‘Não preciso mais mentir para proteger alguém que desconheço quem seja’, diz Monique sobre Jairinho
Em entrevista exclusiva ao GLOBO, Monique afirma que cumpriu responsabilidades como mãe de Henry e alega ter ficado 'cega' diante da violência psicológica que diz ter sofrido do ex-namorado
O Globo
06/07/2021 | 13:14
Após 85 dias dentro de uma cela de oito metros quadrados no Instituto Penal Ismael Sirieiro, em Niterói, na Região Metropolitana do Rio, Monique Medeiros da Costa e Silva não exibe mais megahair no cabelo e unhas de acrigel nem ostenta mais roupas e bolsas de grife. Presa preventivamente pela morte do filho, Henry Borel Medeiros, de 4 anos, ela diz acordar às 7h30, usufruir de quatro blusas e duas camisas da Secretaria de Administração Penitenciária (Seap), e manter a rotina de leitura e escrita. Nos últimos dias, tem se debruçado em um livro em que narra o relacionamento abusivo que diz ter vivido com o médico e ex-vereador Jairo Souza Santos Júnior, o Dr. Jairinho. Sobre ele, que também é réu pelo crime, a professora diz não “conhecê-lo”.
– Hoje eu não preciso mais mentir para proteger alguém que eu desconheço. Eu não sei mais quem ele é, não o conheço mais – contou, em entrevista exclusiva ao GLOBO.
Monique deu entrevista de dentro da cadeia Foto: Hermes de Paula / Agência O Globo
Durante aproximadamente duas horas, Monique narrou em detalhes o casamento com Leniel Borel de Almeida, o nascimento de Henry e os desgastes da relação do casal – segundo ela, provocados, sobretudo, pela distância do trabalho do engenheiro, no Espírito Santo. Com o início da pandemia do coronavírus, a família se juntou novamente, em uma cobertura no Recreio, mas ela decidiu pedir o divórcio, em setembro do ano passado.
– Ele fazia 12, 15 reuniões por dia no home office e passamos a não nos falar mais, não cruzar olhares, não ter mais intimidade dentro da mesma casa. No início, resisti muito a me separar, minha família não queria isso, meus pais estão juntos há 36 anos, mas acabei não aguentando e entrando para as estatísticas.
Em julho, Monique diz ter conhecido Jairinho nas redes sociais. Na tarde de 31 de agosto, eles marcaram um almoço, em um restaurante no Shopping Village Mall, na Barra da Tijuca. Em dois dias, o ex-vereador já apresentava a professora como namorada e, em janeiro, eles foram morar com Henry em um apartamento no Condomínio Majestic, no Cidade Jardim. Agora, ela afirma que a partir daquela ocasião passara a sofrer sessões de violência psicológica por parte do então companheiro, o lhe deixou “cega”.
– O Jairinho me proporcionou, sim, uma vida melhor. Mas tudo que eu fiz foi pensando também no Henry. Matriculei ele em um colégio melhor, coloquei ele no (turno) integral e em outras atividades e escolhi um prédio que tinha brinquedoteca, piscinas grandes, campo de futebol. Cumpri minhas responsabilidades como mãe. Tenho certeza que fui a melhor mãe que o Henry poderia ter tido. Eu realmente não sabia (das agressões de Jairinho) e o único arrependimento que tenho é de não ter podido prever que ele poderia fazer mal ao amor da minha vida.
Laudo do Instituto Médico- Legal (IML) constatou muitas lesões espalhadas pelo corpo do menino, infiltrações hemorrágicas nas partes frontal, lateral e posterior da cabeça, contusões no rim, no pulmão e no fígado. A mãe afirmou acreditar que ele tenha caído da cama e batido a cabeça Foto: Reprodução / InstagramColetiva sobre a conclusão do inquérito sobre a morte do menino Henry Borel. Da esquerda para a direita estão: Marcos Kac (promotor do caso), o delegado Antenor Lopes (diretor da DGPC), Henrique Damasceno (delegado titular da 16ª DP), Denise Rivera (perita criminal) e Ana Paula Medeiros (delegada-adjunta da16ª DP) Foto: Fabiano Rocha / Agência O GloboO delegado titular da 16ª DP (Barra da Tijuca), Henrique Damasceno, deu uma entrevista coletiva sobre a conclusão do inquérito que apurou a morte de Henry. “A única pessoa calada foi o Henry. Ele pediu ajuda e não foi ajudado”, disse o investigador Foto: Fabiano Rocha / Agência O GloboMonique Medeiros, mãe do menino Henry, exibe a tatuagem feita para esconder uma homenagem ao ex-marido nas redes sociais. O desenho foi feito no dia em que Monique pediu que Jairinho “pagasse suas coisas” para não prejudicá-lo Foto: ReproduçãoOs avós de Henry com o menino ainda bebê. ‘Me sinto muito culpada’, disse mãe do menino ao pai uma semana após morte. Conversa com o avô da criança faz parte do conteúdo recuperado pela polícia no celular de Monique: ‘Tudo foram escolhas minhas’, disse ela em outro trecho Foto: ReproduçãoHenry em sua última festa de aniversário: pai compartilhou foto nas redes sociais no dia em que o menino faria 5 anos Foto: Arquivo pessoalMonique revela ‘humilhações e agressões’ em carta sobre a relação com Jairinho. Carta foi escrita na última sexta-feira (23), no Hospital Penitenciário Hamilton Agostinho, no Complexo Penitenciário de Gericinó, onde recebe tratamento contra a Covid-19. A professora descreve uma rotina de violências, humilhações e crises de ciúmes do namorado, o médico e vereador Jairo Souza Santos Júnior, o Dr. Jairinho (sem partido) Foto: ReproduçãoDr. Jairinho e Monique Medeiros, em fotos feitas no ingresso do casal no sistema penitenciário Foto: Reprodução / Agência O GloboVereador Dr. Jairinho, preso, ao lado de diretor de presídio. Na imagem ele come um sanduíche que o diretor entregou para ele Foto: ReproduçãoO advogado André Françao, que representava Jairo Souza Santos Júnior, o Dr. Jairinho, Barreto renunciou à defesa do vereador no caso Foto: Fabio Rossi / Agência O GloboDoutor Jairinho durante discurso na Câmara de vereadores, onde os sete membros do Conselho de Ética da Câmara dos Vereadores decidiram, por unanimidade, abrir o processo de cassação do mandato do vereador Foto: Renan Olaz / Agência O GloboDr. Jairinho foi preso junto com Monique, mãe do menino Henry, por tentar interferir na investigação do caso. Segundo a polícia, o casal será indiciado por tortura e homicídio duplamente qualificado, além de poder perder o mandato na Câmara dos Vereadores do Rio Foto: Guito Moreto / Agência O GloboMonique Medeiros, mãe do menino Hnery cumpre prisão preventiva e será indiciada por tortura e homicídio duplamente qualificado Foto: Brenno Carvalho / Agência O GloboPeritos chegam ao edifício Majestic para fazer a reconstituição da morte do menino Henry Foto: Domingos Peixoto / Agência O GloboCâmera encontrada por policiais da 16ª DP (Barra da Tijuca) no quarto de Henry. Anotação recuperada em celular de Monique Medeiros da Costa e Silva expõe sua vontade de instalação do equipamento dentro de imóvel no Majestic Foto: ReproduçãoEdifício Majestic, na Barra da Tijuca, Zona Oeste do Rio, onde o menino Henry vivia com a mãe e o padrasto Foto: Reprodução / TV GloboHenry no colo da mãe enquanto Dr. Jairinho faz um carinho nele Foto: ReproduçãoA mãe de Henry, Monique Medeiros, e o padrasto, o vereador Dr. Jairinho, chegam à 16ª DP (Barra) para ser ouvidos como testemunhas Foto: Reprodução / TV Globo / Agência O GloboPolícia cumpre mandado na casa da família de Monique, em Bangu, Zona Oeste do Rio Foto: Fabiano Rocha em 26/03/2021 / Agência O GloboLeniel Borel de Almeida em entrevista ao Fantástico: ‘Acordo de manhã chorando. Tem que ter muita força, cara. E o que eu sei é que esse menino não pode ter morrido em vão’ Foto: Reprodução / TV GloboDr. Jairinho na Câmara dos Vereadores do Rio. Ele era padrasto de Henry Foto: Gabriel Monteiro / Agência O Globo – 23/05/2019Henry Borel Medeiros tinha 4 anos quando morreu na madrugada do dia 8 de março em condomínio na Barra da Tijuca, Zona Oeste do Rio, onde morava com a mãe e o padrasto. A causa da morte, segundo laudo do IML, foi “hemorragia interna causada pelo rompimento do fígado” Foto: Reprodução / InstagramEm trocas de mensagens entre o pai e a mãe, Monique Medeiros, foi revelado que Henry não gostava de voltar para a casa, onde vivia com Monique Medeiros e o padrastro, o vereador Dr. Jairinho Foto: Reprodução / InstagramMonique com o filho Henry Foto: Reprodução TV Globo
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