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Bálcãs

Morre em Haia Ratko Mladic, o general condenado pelo genocídio de Srebrenica, aos 84 anos

Ex-comandante sérvio-bósnio cumpria prisão perpétua e morreu sem admitir responsabilidade pelos crimes
Agora RN
31/08/2026 | 16:47

Ratko Mladic, ex-comandante militar sérvio-bósnio condenado pelo genocídio de Srebrenica e por outros crimes cometidos durante a guerra da Bósnia, morreu na quinta-feira 27, aos 84 anos, enquanto cumpria prisão perpétua em Haia, na Holanda.

A morte foi confirmada pelo Mecanismo Residual Internacional para Tribunais Penais, órgão das Nações Unidas responsável pelas funções remanescentes do Tribunal Penal Internacional para a ex-Iugoslávia. Mladic estava hospitalizado na cidade, e autoridades holandesas iniciaram os procedimentos previstos na legislação local para investigar as circunstâncias da morte.

Ratko Mladic, de fones de tradução, olha para cima durante audiência no tribunal de Haia, em foto em preto e branco
Ratko Mladic durante audiência no tribunal de Haia: o ex-comandante sérvio-bósnio foi condenado por genocídio, crimes contra a humanidade e crimes de guerra. Foto: Reprodução/YouTube

Conhecido como “Carniceiro da Bósnia”, Mladic foi responsabilizado pelo massacre de Srebrenica, considerado a maior atrocidade cometida na Europa desde a Segunda Guerra Mundial. Cerca de 8 mil homens e meninos muçulmanos foram mortos pelas forças sérvias em julho de 1995.

O ex-general foi condenado em 2017 por genocídio, crimes contra a humanidade e crimes de guerra. Ao anunciar a prisão perpétua, o juiz Alphons Orie afirmou que os crimes estavam “entre os mais hediondos conhecidos pela humanidade”. A sentença foi confirmada em junho de 2021 pela Câmara de Apelações.

A morte encerra a trajetória judicial de um dos principais responsáveis pela violência desencadeada após a fragmentação da Iugoslávia. A guerra da Bósnia deixou aproximadamente 100 mil mortos e deslocou mais de 2,5 milhões de pessoas, com efeitos sociais, econômicos e políticos que ainda atingem os países dos Bálcãs.

Mladic liderou as forças da República Srpska, entidade criada pelos sérvios que viviam na Bósnia. A formação recebeu apoio político e militar da Sérvia durante o governo nacionalista de Slobodan Milosevic, que se opunha à dissolução da antiga federação iugoslava.

Na véspera do massacre de Srebrenica, Mladic afirmou que vingaria a conquista da Sérvia pelo Império Otomano. Nos dez dias seguintes, seus soldados separaram homens e meninos muçulmanos de suas famílias, realizaram execuções e enterraram as vítimas em valas comuns. Posteriormente, as forças sérvias retiraram parte dos corpos e espalharam os restos mortais em outras valas — procedimento que buscava ocultar provas e dificultou a identificação das vítimas, trabalho que continuou durante décadas.

Além de Srebrenica, Mladic foi condenado por crimes relacionados ao cerco de Sarajevo, que durou quase quatro anos e matou cerca de 10 mil pessoas, entre elas aproximadamente 1,5 mil crianças. As forças sob seu comando bombardearam a capital bósnia a partir das montanhas próximas e utilizaram franco-atiradores contra civis. O tribunal também o responsabilizou pela perseguição, expulsão e morte de habitantes não sérvios em outras regiões da Bósnia, ações que integravam um projeto de remoção de muçulmanos bósnios e croatas das áreas reivindicadas pelos nacionalistas sérvios.

Mladic permaneceu foragido por quase 16 anos. Foi capturado em 26 de maio de 2011, escondido na casa de um primo em Lazarevo, uma comunidade agrícola ao norte de Belgrado, e pouco depois transferido para Haia.

A prisão teve consequências para a política externa e para a imagem econômica da Sérvia. A demora em localizá-lo era um dos principais obstáculos ao avanço das relações do país com a União Europeia, já que governos europeus condicionavam uma aproximação ao cumprimento das obrigações de cooperação com o tribunal internacional. A captura foi interpretada como parte do esforço sérvio para deixar a condição de isolamento político adquirida durante as guerras dos anos 1990 — a adesão à União Europeia, porém, continua pendente.

No período em que esteve escondido, Mladic sofreu pelo menos dois acidentes vasculares cerebrais. Quando foi encontrado, enfrentava dificuldades financeiras e reivindicava a restauração de sua pensão militar, que havia sido suspensa. Durante o julgamento, apresentava limitações físicas e tinha um dos braços debilitado. Apesar da condição de saúde, manteve uma postura de confronto: em sua primeira audiência, classificou as acusações como “repugnantes” e “monstruosas”; em outra sessão, gritou para os juízes “Tudo o que vocês estão dizendo é pura mentira!” e foi retirado da sala.

O processo de Mladic esteve entre os últimos julgamentos de repercussão conduzidos pelo tribunal para a ex-Iugoslávia. A corte processou quase 100 responsáveis pelas atrocidades cometidas nos Bálcãs, incluindo Radovan Karadzic, líder político dos sérvios da Bósnia e superior de Mladic. Karadzic foi capturado em 2008 e condenado em 2016 por acusações semelhantes; três anos depois, sua pena foi ampliada para prisão perpétua.

Mladic morreu sem admitir responsabilidade ou demonstrar arrependimento. Sua figura permanece objeto de divisão nos Bálcãs: enquanto grupos nacionalistas sérvios ainda o tratam como herói, sobreviventes e familiares das vítimas veem sua condenação e sua morte na prisão como a manutenção da responsabilização pelos crimes.

A morte foi noticiada na edição desta segunda-feira 31 do jornal O Correio de Hoje.