O diretor da Agência Central de Inteligência dos Estados Unidos (CIA), John Ratcliffe, fez uma visita reservada a Moscou na terça-feira 25 para apresentar ao governo russo uma avaliação negativa sobre a continuidade da guerra na Ucrânia. A mensagem foi de que o Kremlin deveria buscar um acordo antes que sua posição militar e econômica se deteriore.
A informação foi publicada pelo jornal The New York Times, que ouviu autoridades do alto escalão do governo americano. Ratcliffe reuniu-se com Aleksandr Bortnikov, diretor do Serviço Federal de Segurança da Rússia (FSB), uma das principais estruturas de inteligência do país.

Segundo o relato, o diretor da CIA não ameaçou adotar novas medidas contra a Rússia caso o presidente Vladimir Putin decida ignorar a avaliação e manter a ofensiva. A abordagem teria se concentrado nos custos do conflito e na possibilidade de a posição russa se tornar menos favorável com a extensão da guerra.
O governo americano questiona se Putin recebe de seus assessores informações completas sobre as perdas militares, os custos econômicos e o ritmo dos avanços territoriais. A avaliação em Washington é que integrantes do círculo do presidente russo podem evitar apresentar diagnósticos que contrariem as expectativas do Kremlin.
Ratcliffe teria argumentado que o desempenho recente não confirma a perspectiva de uma vitória russa inevitável. No ano passado, Donald Trump e parte de seus assessores demonstravam acreditar que Moscou poderia vencer a guerra. Desde então, as forças russas acumularam perdas e tiveram avanços limitados no território ucraniano. A visita ocorre em um momento de pressão sobre a economia russa: a manutenção do esforço militar exige gastos públicos, reposição de equipamentos e mobilização de pessoal, enquanto sanções e restrições comerciais dificultam o acesso a determinados mercados, tecnologias e fontes de financiamento.
A CIA mantém canais de contato com o FSB e com o Serviço de Inteligência Estrangeira da Rússia (SVR), mesmo durante períodos de deterioração das relações diplomáticas. Essas conversas funcionam paralelamente às negociações conduzidas por representantes políticos — outros contatos com autoridades russas são liderados pelo enviado presidencial Steve Witkoff e por Jared Kushner, genro de Trump.
Algumas autoridades americanas acreditam que Putin, um ex-oficial de inteligência, pode atribuir mais peso a uma mensagem levada pelo diretor da CIA do que a comunicações transmitidas pelos meios diplomáticos habituais. A escolha de Ratcliffe indicaria uma tentativa de apresentar os dados americanos diretamente ao sistema de segurança russo.
O Kremlin confirmou a ocorrência de contatos entre representantes dos serviços secretos, mas não detalhou o conteúdo. Autoridades russas classificaram esse tipo de comunicação como parte do relacionamento de trabalho entre órgãos de inteligência. Não está claro se a missão representa uma mudança na política dos Estados Unidos para a Rússia e a Ucrânia.
A visita também ocorreu em meio a informações de que Ratcliffe teria tratado da possibilidade de ações russas contra integrantes da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan). Países europeus da aliança vêm denunciando episódios atribuídos a Moscou, entre eles drones com explosivos encontrados em aeroportos da Alemanha, um projétil que abriu uma cratera em uma área rural da Polônia e ameaças aéreas que levaram países do Leste Europeu a mobilizar caças. Pessoas informadas sobre a reunião disseram à Reuters que o assunto foi mencionado, mas não ficou estabelecido se esse era o objetivo principal da viagem. O apoio de Moscou ao Irã também teria integrado as conversas.
Trump rejeitou a interpretação de que a missão tenha sido organizada para transmitir uma ameaça. Na quinta-feira 27, o presidente americano afirmou que a Rússia não atacará integrantes da aliança militar. “A Rússia não vai atacar países da Otan”, disse Trump. Ele acrescentou que mantém “boas conversas” com Putin e classificou a ida do diretor da CIA a Moscou como uma “visita de semirrotina”.
O Kremlin também chamou de “alarmistas” as informações de que Moscou estaria preparando alguma ação contra países da Otan. Ainda assim, os episódios registrados na Europa mantêm os serviços de inteligência ocidentais em alerta para operações militares, ataques cibernéticos, sabotagens ou ações destinadas a testar a resposta da aliança.
A mensagem sobre a Ucrânia, por sua vez, expõe uma mudança no diagnóstico americano. A Casa Branca procura convencer Moscou de que prolongar o conflito pode elevar os custos internos sem garantir ganhos territoriais proporcionais. Ao evitar uma ameaça direta, Ratcliffe teria oferecido ao Kremlin uma avaliação de risco: negociar agora ou enfrentar condições militares e econômicas menos favoráveis posteriormente.
O relato foi publicado na edição desta segunda-feira 31 do jornal O Correio de Hoje.