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Pandemia

América do Sul vê explosão de casos de Covid e se torna região mais preocupante

Com imunizantes e isolamento insuficientes, região tem recordes de casos, mesmo em países como Uruguai e Chile, que vinham bem e lideram na vacinação
CNN Brasil
15/04/2021 | 14:24

Mais de um ano depois da chegada da Covid – 19 à América do Sul, países da região apresentam uma explosão no número de casos da doença nas últimas semanas. A situação foi publicada como a mais alarmante no mundo pela diretora-geral da Opas, Carissa Etienne, no dia 7 de abril. “Em nenhum lugar as alterações são tão preocupantes como na América do Sul”, disse a executiva da Opas, agência de saúde que atua como escritório da Organização Mundial da Saúde (OMS) no continente.

Atualmente, a América do Sul é a região com o maior número proporcional de novos casos diários. A virada aconteceu no último dia 6, quando o continente chegou a 256 novos casos por milhão de habitantes, enquanto a Europa, até então líder, tinha 250, segundo a plataforma Our World in Data.

América do sul vê explosão de casos de covid e se torna região mais preocupante
Enfermeira prepara dose de vacina - Foto: Ernesto Ryan/Getty Images

A América do Sul também apresenta o pior cenário do mundo quando se considera a média móvel de mortes em um intervalo de sete dias. A diferença assusta: na última segunda-feira (12), a média móvel de mortes da região beirava a marca de dez para cada milhão de habitantes – a da Europa, a segunda pior, estava abaixo de cinco.

Em contraste com a aceleração da pandemia, a região tem apenas 3% da população totalmente vacinada. Para se ter uma ideia, uma Europa tem quase 6% e a liderança da América do Norte com 13%, mesmo com a inclusão de países da América Central e do Caribe.Vacinação contra Covid-19 na América do Sul

Até o Chile e Uruguai , que vacinaram, respectivamente, cerca de 37% e 22% de suas populações com ao menos uma dose, comerindo marcas inéditas nas mortes e contágios diários pelo coronavírus.

Na sexta-feira (9), o Chile superou pela primeira vez a marca de 9 mil novos contágios em apenas um dia. Já o Uruguai foi registrado, na segunda-feira (12), o número recorde de 71 mortos pela Covid.

Paciência se esgotou antes de haver imunização

Mas o que explica a situação da região? Para ouvidos ouvidos pela CNN , há uma soma de fatores. Sem uma redução eficiente da mobilidade, por exemplo, como medidas de distanciamento e isolamento são precárias ou praticamente inexistentes. A desigualdade social e a falta de auxílio financeiro por parte dos governos também são elementos da equação.

“A solução única para a pandemia é a vacina, e, até lá, paciência e confinamento. No Cone Sul, a paciência se esgotou antes de uma vacina ter produzida a imunidade ”, diz o cientista político argentino Andrés Malamud, pesquisador do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, em Portugal.

É nesse sentido que, na avaliação de Malamud, se veem os reflexos da desigualdade social e da falta de apoio dos governos. “Na América Latina, o alto grau de informalidade exige que muitos setores da sociedade saiam para trabalhar”, diz.

“Funcionário público não tem problema, mas empregados privados, trabalhadores privados, trabalhadores informais e desempregados não podem ficar acontecendo sem receber nenhum tipo de compensação financeira”, afirma o cientista político.Mortes por Covid-19 na América do Sul Foto: CNN

Miriam Saraiva, professora de relações internacionais da UERJ e pesquisadora sobre integração sul – americana e Mercosul, avalia ainda que, por uma questão de “cultura política”, os governos sul – americanos tendem a não conseguir convencer os cidadãos a tomar os cuidados médicos para o controle da pandemia.

“Os governos não têm capacidade de enquadrar suas próprias sociedades, [de fazer com] que haja um pensamento coletivo, que cada cidadão se sinta obrigado a ter um determinado comportamento”, pontua. “Isso é uma questão de cultura política, que não se pode criar da noite para o dia, e aqui na América Latina faz falta”, afirma.

Muita fronteira e cooperação

Um desafio a mais para a América do Sul é lidar com uma enorme extensão de fronteira seca entre os países – o que, para os especialistas, torna praticamente impossível que um país da região consiga vencer, sozinho, uma batalha contra o coronavírus.

“Essas iniciativas de fechar fronteiras, de dizer ‘ah, o vírus vem daí’, não adiantam. Entre Uruguai e Brasil, existem ruas que separam a fronteira. Como você vai fechar? ”, Questiona a professora Miriam Saraiva.

No Uruguai, os piores indicadores da pandemia estão na região norte, perto da fronteira com o Brasil. O governo uruguaio não a vacinação de brasileiros na fronteira – mas, por enquanto, a medida vale apenas para quem já tem a dupla cidadania.

Para Saraiva, é preciso haver ações coordenadas regionalmente para o combate efetivo do coronavírus na América do Sul, inclusive por se levar em conta como novas variantes do vírus. Como possíveis medidas, ela cita o intercâmbio de experiências, iniciativas e até de insumos entre cientistas e governos dos países.

“Um país pode se sair bem sozinho se for uma ilha, como a Nova Zelândia. Na América do Sul, não há isolamento possível e nem tratamento adequado ”, avalia o cientista político Andrés Malamud.Taxa de contágio da Covid-19 na América do Sul Foto: CNN

Só vacinação não resolver

Mais adiantados na vacinação, Uruguai e Chile mostram que somente a aplicação de doses não é o bastante para conter a pandemia.

Se recentemente o Uruguai atingiu uma marca de mais de 1 milhão de vacinados com ao menos uma dose de imunizante contra Covid – 19, por outro lado os contágios diários e o número de mortes não param de crescer. Segundo a plataforma Our World In Data, o país entrou nos últimos dias para o ranking dos 10 países com mais casos de novos coronavírus por dia a cada 100 mil habitantes.

Gonzalo Moratorio, virologista e pesquisador responsável pelo Laboratório de Evolução Experimental de Vírus do Instituto Pasteur de Montevidéu, afirma que é necessário “ajudar o plano de vacinação diminuindo os contágios”. “Não estou sugerindo nenhum regime de confinamento, de quarentena obrigatória, mas apenas reduzir muito mais a mobilidade do que foi feito até agora”, pontua.

O Chile, apesar de ser o país com índice mais alto de vacinação na América do Sul, não conseguiu conter o crescimento acelerado dos casos. Na sexta (9), o país registrou mais de 9 mil novos casos em 24 horas, um recorde desde o início da pandemia.

Assim como Moratorio, Jaime Labarca, médico infectologista e chefe do departamento de doenças infecciosas da PUC-Chile (Pontifícia Universidade Católica do Chile), destaca que contar apenas com a vacinação como forma de controlar uma pandemia não parece ser suficiente.

Uruguai cantou vitória antes do tempo

No Uruguai, a vacinação teve início somente no fim de fevereiro de 2021, em meio a protestos de diferentes setores políticos e científicos que se queixavam da demora nas devidas do presidente Luis Lacalle Pou para obter os imunizantes. À época, os casos de coronavírus já começavam a aumentar no país. A estratégia do governo, no entanto, foi manter o discurso pela “liberdade responsável” dos uruguaios, mantendo bares, restaurantes e lojas disponíveis, e apostar principalmente na vacinação.

No cardápio de vacinas usadas, estão a do laboratório Sinovac – idêntica à CoronaVac, porém importada da China; a da Pfizer, usada principalmente para imunizar profissionais da saúde e idosos; e, em menor proporção, a AstraZeneca, regulamentada por meio do consórcio Covax Facility.

Nas ruas de Montevidéu, é comum ver pessoas sem máscara. Encontrar alguém usando uma máscara do modelo PFF – 2, que oferece maior proteção contra o vírus, é praticamente impossível na uruguaia capital.

“O que aconteceu foi um extremo da população, foi o cantar da vitória antes do tempo. Houve também um afastamento das autoridades nacionais, em relação à comunidade científica, no que diz respeito à tomada de decisões ”, afirma Gonzalo Moratorio.

Em março, uma equipe de cientistas – Moratória entre eles – confirmou a circulação de novas variantes do coronavírus no Uruguai, entre elas a brasileira P.1, relacionado a uma maior capacidade de transmissão e de infecção dos mais jovens. Organizações de médicos e cientistas já alertam para o risco de colapso do sistema de saúde no país.

Deslocamentos na costa chilena

No Chile, o infectologista Jaime Labarca define um cenário que também se desenhou em outros países: o crescimento de casos ligado à alta mobilidade da população durante o verão. No caso chileno, após meses de uma quarentena mais rígida em 2020, o governo do presidente Sebastián Piñera resolveu flexibilizar as medidas no início deste ano. “Algumas áreas do país tinha poucos casos. Muita gente viajou entre Santiago e a costa, contribuindo para a circulação do vírus ”, afirma.

Labarca também ressalta que, como o país está vacinando grande parte da população com a vacina do laboratório chinês Sinovac, é preciso esperar um intervalo de 15 dias após a administração da segunda dose para considerar que uma pessoa está, de fato, imunizada. Assim como o Uruguai, o Chile também administrou doses da Pfizer, direcionadas prioritariamente aos profissionais da saúde.

No início de abril, em meio à alta nos casos, o governo chileno voltou a adotar medidas mais duras e fechou novamente como fronteiras. “Somente agora houve suspensão de viagens internacionais. Antes, em plena pandemia, as pessoas foram de férias para o Brasil, para Miami. Também é preciso definir melhor quais serviços são de fato essenciais e aumentar a fiscalização ”, necessário para infectologista.

Argentina vacina em ritmo lento

A Argentina registrou recorde nenhum número de infectados diários por dias seguidos na semana passada: foram mais de 24 mil novos casos confirmados na sexta-feira (9).

No mesmo dia, entraram in vigor novas medidas de restrição no país, anunciadas pelo presidente Alberto Fernández, que tamb ?? m foi infectado pelo vírus , em meio à escalada de contágios. Fernández decretou um toque de recolher noturno, da meia – noite às 6h, e determinou o fechamento de bares e restaurantes após as 23h.

Em toda a região metropolitana de Buenos Aires, apenas considerados essenciais, como os profissionais de saúde e de educação, podem fazer uso do transporte público. As medidas valem pelo menos até o dia 30 de abril.

Apesar de ter sido o primeiro país da região a dar início à vacinação, ainda em dezembro do ano passado, com a vacina russa Sputnik V, o ritmo da campanha na Argentina é considerado lento – apenas 8,99% da classificação completa ao menos uma dose até o dia 7 de abril, de acordo com os dados da plataforma Our World In Data.

Paraguai quase teve ruptura política

No Paraguai , a situação é ainda pior: apenas 0,64% da população foi vacinada com ao menos uma dose até a mesma data. A gestão da pandemia no país – que vivenciou o colapso de hospitais e a falta de remédios e insumos para tratamento dos infectados – foi o estopim para uma série de protestos contra o governo do presidente Maria Abdo Benítez, do Partido Colorado, em março.

Em meio à crise, a escolha articulou um pedido de impeachment contra Benítez, mas a proposta acabou não prosperando no Congresso, graças a um acordo costurado dentro do Partido Colorado, com uma ala liderada pelo ex-presidente Horacio Cartes.

“O impeachment não é mais um risco no curto prazo, mas fica a perspectiva caso a situação da pandemia volte a piorar e, por algum motivo, essa metade do Partido Colorado [liderada por Cartes] se coloque contra Benítez”, avalia Miriam Saraiva, da UERJ.