Controlador da distribuidora AleSat Combustíveis, o empresário potiguar Marcelo Alecrim avalia que o Rio Grande do Norte deve perder investimentos em função de estar “ilhado” em relação ao restante da região Nordeste. Com tarifas aéreas entre as mais caras do País, o Estado tem buscado alternativas para não ter uma de suas principais atividades econômicas, o turismo, ainda mais prejudicada.
Em quatro anos, segundo a Inframérica, concessionária que administra o Aeroporto Aluízio Alves, em São Gonçalo do Amarante, as companhias aéreas reduziram em 16% a quantidade de voos para o Estado. Com isso, a quantidade de passageiros caiu, respectivamente. Na opinião de Alecrim, o RN tem potencial para crescer, mas precisa resolver o seu “problema de logística”.

Nesta entrevista ao Agora RN, o empresário comenta ainda sobre a proposta de reforma da Previdência que tramita no Congresso Nacional e sobre o início das gestões do presidente Jair Bolsonaro e da governadora Fátima Bezerra. Confira na íntegra:
AGORA – Como o senhor avalia a proposta de reforma da Previdência que está em tramitação no Congresso?
MARCELO ALECRIM – É importantíssima para o País. É um debate, inclusive, que já ultrapassou a razoabilidade. Imaginávamos que isso deveria estar bem mais adiantado. Todos os empresários estão esperando essa solução. Eu acho que ela tem que sair o mais rápido possível. Enquanto isso não sair, não vai vir investimentos para o País. É difícil investir num país que deve muito mais do que recolhe. Os empresários estão em compasso de espera.
AGORA – Essa reforma animaria os investidores?
MA – Além disso, tem a reforma tributária também. Tem que facilitar, para que todos os empresários possam acreditar no País.
AGORA – Como está o Rio Grande do Norte nesse cenário?
MA – Se locais que são o foco, como São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro, já estão ruins, imagine em estados como o Rio Grande do Norte. Mas eu não acho o Rio Grande do Norte um estado pobre. Ele é, na minha opinião, o estado mais rico da região Nordeste. Temos de tudo. Poderia citar vários potenciais, como calcário, a refinaria, a cana de açúcar, a fruticultura… tudo em um estado com apenas 3 milhões de habitantes. Mas o PIB daqui representa só 1% do País. E, como o Estado não pode dever mais do que arrecada, fica meio difícil. A insegurança jurídica é outra coisa que temos que ver.
AGORA – O que está faltando para o cenário melhorar?
MA – Ninguém está tomando uma decisão e a descrença está aumentando cada dia mais. O País tem como se superar, pois não existe nenhuma outra economia no mundo como a do Brasil. Temos sol doze meses por ano e podemos ter três safras, mas, por motivo político e falta de saneamento econômico, o dinheiro não vem para o País. Está tendo muito egoísmo, faltando o coletivo. Está faltando pensar nas novas gerações, nos jovens que estão desempregados.
AGORA – O governo Jair Bolsonaro tem conduzido bem o debate sobre as medidas econômicas?
MA – Todo mundo está consciente do que tem que fazer, mas todo mundo está querendo o ‘seu’ primeiro antes de ceder. O receio deles – daqueles que pleiteiam alguma coisa junto ao governo – é não conseguirem agora o que querem e, depois que a reforma sair, o governo não ceder mais. Tem que ter um partido só. Tem que ser o partido do Brasil. Estamos numa bolha.
AGORA – Onde está o problema? É na falta de articulação política?
MA – O governo está fazendo de tudo para acontecer. A equipe econômica é excelente. O governo tem os ministros Paulo Guedes (Economia) e Sérgio Moro (Justiça e Segurança Pública), que não poderiam estar melhores. Tem que dar os elogios também a Rogério Marinho (secretário especial de Previdência e Trabalho do Ministério da Economia). Só que temos um parlamento que teve uma mudança muito grande, mas os membros não estão preparados. Está faltando mais agilidade.
AGORA – Ou seja, é o Congresso que está prejudicando a reforma?
MA – Convencer mais de 500 deputados não é fácil. A democracia passa por isso, mas o debate está se alongando demais. Todo mundo sabe que tem que fazer. Eu acho que tem que ser realizada (a reforma), pois tempo é dinheiro, é oportunidade. O investidor não pode ficar esperando que o Brasil se ajeite para depois investir. Eles vão investir em outros países que estão mais adiantados.
AGORA – Voltando para o RN, o que tem travado o desenvolvimento, na sua opinião?
MA – O grande problema é que o Rio Grande do Norte está ficando ilhado por não ter voos que tragam pessoas para cá. Temos belos hotéis, uma estrutura ótima, o melhor réveillon do Brasil (em Pipa), temos tudo. Mas não temos acesso e as passagens são muito mais caras. Se uma pessoa vier do Mato Grosso, tem que voar quantas horas para chegar ao Rio Grande do Norte? Se vier de Belém, quantas horas? Enquanto isso, há voos diretos desses locais para Recife ou Fortaleza. Então, a gente está numa desvantagem logística imensa. Está difícil chegar a Natal, é doloroso chegar a Natal. Vai perder para Jericoacoara porque tem um aeroporto lá dentro.
AGORA – Como o senhor avalia o começo do governo de Fátima Bezerra no Estado?
MA – É muito pouco tempo (para avaliar). E ela depende de vários fatores. O Rio Grande do Norte não pode ir bem se o Brasil estiver mal. Ela tem que fazer o dever de casa. É preciso segurar o que puder segurar, cortar o que ela puder cortar. Como os empresários fazem…
AGORA – O senhor tem sentido essa predisposição da parte dela?
MA – Ela está bem entusiasmada. Eu tenho dito que a Ale tem tudo para ficar no Estado. Neste mês mesmo, trouxemos mais 50 funcionários de São Paulo para cá. Estamos reforçando a Ale aqui, mas acreditando que vai se resolver esse problema de logística. Se não, é como colocar uma empresa em Fernando de Noronha. Daqui a pouco, estará mais fácil chegar a Fernando de Noronha do que chegar a Natal.
AGORA – O senhor concorda com a concessão de mais incentivos fiscais para as empresas aéreas?
MA – Tem que sentar com as empresas e fazer uma negociação. Eu não sei o custo, não sei o que está embutido na tarifa. Não sei o porquê do preço caro. Essa é a grande pergunta.