A Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) anunciou que adotará medidas administrativas e judiciais para apurar os atos de violência registrados nesta segunda-feira 19, no Campus Central, em Natal, e responsabilizar os envolvidos. Em nota, a instituição informou que a mobilização política ocorreu sem autorização institucional e provocou danos ao patrimônio público, ameaças à comunidade acadêmica e interrupção de aulas e atividades administrativas.
A manifestação, convocada com o título “UFRN anti-Lula”, terminou em confronto entre bolsonaristas e estudantes ligados à esquerda nas imediações do Centro de Tecnologia e do Setor de Aulas IV. Imagens do episódio mostram socos, chutes e empurrões de parte a parte.

“A Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) manifesta seu mais veemente repúdio aos atos de violência ocorridos em 19 de outubro, no Campus Central da instituição”, declarou a administração universitária.
Segundo a nota, a mobilização utilizou equipamentos de som e fogos de artifício e foi acompanhada de ameaças à integridade física e moral de integrantes da universidade.
“Diante da gravidade dos fatos, a administração universitária adotará as medidas administrativas e judiciais cabíveis para assegurar a rigorosa apuração das ocorrências e a responsabilização dos envolvidos”, informou.
A UFRN também afirmou que a divergência de ideias faz parte da vida universitária e do exercício democrático, mas não justifica intimidação ou violência.
“A divergência de ideias, inerente à vida universitária e ao exercício democrático, não pode, sob qualquer circunstância, servir de justificativa para atos de intimidação, ameaças, violência ou desrespeito.”
Na manifestação, a instituição definiu a universidade como espaço de formação, pluralidade, diálogo e respeito às diferenças, orientado pela liberdade de expressão e pelo pensamento crítico. Reafirmou ainda o compromisso com a proteção da comunidade acadêmica, os princípios democráticos e o respeito às diferenças.
Ato reuniu parlamentares e provocou contraprotesto
Convocado para as 16h, o protesto reuniu carro de som, faixas e o boneco inflável Pixuleco, que representa o presidente e candidato à reeleição Luiz Inácio Lula da Silva (PT) como presidiário. Vídeos publicados nas redes sociais mostram a mobilização dentro do campus.
Participaram o deputado federal General Girão (PL), a vereadora de Natal e deputada estadual eleita Camila Araújo (PL), o presidente estadual do Novo, Renato Cunha Lima, e Paula Castelo Branco, apontada como liderança do movimento Direita UFRN.
A convocação nas redes sociais criticava cortes orçamentários, as condições da estrutura universitária e promessas de Lula para o ensino superior que, segundo os organizadores, não foram cumpridas.
Estudantes ligados à esquerda realizaram um contraprotesto com faixas em apoio ao presidente. Durante o confronto, houve pressão e empurrões junto ao portão do Setor IV, que apareceu danificado após o tumulto.
Henrique Neiva, estudante do 9º período de Jornalismo, afirmou ter sido agredido por integrantes do grupo bolsonarista e relatou que teve um dente quebrado. Também houve relato de outro jovem ligado à esquerda que teve os óculos quebrados.
Participantes apresentam versões diferentes
Fernando Neto, estudante de Engenharia Agronômica, atribuiu o início da confusão a estudantes de esquerda que, segundo ele, tentaram impedir a manifestação e lançaram pedras e cocos. Ele também afirmou que o boneco inflável foi perfurado com uma faca e que a tentativa de fechar o portão aumentou a tensão.
“Aí o nosso pessoal não aceitou, obviamente, e saíram feridos dos dois lados”, declarou.
Outra participante do movimento relatou que estudantes tentaram atingir General Girão com uma pedra e afirmou que um assessor do deputado ficou com o braço machucado. Ela também alegou ter visto faca e arma de fogo. Essas alegações não são confirmadas na nota da universidade. Em um dos vídeos divulgados nas redes sociais, Girão aparece discutindo com estudantes.
O professor de Serviço Social Henrique Wellen disse que estava em aula quando ouviu o barulho da manifestação. Ao sair, encontrou o carro de som e o boneco inflável dentro do campus. Segundo o docente, houve xingamentos, provocações e tentativas de entrada à força na universidade.
“Em determinado momento, ambos se exaltaram e teve agressões, mas agressões pontuais, que a gente tentou evitar”, afirmou.
Wellen relatou que tentou mediar o conflito e avaliou que o efetivo da vigilância universitária era insuficiente para controlar a situação.
Justiça Eleitoral recebeu denúncia
Policiais do 5º Batalhão acompanharam uma equipe da Justiça Eleitoral até o campus, mas os participantes já haviam se dispersado quando a PM chegou. A mobilização foi denunciada pelo aplicativo Pardal por possível propaganda eleitoral irregular.
A denúncia envolve a realização do ato em uma instituição pública. A restrição à propaganda eleitoral em bens públicos deve ser considerada em conjunto com a proteção à livre manifestação de ideias nas universidades; a presença de conteúdo político, por si só, não permite concluir que houve irregularidade.
Não há, nas informações apresentadas, manifestação do Tribunal Regional Eleitoral do Rio Grande do Norte (TRE-RN) sobre o resultado da fiscalização. A nota da UFRN apresenta a posição oficial da universidade sobre o episódio.
Confira a íntegra da nota da UFRN:
UFRN repudia atos de violência no Campus Central.
A Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) manifesta seu mais veemente repúdio aos atos de violência ocorridos em 19 de outubro, no Campus Central da instituição.
A Universidade é um espaço de formação, pluralidade, diálogo e respeito às diferenças, que tem na liberdade de expressão e no estímulo ao pensamento crítico, princípios fundamentais de sua missão. A divergência de ideias, inerente à vida universitária e ao exercício democrático, não pode, sob qualquer circunstância, servir de justificativa para atos de intimidação, ameaças, violência ou desrespeito.
A mobilização política em questão, realizada sem autorização institucional e com o uso de equipamentos de som e fogos de artifício, foi acompanhada de atos de violência e ameaças à integridade física e moral de membros da comunidade acadêmica, além de danos ao patrimônio público e provocando a interrupção de aulas e atividades administrativas.
Diante da gravidade dos fatos, a administração universitária adotará as medidas administrativas e judiciais cabíveis para assegurar a rigorosa apuração das ocorrências e a responsabilização dos envolvidos.
A UFRN reafirma seu compromisso com a proteção da sua comunidade acadêmica e a defesa intransigente dos princípios democráticos, da liberdade de expressão e do respeito às diferenças.