas também se firmou como um símbolo de resistência e criatividade. Para Alessandra, o segredo do sucesso é a união entre a arte, a educação e o compromisso com a comunidade. “Aqui, as pessoas têm um lugar de pertencimento, de afeto, de respeito. Isso é o que nos move e nos mantém vivos”, conclui.

‘Casa Negra + Diversidade’

A ‘Casa Negra + Diversidade’ – recorte temático do Festival Internacional Casa da Ribeira,  Artes da Cena e do Ser (FICA) 2024, será a temática da Casa pelos próximos 4 anos. Focando em pessoas autodeclaradas negras e pardas, práticas decoloniais, estudos etnoraciais, práticas antirracistas e na comunidade LGBTQIAPN+, a Casa busca reforçar o que ela já vem fazendo há 19 anos – quando surgiu o projeto ‘Ruas da Memória’ (2005 – 2009). 

A presidenta da Casa lembra a importância de trabalhar com grupos marginalizados e garantir a democratização através de projetos, como por exemplo, a Escola de Criação. “Esse recorte e trabalhar com grupos periféricos, com as escolas, nos dá um retorno que quase metade dos educandos e das educandas das salas de aula do ensino público de Natal são pessoas negras e pardas. Então quando a gente escolhe trabalhar com esse grupo efetivo em diversos projetos a mais de 10 anos, nós entendemos a perspectiva da Casa da Ribeira”, afirma Alessandra. 

NOTÍCIAS RELACIONADAS