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Marcelo Hollanda

Brasil fez um pacto com um demônio moralista e atrasado

Confira a coluna de Marcelo Hollanda desta quarta-feira 26
Marcelo Hollanda
26/01/2022 | 09:01

É só demonizar quem demoniza
Ao demonizar a política e as contribuições privadas de campanha, o Brasil fez um pacto com um demônio moralista e atrasado.

E ao fazer esse pacto jogou nas costas do Estado brasileiro (do povo) a tarefa de financiar o custeio de agremiações partidárias que patrocinam verdadeiros currais eleitorais pelo país.

Brasil vai experimentando, aos poucos, os reveses de um goveRio Grande do Norteo completamente disfuncional
Brasil fez um pacto com um demônio moralista e atrasado Foto: Reprodução

Porque se há um negócio rentável no Brasil, que passa de pai para filho e é responsável por grandes corporações de privilégios e de privilegiados, é a política partidária.

Ao mirar em empresas que compram políticos desde os primórdios da República, inclusive durante o regime militar, a operação Lava Jato prestou um serviço e, ao mesmo tempo, um desserviço à sociedade brasileira.

Instalou uma caça às bruxas ao invés de focar nos frutos podres e com isto incinerou o cesto todo, mexendo com a economia.

Foi política quando deveria ter sido profissional.

A prova inequívoca disso é que a curva ascendente do desemprego não mudou substancialmente nos últimos anos.

Continua tão alta quando esses paladinos resolveram valer-se da bandeira da anticorrupção para acender e controlar o poder.

Foi o moralismo de uma fração privilegiada do Estado instalada no poder Judiciário que resolveu fazer justiça com as próprias mãos.

O resultado foi a eleição de um extremista de direita que nunca pregou um prego fora do baixo clero amiga dos piores lobbies no Congresso.

Depois da cisão esperada, esses paladinos da anticorrupção lançam-se um a um em empreitadas eleitorais.

Eles se incorporaram à febre que este ano dará R$ 5,96 bilhões de dinheiro público para financiar campanhas e custear partidos.

Isso, apesar de ainda insignificante para as aspirações de poder de grupos, equivale a 46,5% de todos os recursos do Tesouro destinados às agremiações na última década.

Os dados são de um levantamento realizado pelo Estadão com base nos dados do Tribunal Superior Eleitoral.

Com as bênçãos da Câmara e do Senado em dezembro e sacramentado pelo projeto de Lei Orçamentária Anual (LOA), o valor representa um crescimento real de 92,5% em relação ao pleito de 2018.

Dois anos, portanto, depois que começaram a valer as novas regras eleitorais, criadas pela minirreforma de 2015, proibindo as doações empresariais para campanhas.
Grande ambição com dinheiro alheiro dá nisso mesmo: retrocesso.

Enquanto na democracia norte-americana as doações privadas são recepcionadas pelo comitês de campanha, que as declaram por força de lei, no Brasil é a o Estado quem financia as máquinas partidárias, agora com orçamento secreto sem as prestações de contas.

Moralismo
Criado pelo Legislativo em 2017, o fundo eleitoral foi uma reação à decisão equivocada do Supremo Tribunal Federal que, em 2015, proibiu a doação de empresas para campanhas, temendo o efeito econômico sobre as eleições. Tudo para acabar com o caixa 2 nas campanhas, um hábito tão velho quanto andar para frente e não foi uma descoberta da Lava Jato, como dizem.

Pela culatra
Uma pesquisa da Fundação Getúlio Vargas, resgatada pelo Estadão, o mesmo jornal que saiu na frente na denúncia do orçamento secreto, revelou que o custo médio das campanhas caiu 38% de 2014 para 2018. Ouvida pelo o Estadão, a cientista política Lara Mesquita acredita que, embora necessária, a mudança pressionou as contas públicas e desincentivou os partidos a buscar apoio orgânico na população. Em outras palavras, acomodou essa turma ao dinheiro fácil. “Para os políticos, foi um alívio se isolar das empresas, porque isso os blindou das denúncias de corrupção. Mas há dois ônus: o peso disso no Orçamento e o distanciamento entre a sociedade e os partidos políticos, que têm seu financiamento garantido”, afirmou.

Interesses comuns
Depois do PSL com R$ 604,1 milhões, partido pelo qual Bolsonaro se elegeu em 2019, mas não conseguiu adestrar para ser seu, é do PT com R$ 594,4 milhões o maior fundo eleitoral.

Nada muda
Após promover seu nome como, paladino da anticorrupção no Brasil por conta da Operação Lava Jato, chegando ao requinte de mandar prender o maior adversário do candidato Jair Bolsonaro e depois assumir um cargo de ministro do próprio, Sérgio Moro tem agora como candidato à presidência muito que explicar. Entre essas explicações, porque ele foi trabalhar como sócio de uma multinacional que fazia os acordos de leniências das empresas capturadas pela Lava Jato e obrigadas a fazer devoluções milionárias de propinas.

Orçamento
O governo Bolsonaro é isto mesmo: investimento zero no país e investimento total em seus interesses eleitorais até ele descobrir tardiamente que ajudou um monte de gente e não necessariamente se ajudou. Portanto, vale a máxima de Raul Veloso, consultor de contas públicas, ao analisar esta semana o orçamento do governo federal para 2022: “Esse orçamento é coerente com a postura de condenação à estagnação, foi isso que eles fizeram”.